FIGURAS GORJONENSES 11, A Arte de João de Brito Viegas (João Alcaria)
"DE TODAS AS COISAS A MEDIDA É O HOMEM, DAS QUE SÃO ENQUANTO SÃO, E DAS QUE NÃO SÃO ENQUANTO NÃO SÃO"
Assim começava Protágoras muitos dos seus escritos, segundo Diógenes Laercio.
Esta mensagem, pensada e escrita há 2500 anos, antes de Cristo portanto, não só reporta como relativiza ao Homem todas as coisas que existem ou ainda não existem como, aquelas que não existem ou existem apenas em pensamento.
Tudo é comparado com a dimensão humana e esta dimensão é o metro-padrão usado para medir e aferir tudo que é visto e material ou pensado e transcendental. Deste modo, também as ideias da imaginação teriam de ser pensadas como criadas à imagem e medida do pensamento do Homem.
Naquela época, tal proposição, pressupunha implicitamente uma crítica aberta, ou mal disfarçada, aos deuses vigentes, porquanto colocava também a sua existência como uma ideia nascida e alimentada sob medida do pensamento dos humanos e, por conseguinte, uma imagem pensada e criada pelos humanos à sua medida física e espiritual e, consequentemente, com atributos, medidas e acções práticas à sua medida e semelhança.
Tal inédita proposição implicava, para os guardiões do templo da altura, como para os actuais, uma verdadeira blasfémia. Tanto mais que o mesmo Protágoras já havia escrito que "sobre os deuses não posso saber nem se existem, nem se não existem, nem que forma têm; muitas coisas impedem que o saibamos: a obscuridade do problema e a brevidade da vida humana".
Assim, consta, foi ameaçado de um processo de impiedade e que, fugindo de Atenas, morreu de um naufrágio a caminho da Sicília.
Claro que a proposição de Protágoras pressupunha um pensamento que colocava o Homem no centro de tudo, do que existia e do que ainda não existia ou existia apenas em pensamento, portanto com um alcance filosófico que ia incomensuravelmente muito para além de ser o Homem um comezinho comparador das medidas materiais das coisas com as medidas materiais do corpo humano.
E ainda hoje podemos encontrar exemplos muito conhecidos e divulgados na vida prática que demonstram quanta verdade há na proposição de Protágoras.
A tradição ancestral, largamente difundida e utilizada ainda hoje, de "ler a sina", isto é, da tentativa de conhecer o futuro através da leitura da palma da mão dos humanos, é um vestígio evidente da procura humana de conhecer o transcendental através da leitura de imagens do futuro a partir de medidas e sinais físicos dos humanos.
Muitos outros exemplos, na vida prática, de medição de corpos e figuras geométrica pela utilização comparada com determinadas medidas do corpo humano, são bem conhecidas; basta lembrarmo-nos das tradicionais medições "à braçada", “a palmos” ou "a passos" e que, ainda hoje, no sistema de medidas oficiais inglesas subsistem a "polegada" e o "pé" como medida de comprimento.
Entre outros casos de uso prático usados pelos homens nos seus trabalhos de artes e ofícios ou nos trabalhos do campo, conta-se o caso do João de Brito, filho de João Alcaria, Mestre calceteiro e Zézinha de Brito(*), Mestra artesã doméstica.
Há dias o João, no café aqui da nossa terra, falava da capacidade de aprender e do "jeito" e "habilidade" de mãos que tinha para fazer bem as coisas em que se empenhava. Isto veio à conversa porque, dizia ele, nunca na vida tinha feito o mínimo trabalho de cozinha mas que, face à inesperada incapacidade da esposa, só de ter visto fazer tinha aprendido em pouco tempo a fazer todo o tipo de pratos de comida tradicionais, os que a mulher fazia e até outros de que também gosta.
- Olha, disse-me ele, desde miúdo que aprendi com os meus pais a fazer bem tudo o que via fazer ou eles me ensinavam. E, pela observação atenta e compreensão de como e porquê as coisas resultavam bem, algumas vezes até melhorava a prática e tornava mais eficiente a maneira de fazer as coisas -.
-Isso nota-se bem hoje, particularmente, na vossa arte familiar de calceteiro, disse eu, pois que tu hoje quase só és solicitado para fazer calçada artística, tornaste-te um artista calceteiro e o teu pai foi sempre um bom Mestre na arte de fazer calçada.
- Bem, respondeu ele, no tempo do meu pai não se faziam calçadas sob desenho de artistas ou mesmo de imaginação e desenho próprio como hoje, caso ele vivesse neste tempo também chegava lá, tinha arte para isso -.
O João fez depois uma pausa longa e por fim falou:
-Vou contar-te uma história que se passou comigo, era ainda um miúdo. Uma vez, tinha catorze anos, fui sozinho na mula com os apetrechos de lavoura semear uma terra dos meus pais. Quando andava espalhando o trigo sobre a terra por lavrar apareceu o vizinho da terra ao lado, também preparado para semear a sua terra.
