Saturday, December 31, 2016

JOSÉ PINTO CONTREIRAS EM FRANÇA NA GUERRA 1914-1918, NO DIA 08.11.1917

 PERDIDA NOS PAPÉIS DO FILHO WENCESLAU DESCOBRIU-SE ESTE POSTAL INÉDITO DOCUMENTO PRESTES A SER CENTENÁRIO. 
Precisamente cinco meses e um dia antes do alvorecer sangrento e triste de 09Abr1918 o combatente 1º Cabo Observador da Grande Guerra 1914-11918 José Pinto Contreiras envia, ao seu padrinho nos Gorjões José Mendes Pinto, desde a Flandres Francesa de uma localidade não indicada mas, certamente, próximo da frente junto ao Rio Lys, esta foto envergando com pose e cuidadamente a farda de gala.
Não faltaram os binóculos que indicam a sua especialidade militar e até o cigarro entre os dedos para a pose fotográfica. Nesta data, tudo indica, a guerra mesmo a sério das espingardas, das baionetas, dos obuses, dos gases, dos feridos e mortos e dos ratos nas trincheiras, podia esperar uns dias embora curtos.
Tinha 24 anos e já havia concluído em 1915 a construção da sua primeira casa de porta aberta ao público como "taberna" no local do cruzamento da Estrada Municipal 520 com o Caminho 1306, dos poços públicos.
Contou-me o filho mais velho de José Pinto Contreiras, Eduardo, que o pai havia aceitado ir para a guerra, incorporado não voluntário, a pedido do pai dele em substituição de um irmão mais velho que era casado e também já era pai de filhos pequenos. 
Sete meses antes, em Abril de 1917, havia assinado como fundador os Estatutos da "Associação de Classe dos Operários da Construção Civil e Artes Correlativas de Santa Bárbara de Nexe"*, sua Freguesia natal do Concelho de Faro. Assinara na sua qualidade de operário da construção civil que havia aprendido por si próprio na construção de valados, pontes e pontões, ditas "obras de arte" que faziam parte das empreitadas de estradas onde começou a trabalhar com o pai aos doze anos depois de concluir os estudos da 4ª classe. Também a casa de taberna concluída em 1915, tinha 22 anos, já fora toda ela planeada e eregida por suas próprias mãos. 
Já era, aos 22 anos, operário pedreiro e encarregado de estradas reconhecido e sobretudo operário com consciência de classe dado as suas leituras de pendor social como a Seara Nova e Proudhom.
Após a vergonhosa debandada dos Soldados do Corpo Expedicionário Português (CEP) face ao brutal ataque dos alemães em La Lys a 09Abr1918, voltou à sua terra e dos seus antepassados desde o Séc. XVI mais experiente e, sobretudo, conhecedor de realidades mais avançadas que conhecera nas comunidades de aldeias francesas.
Estavam reunidas as condições de capacidades, experiências e conhecimento para sonhar e se lançar na construção da sua pequena Utopia que era criar uma comunidade mais auto-suficiente e socialmente mais organizada e avançada que introduzisse a modernidade no seu Lugar dos Gorjões.

* Ver aqui o post "A utopia de José Pinto Contreiras" no mês de Novembro 2016         

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Saturday, December 05, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 7


JOSÉ PINTO CONTREIRAS

MASSIFICAÇÃO; FALÊNCIA DA UTOPIA

Este entusiasmo de festa e alegria foi constante e cresceu durante anos a fio até atingir pontos altos nos finais dos anos cinquenta do Séc XX.
Nesta altura o país, face à outra Europa em forte crescimento de reconstrução pós-guerra, era muito pobre e o povo vivia com muita dificuldade e miséria. Com a chegada do turismo e depois o surgimento da guerra colonial no começo dos anos sessenta provocaram uma procura constante aos trabalhos na actividade turística junto às praias da costa e, sobretudo, uma fuga em corrida à emigração, nomeadamente, para França.      
A desvalorização dos frutos secos retiraram quase totalmente o rendimento da terra às famílias. As leis de protecção à cidade-dormitório que proibiam a construção nas terras junto das velhas casas de pais e avós forçaram a ida dos jovens para apartamentos na cidade, massificando-a e provocando a inevitável desertificação humana dos sucessores naturais de várias gerações consecutivas dos povoados ancestrais do Barrocal.

