Saturday, April 09, 2016

LA LYS, O 9 DE ABIL E O "ZÉ DA BARBA PINTA"; O "PARVINHO" E HERÓI TRÁGICO



"Quando caçávamos na trincheira um rato grande era um petisco de luxo, à grande"

Assim ouvi o meu pai falar a outro combatente de La Lys um certo dia de 9 de Abril, durante uma das grandes festas comemorativas que aqui nos Gorjões, muitos combatentes locais e próximos, organizavam todos anos nesse dia simbólico.
Mas o saborear um rato, mal cozinhado nas insalubres trincheiras da frente de Flandres, como se fora um manjar inesquecível só era possível face a uma fome tal que até qualquer bicho repelente sabe a delícias. 
E tal ainda era possível dias antes desse inesquecivelmente triste dia 9 de Abril de 1918 pois que, nesse dia, os ratos foram os próprios combatentes que nas trincheiras eram cozinhados "assados" pela poderosa descarga alemã de gás, ferro e fogo durante horas e horas ininterruptamente. 
Dos que aqui festejavam e comemoravam sua sobrevivência, quando os alemães se aproximaram em massa, uns fugiram seguindo os seus oficiais, outros foram feitos prisioneiros e alguns fugiram da guerra.
Quem nunca cá veio comemorar foram os que tombaram sob a metralha e havia um gorjonense a quem introduziam na festa mas ele não sabia da festa nem sequer de si próprio; fora gaseado e, sem capacidade mental, perdera a razão e conhecimento de existir e ser gente.
Foi sempre, depois de regressar, o "parvinho" que percorria invariavelmente o mesmo caminho de casa ao Alto e volta, roto e descalço, olhando fixa e unicamente para o chão sem pedir nada ou pronunciar uma única palavra.
Não obstante uma irmã que cuidava dele com o quase nada que tinha e a caridade do povo local sofreu, além da perda de ser pessoa pelo gaseamento, o abandono total do país que o enviara para a guerra; foi um herói duplamente trágico.

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