Então, o homem reparando no meu trabalho, voltou-se para mim e disse: - Ó miúdo, tu sabes o que andas fazendo ou andas brincando a atirar trigo ao chão?
- Ando semeando trigo para depois lavrar a terra e vir a obter uma bela seara e uma boa colheita -, respondeu o miúdo João convicto do seu bom trabalho.
-Bem, disse o homem, então vamos ver se é como dizes ou, pelo contrario, andas a semear para no fim teres uns bagos que nem dão para um pão, ou por outro lado estás a tapar a terra de trigo que depois nem espaço tem para nascer -. - Explique-se lá melhor que não percebo o que quer dizer -, respondeu o João. - Vou aí ter contigo e vou medir a qualidade da tua sementeira -, disse o homem.
De seguida dirigiu-se à terra do João e começou a apalpar a terra com força até deixar vincada a marca da mão sobre a terra. Fez esta operação em vários locais espalhados pela terra semeada.
Depois virou-se para o João e disse;
- Vem daí comigo, agora vamos medir quantos bagos de trigo estão em cada palma da mão que eu deixei marcada na terra. Se em cada uma estiver contido cinco bagos de trigo podes considerar-te um mestre semeador, apesar de ainda seres um miúdo -.
Dito e feito, o João, ainda garoto, ficou espantado pois nunca fora confrontado com tal medição para aquele ou outro efeito semelhante mas, acostumado a fazer bem o que se metia a fazer por conta própria, lá foi verificar a prova de exame proposta pelo vizinho, um homem bem experiente na arte e pelo visto um empírico protagórico que chegou lá pelo engenho da necessidade.
Pelo caminho, João ainda se defendeu, não fosse a coisa ser absurda face ao padrão imposto como ideal. Assim:
- Bem, eu nunca espalhei sementes para obter uma precisão como essa, nem nunca fui ensinado ou tinha pensado dessa maneira, esforço-me em espalhar o trigo sobre a terra o mais certinho que posso, já fiz várias vezes e tenho-me saído bem, as searas ficam bonitas, agora se são cinco ou mais ou menos bagos em cada área de uma palma da mão, isso não faço a menor ideia -.
Feita a medição, então não é que em umas marcas lá estavam os cinco bagos repartidos e em outras estavam os cinco e já era visível, no rebordo da palma da mão, sinais de outros bagos.
Agora, quem olhava para o João, mais espantado que o João olhara para ele ao propor-lhe aquele exame, era o homem semeador experiente e aferidor de qualidades de trabalho servindo-se do método de que o homem é a medida de todas as coisas, a que chegara por necessidade prática.
Mal chegou a casa, entusiasmado e contente, contou tudo à mãe. Esta ouviu-o atentamente e com grande serenidade. No fim ela pronunciou-se, assim:
- Muito bem, filho, só uma pergunta; e tu pediste ao homem para fazeres a mesma prova à sementeira dele? Pois devias tê-lo feito, que aquilo que se exige aos outros deve exigir-se primeiro a si próprio.
Talvez tivesses feito a prova de que os homens que medem tudo em relação a si próprios, contudo, entre si próprios, não se medem aos palmos.
A Tia Grazina nasceu em 1926 no ano do derrube da democracia implantada com a Répública e chegada ao poder, como ministro das finanças, de Salazar.
Este, em nome do saneamento das finanças públicas, carregou os portugueses trabalhadores dependentes de austeridades brutais através de um programa de governo ditatorial.
Veja-se, através das declarações da Tia Grazina, as repercussões nas famílias pobres que não tinham terras como meio de sustentatação económica para sobreviverem autonomamente.
Como menina "guardava os borregos da Mãe" e não foi para a Escola, ao contrário dos irmãos, foi sim trabalhar aos 8 anos 8 para os trabalhos duros do campo de "nascer ao pôr" (do Sol) por conta dos "proprietários".
Ao mesmo tempo aprendia, como todas as mulheres naquele tempo, a trabalhar nas "empreitas" que era o artesanato de trabalhar a palma e com ela fazer a "baracinha" e a "empreita" e com esta fazer alcôfas, gorpelhas, ceirões que serviam de utensílios na apanha e guarda dos frutos secos e cereais. Com os mesmos materiais faziam as mulheres as esteiras e passadeiras que usavam no chão e ornamentavam as suas humildes casas. Nestes trabalhos punham toda a sua veia artística fazendo peças decorativas de variadas cores e feitios conforme a imaginação e habilidade.
A Tia Grazina é, hoje em dia, uma raridade dessa mulheres que levaram uma vida de trabalho duro no campo e, depois em casa, duplicava com nova dose de trabalho duro nos trabalhos de casa e, nas horas de descanso dedicava-se afanosa e amorosamente a tricotar "as empreitas" que ia vender a Faro ou Loulé montada no seu burrinho. E muitas outras iam a pé.