A bela e sentida utopia nascida e criada aqui, inspirada nos modelos observados durante a participação pessoal na primeira Grande Guerra, manteve-se viva e actuante como força de modernidade e civilização durante meio Século no Sítio de Gorjões.
Cumpriu plenamente o sonho que se fez utopia e foi futuro no seu tempo.

(conclusão)

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Tuesday, December 01, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 6


EM 1981 AINDA ESTAVA ABERTA AO PÚBLICO, COM SE VÊ NA PORTA DA DIREITA DESTA FOTO, QUE NA FAIXA BRANCA VISÍVEL AO ALTO TINHA INSCRITA A PALAVRA "RETRETE"

ACTUALIZAR A MODERNIDADE, MANTER VIVA A UTOPIA (2)

Também pela primeira vez no sítio uma construção era fechada com uma laje de betão armado. Foram precisos dúzia e meia de homens de muita envergadura e resistência para garantir acabar a placa durante um dia de sol a sol utilizando apenas pás, baldes, sarilhos e muita força e suor humano.
Além desta inovação técnica para a cobertura do “Salão” outra de cariz social estava pensada e era posta em construção para a inauguração. Tratava-se de dotar o moderno edifício de uma rede de esgotos canalizados para uma fossa em local distante no terreno do largo quintal adjacente. E, simultaneamente, aproveitar para instalar também uma rede idêntica na habitação dita "casa dos altos" interligada  à rede do "salão".
Mas o forte entusiasmo e sentir social da pessoa Estanco ficou expresso de forma incomum ao construir, aberto ao público, uma "Retrete" ao serviço da população. Ligada à rede de esgotos da casa dos altos e do salão construiu sob um vão de escada, entre a casa de barbearia e a do sapateiro, uma "Retrete", assim mesmo estava inscrito a tinta sobre a entrada da mesma, com porta para a rua pública e aberta a todo o povo. 

Construído todo o conjunto do "Salão", a "Retrede" e respectivas redes de águas e esgotos que os serviam, ficou estabelecida a sua inauguração, com festa de arromba, para 9 de Abril de 1945 em memória da data da mortífera batalha de La Lys, para a qual todos os camaradas de trincheiras habitantes locais e arredores foram convidados, incluindo Mestre José Ferreiro (Pai), também camarada de guerra, brilhante acordeonista e compositor que abrilhantou a festa.
Foram mortos, esfolados e assados no espeto três carneiros, digeridos com discursos comemorativos, histórias da guerra, episódios das trincheiras, música de corridinhos e valsas francesas durante um dia inteiro.
Esgotaram-se pipa e meia de cem litros e alguns garrafões de medronho escorrendo pelas gargantas dos participantes entusiasmados e população local assistente, declamaram-se versos do já popular Poeta Aleixo e cantaram-se desgarradas ao despique.

Tempos depois, o Poeta Aleixo, que frequentava quase semanalmente o Sítio para cantar e vender os seus versos em folhetos de "Quadras" populares, que já fora o autor da letra da Marcha da Sociedade Recreativa Gorjonense, como habitualmente, veio aos Gorjões e, junto à taberna que frequentava e onde cantava, deparou-se com o nome "RETRETE" pintado no frontespício da mesma.
Inteirado da obra concebida e do Homem que a concebeu, logo ali rematou,

Temos aqui um homem novo
Que sabe bem onde se mete
E que para benefício do povo
Mandou construir uma "Retrete"


(continua)

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Saturday, November 28, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 5


SALÃO DA ANTIGA SOCIEDADE RECREATIVA GORJONENSE

ACTUALIZAR A MODERNIDADE, MANTER VIVA A UTOPIA (1)

