Monday, April 06, 2015

CONTRIBUTO PARA COMPREENDER A PRISÃO DE SÓCRATES


Diz-se que uma Mãe, na parada, quando o seu filho levava o passo trocado relativamente aos restantes soldados, entendeu e respondeu orgulhosa que o seu filho era o único que levava o passo certo.
Todos nos rimos disto porque somos, instintivamente levados a pensar o contrário sem darmos tempo ao raciocínio, contudo se mais alguns levassem o passo acertado pelo do filho daquela Mãe orgulhosa a dúvida sobre quem ia de passo certo instalar-se-ia, também instintiva e automaticamente.
E se imaginarmos que de repente e no mesmo instante todos trocassem o passo, o soldado porque olhando os outros resolvera trocar o seu passo e os outros todos porque olhando o passo do soldado, julgando-se errados, também tinham resolvido trocar o seu passo de marcha.
Agora, o soldado repusera a sua marcha no passo certo e os outros todos no passo errado; contudo será que a Mãe não diria orgulhosa, na mesma, que o seu filho era o único com o passo certo e nós não nos riríamos na mesma, novamente, dessa Mãe por considerarmos inadmissível que todos menos um vão de passo trocado.
Na realidade o filho soldado da Mãe orgulhosa acertara o passo e quem passara a marchar de passo trocado foram todos os outros e, por conseguinte, eram o soldado e sua Mãe os únicos acertados com os factos, com a realidade e com a razão.
Mas aos olhos e pensamentos dos de fora tanto o soldado como a Mãe continuam a merecer total  incompreensão e a chacota por fazerem figura de idiotas: não podem ter razão contra todos os outros sem excepção, porque; não se pode ter razão contra a corrente.

Aristides, polemarco no turno de comando em Maratona, devido à sua integral honestidade reconheceu maiores capacidades a Milcíades para comandar aquela batalha, cedeu o seu lugar a este.
A sua rectidão e honestidade deram-lhe fama de um carácter incorruptível alcunhado como "Aristides o Justo". Mais tarde, numa votação para o exílio de Aristides, proposto por Temístocles, um campónio analfabeto, sem saber quem ele era, pediu a Aristides que escrevesse o seu voto a favor da proposta de Temístocles. «Porque razão queres mandar Aristides para o exílio? fez-te algum mal?» perguntou Aristides. «Não me fez nada» respondeu o campónio «Mas já não aguento mais ouvir chamar-lhe o "Justo", estou mais que farto da sua justiça», respondeu o campónio analfabeto.
Aristides sorriu de tanto rancor, típico da mediocridade contra a inteligência, e inscreveu o voto contra si próprio no quadro das votações.
Depois de ter ouvido o veredicto da sua condenação disse simplesmente: «Atenienses, espero que não voltem a ter ocasião de se recordarem de mim».

Anos depois, também Péricles e Fídias, foram acusados por adversários políticos corruptos.
Depois foi o próprio Sócrates acusado e condenado à morte, também por corruptos adversários políticos, por corromper os jovens atenienses de boas famílias e de blasfémia contra os deuses gregos.
Mais tarde em Roma Ovídio é condenado ao exílio, Cicero ao exílio e depois assassinado e Séneca obrigado a cometer suicídio.
No apogeu do poder cristão Giordano Bruno foi condenado à fogueira e depois Galileu a abjurar os seus conhecimentos científicos perante o pensamento medíocre dominante.

Entre nós temos na época inicial das navegações e "Descobrimentos" o povo e toda a "arraia-miúda" numa condenação "por essa teima persistente dos monarcas em sacrificar dinheiro e gente à quimera das navegações", segundo Oliveira Martins que acrescenta que " A prudência de experiência feita, ronceira e fria, não acreditava no exito, depois de tantas tentativas falhadas".
O povo em surdina estava contra tais empreendimentos e era tão forte esse sentimento que até Camões, que duvidara também certamente, assinalou na pessoa do "Velho do Restelo" essas vozes de protesto.
A empresa dos "Descobrimentos" não foi desmantelada porque naquele tempo a vontade do Rei valia mais que a vontade do povo todo junto.

Temos também o caso Marquês de Pombal que governou com mão de ferro contra a corrupção do clero e da nobreza que arruinava o país e o destruía em proveito próprio, que tratando a governação despoticamente para limpar o país da podridão, tal como antes fizera D.João II, tentou por meio de muitas e profundas reformas mudar o país e as mentalidades pela educação e pelo exemplo das inovadoras obras e respectivas ciências modernas que conhecera lá fora como embaixador .
O facto de muitos anos depois lhe terem erigido a maior e imponente estátua em Lisboa não esconde da História o ostracismo de morte lenta e obscura a que, aqueles a quem tinha retirado os privilégios, o submeteram por instigação e manipulação da rainha louca.

Estes são apenas alguns dos casos historicamente mais conhecidos que, esmiuçada a história da infâmia do nascimento e percurso de cada nação existente, os casos de perseguição e injustiça contra os melhores que lutaram contra-corrente, promovidos e executados pelos medíocres, dariam para muitas páginas das suas histórias pátrias.  

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