Viveu neste trabalho diário sempre repetido, ano após ano, tendo apenas como desígnio a pequena ambição de ter uma casinha sua como abrigo seu e dos seus e esconderijo de suas intimidades.
O Leonardo foi a figura que mais
pisou o chão e as calçadas do "Alto" nos Gorjões. Mesmo quando não se
passava nada nem havia ninguém no lugar, ele lá estava dando vida ao instante.
Com a música do seu magnífico assobio de imitar pássaros, sentando-se nas
sombras calcetadas das casas conforme o correr do sol, ele sozinho dava o
colorido ao "Alto" até aparecer alguém para uma cavaqueira de matar o
tempo. Era tão habitual a sua presença que, nas raras vezes que faltava ou se
atrasava, era motivo de preocupação dos habitantes e pessoal das
"vendas" locais. Uma vez, num
desses raros atrasos, eu perguntei-lhe: A: -Então
Leonardo, só agora? L: -Fui
ganhar o dia, tu não comes todos os dias, eu também e ninguém m'o dá. A: -Foste
para a pedreira fazer calçada? L: -Fui
ainda de noite armar as ratoeiras, ao nascer do sol apanhei uma barrigada de
figos "arréguados" da brandura da noite, e depois fui p'rá pedreira
até o sol deixar. A: -O sol
não te deixa ficar na pedreira? L: -Vai p'ra
lá tu e logo vez, nem 15 minutos aguentas no buraco da pedreira com o sol a
dar-lhe em cheio. Não trabalho p'ra me matar a "arranjar", trabalho
para comer e manter-me vivo. E tenho de ir dar "revista" às
ratoeiras. A: -Depois
da "revista" voltas à pedreira? L: -Não me
vez aqui, venho comprar o peixe, depois vou p'ra casa arranjá-lo e ainda dou a
"2ª revista" às ratoeiras e só depois é que vou p'ra casa assar o
peixe, comer e arranjar os passarinhos. A: -Depois
vens até ao "Alto" descansar e fazer tempo até fazer sombra na
pedreira? L: -A partir
do meio da tarde vou fazer umas pedras de calçada até ao sol posto,já bate sombra e já se aguenta o calor. A: -E onde é
a pedreira? L: -É onde
calha, agora é logo ali no cerro do Xico-à-Menina, pedi ao dono do mato para
tirar a pedra e ele disse que sim. Já lá tenho um buraco enorme e uma pilha de
pedra arrancada. Já foi na Cruz de Pau, no Corgo, no Mato da Mina, é onde me
deixam. A: -Fazes
tudo sozinho? Como é que arrancas a pedra? L: -Com o
picareto, a pá, a alavanca e os guilhos. E os braços e as mãos, olha as minhas
mãos, têm gretas pretas que parecem regos de arado. E a marreta e o martelo
para partir a pedra e "quadrá-la" para calçada. A: -Isso dá
p'rá sopa , nunca consegues "ajuntar" um pé de meia p'rá velhice. L: -Se não
tiver nada, quando a velhice chegar morro mais depressa, se já não me governo
sozinho também já não estou cá a fazer nada, não faço falta a ninguém. A: -Os moços
do teu tempo emigraram e compraram automóvel, fizeram casas novas, compraram terras
e andares, estão bem e tu é sempre o mesmo pobre arrastar de vida. Não tens
inveja? L: - Olha
p'ra eles, é dores na coluna, nas pernas, hérnias, ciáticas, sofrem de mil
males. Andaram a passar mal e a matar-se na ganância para "ajuntar",
agora gastam o que ganharam no médico e não se livram dos males. E o que sobra,
logo vejo se levam p'ró céu. A mim podem dar-me uma herdade no Alentejo que eu
não quero. A: -Como? Se
te dessem uma herdade grande e rica não querias? L: -Nem
pensar. Tinha de contratar homens, tratar de papéis, pagar décima, impostos, organizar e pagar ao
pessoal, não fazia mais nada senão pensar na herdade, trabalhar e morrer por conta da herdade e depois a herdade ficava p'ra quém? Não, não tenho vida p'ra
isso.
Realmente
não tinha vida para além daquela de que gostava e sempre levou sem invejar nada
nem ninguém. Nunca foi senhor nem escravo de ninguém, nem de bens materiais ou
inveja deles. Teve como único bem pessoal o seu próprio corpo e viveu para
vesti-lo, alimentá-lo e tratá-lo apenas o necessário à sua manutenção. Tinha um
sentido primitivo e pródigo da vida, era como uma árvore que lhe basta a terra
para dar flôr e frutos aos outros. E foi assim
até ao fim, adoeceu gravemente e recusou ir ao médico. Morreu depressa como
queria. Hoje, dia primeiro de Abril mas é verdade, eu vi, foi a enterrar. Hoje
o buraco da pedreira abateu-se e soterrou-o na nossa memória.