Após a 2ª Grande Guerra os Gorjões tornara-se um dos sítios mais populosos da Freguesia não só pelo bom rendimento proporcionado pelos frutos secos nesse tempo mas, sobretudo, pelo desenvolvimento local de uma classe de empreiteiros de estradas que, iniciada pelos "Estancos" fez escola, foi depois continuada pelos descendentes, parentes e vizinhos que tendo sido discípulos encarregados e capatazes dessa escola de obras de estradas, se lançaram a concorrer a obras por conta própria, fazendo-se também empreiteiros de obras de caminhos, estradas e pontes.
Esta escola de empreiteiros de caminhos, estradas e pontes por todo o Algarve e Alentejo criaram novas categorias de trabalhadores remunerados acima dos trabalhos do campo. Eram trabalhadores especializados nas várias artes de construir obras de arte como pontes de arcos e estradas pelos perfis ondulados das serras; foram os capatazes gerais, os capatazes de trincheira, os espalhadores, cilindradores, niveladores e alinhadores, os especialistas em abrir furos na pedra e fazer disparos de pólvora, os carreiros, os pedreiros, canteiros e calceteiros de pendor artístico. 
 
Entretanto o Estanco, homem de que falamos, que já criara as “Casas de Vendas” e as “Casas dos Mestres” e era fundador da Sociedade Recreativa instalada na sua “Casa dos Altos”, obreiro de transformações de natureza comerciais e sociais tais que tornaram o lugar do “Alto” na nova centralidade dos Gorjões até hoje, embalado nos seus sonhos modernizadores mantinha todo o potencial de sua imaginação visionária criativa com vista a actualizar e melhorar, com novas obras únicas, a sua terra natal de três séculos e quatro gerações.
Em plena guerra, ano quarenta e quatro do Séc.XX, insatisfeito com o espaço adaptado e apertado, face ao sucesso da Sociedade Recreativa Gorjonense, lança-se na construção de um moderno “Salão” próprio e adequado a bailes, teatro, festas, homenagens e outros acontecimentos sociais do sítio.
Este “salão”, situado num terreno do pai em frente às “casas de vendas”, com a dimensão de 20x10m, incluía várias inovações dos tempos modernos: um largo bufete com mesas de mármore servido por empregado de mesa vestido de casaca branca, pano e bandeja na mão onde já havia cerveja e pela primeira vez se servia café; um balcão sobre o salão de baile com mesas e cadeiras servido pelo bufete; “retretes” para homens e mulheres com esgotos e água canalizada; uma bacia de cerâmica com torneira, servida pela água canalizada, para lavar as mãos; um palco no salão de baile que permitia saídas para duas salas contíguas e trocas de entrada e saídas dos actores através do fosso sob o mesmo palco, este também equipado com abertura para o “ponto” de teatro.

 (continua)

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Monday, November 23, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 4


A MODERNIDADE

Com a instalação e inauguração em 1943 sob aceitação e aplauso total, rapidamente a Sociedade Recreativa Gorjonense se transformou num sucesso social frequentado por todo o povo residente e gente de todos os arredores à volta, e passou a ocupar o lugar central de convívio e animação domingueira para a população. Todos podiam frequentar, sócios e não sócios com aprovação dos dirigentes que só recusavam a entrada a bêbados e desordeiros.
A Sociedade Recreativa fez-se assinante do jornal “O Século” e adquiriu uma “telefonia” a bateria de carro para ouvir as notícias nacionais mas também servia para ouvir os “postos” estrangeiros em ondas curtas, nomeadamente, a BBC e “Rádio Moscovo” acerca da guerra que, embora proibidas e dos ruídos introduzidos para boicotar a audição, eram muito ouvidas dada a conhecida falta de independência e manipulação das notícias oficiais do regime salazarista.
Deste modo a Sociedade Recreativa Gorjonense foi uma inovação que civilizou os costumes rudes antigos, quer pela actividade recreativa com organização de bailes, festas e jogos quer pela actividade cultural com peças de teatro de sátira local ditas “Récitas”, leituras de jornais e audições rádio-telefonia, quer ainda na actividade social com festas de beneficência para angariação de fundos em prol dos muito pobres e doentes.

