Sunday, May 18, 2014

NÃO CONFORME

Houveram combatentes nexenses na Grande Guerra 1914-1918 que comeram ratos na lama das trincheiras de La Lys na Flandres em França para sobreviver e até um deles foi gaseado pelos alemães e foi dramaticamente abandonado inválido, sem existência mental nem racionalidade ou consciência de si próprio, até ao fim de sua vida miserável de mendigo.
Houveram combatentes nexenses desde o início da Guerra Colonial sujeitos obrigados ao perigo de vida e morte dia e noite meses seguidos no interior do mato que suportaram a intempérie, medos, fomes, má alimentação, riscos de vida, ferimentos de corpo e alma e até um deles deu a vida pela pátria e está, bem visível, logo à entrada do cemitério.
Contudo, tantos nexenses juntos que foram primeiros a sofrer os duros perigos e sofrimentos dos males de guerra, não são razão suficiente e fundamentada para terem nome de Rua ou Praceta na sua Freguesia natal.
Não houve ainda uma Rua dos Combatentes aberta para homenagear tantos combatentes nexenses, obrigados à força, a dar a vida nas trincheiras e nos matos ultramarinos das colónias mas houve para uma pára-quedista da terra, porque foi a primeira em 1961.
Mas, aqui, o ser primeiro não significa ser primeiro combatente mas, talvez, ser primeiro instrumento de propaganda do regime relativamente à Guerra Colonial então recentemente aberta em Angola. Já tinha sido tomada a praça-forte do inimigo, Nambuangongo, e o regime salazarista estava em plena campanha de propaganda internacional acerca da retoma do total controlo do território angolano. Colocar mulheres no exército dava para fingir uma abertura aos rígidos costumes morais e ordem masculina vigente e para vender a americanos e europeus uma ideia de modernização na tomada de conceitos adquiridos há muito pelos regimes democráticos.
Mas, tudo era rigidamente controlado pela ordem estabelecida. Nada se passava, e muito menos a quebra de um tabu do regime que constituiu a nomeação de mulheres enfermeiras pára-quedistas para servir na guerra, sem a bênção da Dra. Supico Pinto presidenta do Movimento Nacional Feminino, do consentimento pessoal do Presidente do Conselho a quem nada desse tipo era alheio e, sobretudo, sem o carimbo da Pide, entidades que já estavam em força no teatro de guerra ao comando de todos esses tipos de operações inovadoras. E também, claro, sem a obrigatória declaração de que se considerava bem integrada no regime vigente, à semelhança do que fez o de Boliqueime.
E que foi, sobretudo, uma operação de propaganda no tempo, é demonstrada pelo inexistente registo e conhecimento factual de qualquer acção heróica ou de notoriedade tomada em prol de militares ou civis. E foi assim porque os primeiros socorros e tratamentos a feridos eram prestados pelos médicos e enfermeiros milicianos que haviam em todas as Companhias e os encaminhamentos para os hospitais eram efectuados pelas próprias tropas ou pelos pequenos aviões DO 27, Dornier, e mais tarde também por helicóptero. A existência desta Unidade de pára-quedistas enfermeiras foi completamente alheia e indiferente aos comandos militares que operavam no teatro de guerra e tinham baixas em combate.    
Pode ter sido um erro de avaliação ou falsa percepção do contexto histórico que não devia ter acontecido e foi pena a inversão de valores, sobretudo, cometido por esta Direcção de Junta, tão vigilante e intransigente na defesa de comportamentos imaculados e pureza de valores típicos da esquerda puritana infalível .

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1 Comments:

Blogger sergio said...

Caro Adolfo,

De facto não existe ainda uma Rua dos Combatentes na nossa Freguesia. Somos uma terra com poucas ruas e de poucas ruas novas. Alguns nomes esperam pela sua vez. Mas com tantos autarcas, depois e antes do 25 de Abril,foi esta “Direcção da Junta” que cometeu o pecado capital de não ter esc olhido uma Rua do Combatentes quando depois de 40 anos surgiram 3 ruas novas.

Decidimos homenagear uma tenente enfermeira paraquedista (falecida recentemente) e tem currículo para isso (e também por isso não faria sentido continuar com mais outra rua com carga militar). Considera o Adolfo que ela é apenas o rosto de uma operação de propaganda. A informação que tenho é que ela também serviu na frente de guerra.

E sim também as paraquedistas também foram usadas na propaganda. É polémico? Sim mas a senhora tem mais currículo além da propaganda. Mas polémico também é um monumento aos combatentes que homenageia o que foi obrigado a ir, o que foi sem saber o significado, o que foi com a convicção que ia defender a pátria e Salazar e o que foi com a convicção que os turras tinham de ser todos mortos porque não tinham direito a nada (nem sequer à auto determinação).

Adolfo, respeito e até admiro a sua inteligência e perspicácia mas vigilante, intransigente ou infalível é o que cada vez mais perpassa nos seus apontamentos.

Sérgio Martins

P.S. Os combatentes nexenses, sendo farenses, estão homenageados no Largo dos Combatentes da Grande Guerra e no Monumento ao Combatente de Faro.

2:44 PM  

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