Friday, November 04, 2016

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS, VIAS



AOS 24 ANOS E PRESTES A PARTIR PARA A FRENTE DE COMBATE DE LA LYS EM FRANÇA NA GUERRA DE 1914-18 JOSÉ PINTO CONTREIRAS, ALIMENTADO PELAS LEITURAS DA SEARA NOVA, PROUDHON, BLASCO IBANHES, VICTOR HUGO E OUTROS, JÁ VIVIA SOMHANDO COM A UTOPIA DO PROGRESSO SOCIAL.
SABE-SE AGORA, COM A DESCOBERTA NOS ARQUIVOS NACIONAIS DO HISTORIADOR INVESTIGADOR NEXENSE ARTUR BARRACOSA MENDONÇA DA DOCUMENTAÇÃO DO PROCESSO DE LEGALIZAÇÃO INSTITUCIONAL, EM ABRIL DE 1922, DA EXISTÊNCIA DE UMA "ASSOCIAÇÃO DE CLASSE DOS OPERÁRIOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL E ARTES CORRELATIVAS DE SANTA BÁRBARA DE NEXE" QUE JÁ FORA FUNDADA EM ABRIL DE 1917 E, NA QUAL, CONSTA NA LISTA DOS FUNDADORES A ASSINATURA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS.
 EM PORTUGAL VIVIA-SE EM PENA EBULIÇÃO POLÍTICA DA 1ª RÉPUBLICA  E TODOS AQUELES OPERÁRIOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL, FUNDADORES DA "ASSOCIAÇÃO" VIVIAM A UTOPIA DOS IDEAIS DO PROGRESSO SOCIAL RÁPIDO E AVANÇADO QUE O PENSAMENTO SOCIALISTA PROMETIA.
ESSA UTOPIA MENTAL DOS FUNDADORES ESTÁ BEM PATENTE NOS ESTATUTOS DA "ASSOCIAÇÃO" QUANDO NELES INSCREVE COMO SEUS FINS A ALCANÇAR:
- ESTABELECER ESCOLAS, BIBLIOTECAS, E AULAS DE INSTRUÇÃO PROFISSIONAL
-REALIZAR CONFERÊNCIAS OU PALESTRAS EDUCATIVAS SOBRE TODOS OS ASSUNTOS DE ORDEM PROFISSIONAL, CIENTÍFICO, SOCIOLODIA OU FILOSOFIA.
- EDITAR UM JORNAL, BROCHURAS OU MANIFESTOS CUJA DOUTRINA ESTELA EM CONFORMIDADE COM OS FINS DA "ASSOCIAÇÃO".
- MONTAR ESCOLAS-OFICINAS DAS ARTES DE CONSTUÇÃO CIVIL.
A UTOPIA DE 1917 DESTES GENEROSOS HOMENS FUNDADORES TERMINOU EM 1925 PORQUE, COMO SE DIZ NA CARTA DE PEDIDO DE DISSOLUÇÃO,  «A QUASI TOTALIDADE DOS SEUS ASSOCIADOS HAVER EMIGRADO».
EMIGRARAM PORQUE A RÉPUBICA JÁ NÃO CORRESPONDIA AOS IDEAIS INICIAIS, VIVIA-SE UMA CONTURBADA E PERMANENTE INSTABILIDADE POLÍTICA, A MISÉRIA SOCIAL E A FALTA DE FUTURO ACENTUAVAM-SE RAPIDAMENTE, E A CONTRA-REVOLUÇÁO REACCIONÁRIA DO 28 DE MAIO DE 1926 ESTAVA EM MARCHA E IMINENTE.
CERTAMENTE, MUITOS DESTES FUNDADORES METERAM OMBROS ÀS SUAS UTOPIAS PESSOAIS E CONCRETIZARAM-NAS.
JOSÉ PINTO CONTREIRAS FOI UM DELES QUANDO, REGRESSADO DA GUERRA EM FRANÇA, SE LANÇOU NA CONSTRUÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO LUGAR, DEPOIS CHAMADO «O ALTO», COMO NOVA E MODERNA CENTRALIDADE DO SÍTIO DOS GORJÕES, TERRA DOS SEUS ANTEPASSADOS, ONDE REUNIU TODOS OS "MESTRES" DE ARTES E OFÍCIOS NECESSÁRIOS E FUNDAMENTAIS PARA APOIO AOS TRABALHOS DO CAMPO.
E, PARA A BOA CONVIVÊNCIA SOCIAL DO POVO, CONSTRUIU CASA PRÓPRIA DE SALÃO DE BAILE E BUFETE ESPAÇOSOS E MODERNOS E FUNDOU, COM OUTROS, A «SOCIEDADE RECREATIVA GORJONENSE».
A UTOPIA DUROU DÉCADAS E O SÍTIO FOI, DURANTE TODO ESSE TEMPO, ORGULHO DOS GORJONENSES.         

Labels: ,

Tuesday, November 17, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 3


 
 A CASA DOS ALTOS
  
A IDEIA FEITA SONHO CRESCE E CONTINUA

Foi já no encalço do cumprimento de execução dessa ideia visionária que, logo após o seu regresso de França iniciou, a passo largo, a construção de casas para instalar “vendas” e os Mestres de artes e ofícios dedicados ao fornecimento das necessidades básicas locais. 
E, concluída esta primeira fase de instalação e consolidação do apoio à auto-suficiência industrial-artesanal e comercio local, lançou mãos à construção de uma casa para habitação própria sobre a casa de “Venda de Mercearia”, a primeira casa do local construída para habitação sobre os altos de outra casa com acesso independente por escadaria a partir da rua pública.
Pelo inédito de tal construção, de imediato, a casa foi designada como a “Casa dos Altos”, concluída em 1940. Mais tarde, pelo processo de simplificação da oralidade linguística popular o local passou à designação de “os altos” e por fim, e até hoje, conhecido como “o Alto”.
  