Para abrilhantar os bailes eram chamados os melhores e mais famosos acordeonistas e algumas vezes grupos chamados de “Jazz-Band”. Os bailes decorriam sob a ordem e vigilância da Direcção que não admitia provocações, desordem ou guerreias na sala nem gente a cuspir no chão ou com chapéu na cabeça.
As raparigas mais prendadas passaram a frequentar o baile e serviram de modelo para as outras que passaram a ir à cabeleireira fazer permanentes vistosas e rapar as pernas cabeludas até então considerado um símbolo atractivo da sexualidade feminina.
Os rapazes passaram também a tomar em conta o modo de vestir e apresentar-se, como pretendentes, face às “moças” de seus olhados. Sobretudo, os rapazes passaram a não usar botas cardadas ou sapatos e peúgos rotos, que logo eram notados, pelas mães e avós das moças, como referências pouco abonatórias para pretendente a suas filhas e netas. Também eles passaram a usar fato completo feito por medida no alfaiate profissional, anéis vistosos ditos “cachuchos”, gravata com alfinete, sapatos engraxados e até alguns apresentavam-se com penteado às ondas feito na cabeleireira,  muito ensopado e cheiroso de brilhantina.
Também as “moças” raparigas tomaram-se mais discretas e cuidadosas nas “tampas” ou recusas de ir dançar com alguns moços, ou porque não gostavam do moço ou porque já tinham “par certo”. “Tampas” essas que antes tinham sido motivo forte de grandes desordens e guerreias nos armazéns de “trazer balho”.
A nova ordem estabelecida e aceite voluntariamente impunha a observância de igualdade de respeito mútuo, mesmo entre locais e vindos de fora, o que permitia maior troca de contactos e conversas entre moças e pretendentes e, deste modo, alargava-se a liberdade de escolha no enamoramento entre moços e moças em detrimento da vontade de pais, mães e avós.
  
Assim, tal como para as “moças” raparigas e “moços” rapazes a Sociedade Recreativa foi uma força civilizadora face a hábitos e costumes antigos, também para os pais e irmãos mais velhos o foi por vivência própria com regras e influência prática e próxima de seus familiares jovens. 
Sob a ordem imposta pelos Estatutos, levados à risca por uma Direcção de homens fundadores respeitados, foram interditos os jogos de valentia como o “jogo do teso” ou “abarcas” e "despiques" de jogos de pernas e cajados, que eram vulgares nos antigos armazéns de “trazer balho”. 
Como medida preventiva, à entrada, os grossos e nodosos cajados de fabrico próprio para serem os mais resistentes e dolorosos nos jogos, eram deixados na Direcção e só devolvidos à saída.
Progressivamente os novos hábitos e comportamentos foram tomando conta do dia a dia até que, ser o mais valente ou o que aguentava beber mais, deixou de ser símbolo de força e virilidade.

Sob a Bandeira bordada, o Hino e Marcha próprias, criadas por figuras artísticas locais ou amigas, cantados por grupos de jovens gorjonenses e escutados silenciosa e respeitosamente por todos de cabeça descoberta e chapéu na mão, a Sociedade Recreativa tornou-se um símbolo muito forte de identidade e unidade do povo de Gorjões e seu maior orgulho.
Com os Estatutos aprovados e sua consequente aplicação o povo pode conhecer e apeeender pela primeira vez como, por via prática, se exercia o aspecto mais fundamental da Democracia: o voto livre. E não deixa de ser irónico que um poder político que escondia, proibia e reprimia ferozmente o ensino e qualquer organização ou expressão de Democracia na sociedade portuguesa, tornasse uma exigência obrigatória, nos Estatutos das colectividades ditas Sociedades Recreativas, o uso de processos democráticos. Pois regulamentava um período findo o qual toda nova Direcção tinha de ser eleita em Assembleia Geral pelos sócios pelo método democrático de um sócio um voto.
Quer as discussões travadas com as pessoas propostas para nova Direcção quer, sobretudo, o facto de posteriormente haver uma escolha por voto livre, fez alertar e crescer em muita gente uma consciência democrática antes desconhecida. Aprenderam o que significava a liberdade de escolher pelo voto livre pessoal e passaram a perceber e apreender porque lá fora os Presidentes mudavam de tempos a tempos e por cá só mudavam por morte. 
Na totalidade da sua acção pode dizer-se que a Sociedade Recreativa foi uma escola de educação cívica e ética que pela sua prática virtuosa no uso e defesa de progressos civilizacionais durante gerações, ensinou os novos gostos, maneiras, valores e comportamentos racionais marcando a sua criação o momento de entrada dos Gorjões na modernidade.

 (continua)

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Friday, November 06, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 1


FORMAÇÃO; "O LOUCO"

Havia um ruído de conversa na Capela de Santa Catarina de Gorjões e o padre, incomodado para se fazer ouvir no sermão, levantou a voz e disse:
Calados. Estejais calados! Esta é a casa de Deus e deveis estar em completo silêncio e respeito sobre este chão sagrado.
Uma voz do fundo da Capela respondeu: Mais sagrado é a terra que dá o pão e cria os animais que nos ajudam e alimentam.
O padre levantou alto a voz e perguntou: Quem falou? Quem falou?
E a voz do fundo respondeu: Fui eu, fui eu, e repito, mais sagrado é a terra que dá o pão e cria os animais que nos ajudam e alimentam como os ratos que os soldados portugueses comeram nas trincheiras de La Lys para não morrer de fome.
Fez-se burburinho e de seguida alguns homens saíram da Capela entre eles o homem do fundo que respondera ao padre.

Era um descendente em quarta geração da família que nos finais do Séc.XVI se instalou nas terras frescas e planas da Caramujeira com plantação, seca e venda de tabaco naquele tempo chamado negócio de “estanco” que, por sua vez, deu nome ao local, ainda hoje dito Estanco, e aos descendentes dessa família original, gerações depois, baptizados e registados com o nome “Estanco”.
Chamava-se José Pinto Contreiras e era filho de Maria da Conceição Estanco, mulher seca, severa e austera, e Manuel Pinto Contreiras, homem gordo sereno e bondoso, pequeno proprietário que foi em sociedade com os dois outros Estanco, seus cunhados, dos primeiros empreiteiros de caminhos, pontes e estradas do Algarve ainda no Séc.XIX.

O Pai Manuel, depois da aprendizagem das letras e contas na “Escola Paga” de Mestre Raul obrigou-o a frequentar a “Escola Oficial” em Santa Bárbara de Nexe a cinco kms de distancia que todos os dias tinha de fazer a pé por caminhos de pedras à ida e vinda.
Foi, nos primeiros anos do Séc.XX, dos raros miúdos locais a escolarizar-se com a 4ª classe. Depois como rapaz e adulto tornou-se interessado pela leitura de jornais e livros e acompanhava as discussões político-ideológicas entre os vários partidos que combatiam a monarquia na altura.
Aplaudiu e acompanhou a implantação da República, a discussão ideológica e consequente formação de partidos, conheceu Raul Proença que casara com uma parenta sua e que o influenciaria muito pela leitura da Seara Nova, Blasco Ibañhez, Victor Hugo, Proudhon e outros.

À sua humanidade amiga da vida das pessoas que desejava vivessem numa sociedade solidária harmoniosa progressista, aliava a sua formação cultural adquirida pela leitura de pensadores considerados vanguardistas próximos do seu entendimento e visão do futuro.
Foi, tendo como suporte essa visão para além do seu tempo que, enquanto realizava os trabalhos para execução da sua utopia local, contra a mentalidade corrente e familiares, após a conclusão da Escola Primária, mandou estudar para Faro todos os filhos depois dos dois mais velhos.
Uma aposta no futuro que foi uma ousadia pioneira no Sítio e rara na Freguesia, que valeu a todos atingir níveis acima da escolaridade primária e a três desses filhos, com meios escassos, atingirem um nível de estudos superior.
Estas medidas inéditas, tomadas num meio rural instruído por uma sociedade elitista que ensinava e educava no sentido de instituir uma mentalidade moral tradicionalista baseada nos valores e trabalhos da terra e dos ofícios para a população pobre e remediada, foi mais um choque emocional na mente e opinião ingénua do povo que, perante esta estranha e incompreensível visão deste Homem que até falava e previa o amor livre no futuro levou, os julgados mais espertos e avisados mas na realidade mais limitados e ignorantes, não raras vezes, a lhe chamaram de "louco".

(continua)

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