A execução e concretização de seu sonho francês levava já vinte e dois anos e estava, na sua ideia original, concluído. Contudo, para alguém com pensamento visionário, o sonho vive em estado de movimento perpétuo. 
No ambiente da barbearia do objectivo e inteligente cartesianismo prático de Mestre Bota, o mais perspicaz a propor e provocar conversas audazes chamariz, análises e discussões qualificadas sobre a guerra de 1939-1945 em curso e assuntos de interesse local, os Mestres artesãos, pequenos proprietários, comerciantes e antigos combatentes de La Lys juntavam-se frequentemente para falarem da guerra, de Salazar, da comparação entre o Estado Novo e a democracia francesa que muitos viveram durante a Grande Guerra, do estado do mundo e sobretudo da actualidade e futuro do seu sítio de Gorjões. 
Observavam e falavam de que nas Cidades e Vilas as populações, pelo dinamismo de seus comerciantes e Mestres artesãos locais, tinham criado Sociedades Recreativas nos bairros centrais e o movimento estava alastrando pelas Aldeias próximas.
No local propício à discussão séria da barbearia de Mestre Bota, um grupo de dezoito conceituados e respeitados Mestres, pequenos e médios proprietários de terras, juntam-se para criar, organizar, instalar e dirigir a designada Sociedade Recreativa Gorjonense. Entre eles está, inevitavelmente, o Estanco que já residia na sua “Casa dos Altos” acabada de construir. 
E, dado os antigos armazéns de vender vinho e aguardente de "porta aberta" e “trazer balho” aos domingos, não terem a dignidade requerida para a nova maneira organizada, ordeira e respeitada de trazer baile para sócios sob estatutos e regras a cumprir o grupo fundador decidiu, como melhor local e solução para instalar a Sociedade Recreativa, ocupar a parte maior e mais nobre da “Casa dos Altos”. 
Uma sala grande em L virada a Sul e dois quartos anexos, com sete janelas e uma varanda serviram, durante quase dez anos, respectivamente de Sala de Baile, Direcção e Bufete.

O sonho foi tomando formas e estas sugeriram novos sonhos e novas formas num processo sempre inacabado. A ideia visionária entrara em modo de criação e parto automático. 

 (continua)

Labels: ,

Tuesday, November 10, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 2



A PRIMEIRA CASA; A IDEIA EXISTIA INCONSCIENTE  

Com a mesma têmpera dos seus antepassados, com 20 anos, numa esquina do cruzamento dos caminhos para Faro com o dos Poços Públicos, demarca por meio de um alto muro de pedra uma parcela grande de terreno do sogro e contra a vontade deste, inicia a construção de uma casa própia dedicada a instalar um negócio de “venda” de taberna, que conclui em 1915.
Regressado, via Marrocos, da debandada militar na frente de La Lys em França, após ataque brutal de gás, fogo e aço pelos alemães em 9Abril1918, dá início à construção de casas para “venda de mercearia” e “forno de padaria” que conclui em 1925. 
Com três portas abertas ao público, taberna, mercearia e padaria, continua trabalhando com o pai nas estradas como Mestre Capataz Geral encarregado dos traçados e nivelamentos e, com os rendimentos do seu trabalho e dos negócios das “vendas”, no mesmo local constrói mais casas para instalar o Mestre barbeiro, o Mestre sapateiro e o Mestre mecânico de “casa das bicicletas”. O Mestre ferreiro-ferrador, amigo de escola, foi buscá-lo a Bordeira e convidou-o a instalar-se no local em casa vizinha. Mais tarde faria também um armazém para instalar o Mestre carpinteiro.


A IDEIA DESPERTA; O SONHO NASCE

A sua incorporação como recrutado no CEP, Corpo Expedicionário Português, com guia de marcha para  "A Grande Guerra” em La Lys na Flandres francesa, via desembarque na Bretanha e comboio até à frente de combate, permitiu o contacto directo com as populações das aldeias francesas locais e mostrou-lhe uma realidade bem diferente daquela que conhecia na sua terra.
Nesse contacto vivido junto das aldeias ao redor do acampamento do CEP em Air-sur-la-Lys, entre Armentiére a la Bassée e Merville a Bethune, constatou que as populações dessas  aldeias viviam associadas e organizadas à volta de colectividades que organizavam os eventos festivos tradicionais ou domingueiros como os bailes, teatro, jogos, etc. Além disso as aldeias eram auto-suficientes de oficinas de artes e ofícios para apoio dos trabalhos rurais assim como de casas de porta aberta ao público para comércio de abastecimento e convívio do povo à volta duma mesa de jogar às cartas, tomar uma bebida e conversar acerca dos trabalhos diários da terra, da guerra, da família, dos amigos, da vida e da morte.
A observação atenta de tal modo de convivência social ordeira e harmoniosa nestas pequenas comunidades francesas, fez revelar e nascer em sua mente futurista irrequieta a ideia visionária de transpor para a sua terra natal este modelo civilizacional avançado que permitiria acabar com hábitos ainda reminiscências de rudezas medievais. 
Ficara convicto que no pós-guerra o estilo de vida das pequenas comunidades que vira em França, mais tarde ou mais cedo, haveria inevitavelmente de chegar à sua aldeia e aldeias de Portugal. Então pensou firmemente que o ideal era apressar o cumprimento do futuro.
O ideal tornou-se sonho e este começou a ser pensado e ter formas.  
 (continua)

Labels: ,