Saturday, November 01, 2014

UTOPIA E "DESVIOS"



Todo sistema político teórico conceptualmente pensado e teorizado para racionalizar e fundamentar uma ideia pré-concebida, tratado, arrumado e apresentado sociológica-filosoficamente como sistema político-social perfeito para atingir o bem e a felicidade futura dos povos, pode ser um bom tratado sociológico, um bom ensaio filosófico, uma bela peça literária, uma maravilhosa descrição de uma idílica utopia mas, politicamente, é sempre uma fraude.
Porque a aplicação prática de uma qualquer utopia precisa, necessariamente, da intermediação dos humanos na sua aplicação, seu controle, manipulação, manutenção e adaptação. E essa intermediação, necessariamente imperfeita à semelhança da condição humana, inquina desde logo toda teoria social de pretensão para-científica, como são todas utopias.
Contudo, o pior e mais perverso mal resulta da implantação da utopia que, sendo um extremismo social relativamente aos costumes, viver, pensar, tradição familiar, laços de sangue, à ética e ordem anteriores adquiridos ao longo de séculos, obriga à inevitável necessidade de usar de violência física e social, sobre o povo submetido.
Este apenas quer e pede que o deixem viver segundo o estádio actual de sua consciência político-social e o poder exige, à força, que todos indivíduos do povo passem a viver uma experiência de ruptura total, inédita e inaceitável, que viola e violenta brutalmente as suas vivências e consciências.
Às violências e males inumanos que são obrigados, necessariamente, aplicar ao povo a cada estádio de implantação do extremismo utópico, uns chamam-lhe violência revolucionária outros erros de avaliação na aplicação prática da teoria. Esta é perfeita e infalível e, por conseguinte, se algo não corre como previsto são explicados como erros das chefias, que não aplicaram bem a teoria, ou do povo que não respeitou as directrizes superiores e, consequentemente, a sua correção exige novas violências, e assim sucessivamente, até à revolta ou indiferença e apodrecimento moral e social da comunidade.

Não é por acaso que, actualmente, os historiadores do pensamento politico-filosófico e suas aplicações práticas começam as suas observações sobre tais pensadores da seguinte forma:
Demócrito tal como Protágoras acreditavam que a participação na vida política do Estado fomentava a cooperação frutífera e ajudava a legitimar o Estado aos olhos dos seus membros.
Platão considerava que os seres humanos estão equipados com diferentes capacidades naturais e afirmava que a divisão do trabalho era um princípio geral de organização social.
Aristóteles defendia que em Estados com uma mistura de classes, a forma de governo mais apropriada e aceitável de modo a facilitar a prossecução da boa vida, era a Constituição Política.
Santo Agostinho sublinhava a natureza pecadora da humanidade,  contudo, dizia que uma vez que os cristãos tinham necessariamente de passar o tempo de que dispunham no mundo, a cidade terrena representava um benefício limitado e transitório.
Aquino via o governo como uma consequência necessária da sociabilidade.
Bodin, Grócio e Hobbes identificavam a necessidade de uma ordem criada e mantida por uma única pessoa.
Carlyle presumia que a consciência da necessidade de orientação asseguraria o desejo de conformação a uma ordem hierárquica estruturada.
Maurras insistia em que a desigualdade e dependência eram característica inevitáveis da condição humana.
Mussolini e Gentile concebiam o Estado como uma "democracia organizada, centralizada e autoritária" cujo objectivo era integrar a população num sistema de ordem mais "colectivista e espiritual" do que "materialista e individualista".
Hitler delarava que o nacional-socialismo via o Estado como um meio de atingir um fim que era a "preservação da existência racial do homem".
E assim sucessivamente com Rousseau, Kant, Locke, Green e todos iluministas.
Anarquistas e marxistas, apesar de sua rivalidade feroz, tinham um ponto de vista semelhante da relação entre política e ordem.
Marx e Engels acreditavam que tinham estabelecido uma base científica para compreender simultaneamente o capitalismo e o processo revolucionário que o iria destruir.

Em breve os historiadores actuais do pensamento político estarão inscrevendo nos seus manuais que; Hayek pensava que o mercado funcionava como mecanismo de descoberta e inovação para milhões de indivíduos que utilizam o melhor dos seus conhecimentos para perseguir os seus próprios propósitos.
Pensava que a forma e qualidades da vida comum em sociedade podia ser uma igualdade perfeita à soma da forma e qualidades dos indivíduos de per si. E como, inevitavelmente, mais uma vez a teoria falhou, brevemente, será o mais recente a constar referido nos manuais dos pensadores no pretérito passado, ou seja, mais um que pensava e teorizava que era mas não foi.

A mais ilustrativa, mais clara e flagrante prova do fracasso da possibilidade de imposição de utopias ao mundo real dos homens está, precisamente, no argumento dos partidos comunistas pró-soviéticos ainda resistentes que, na continuação de sua crença e renovada fé, continuam afirmando que a teoria estava e está certa, irrepreensível e imutável, apenas e só houveram pequenos "desvios" praticados pelos homens na sua aplicação. E, curiosa e incrivelmente, pequenos desvios deitaram o sistema-monstro abaixo.
O eufemismo "desvios" serve para esconder as perversões e bestialidades praticadas sobre as populações não como males e sofrimentos inerentes ao fenómeno da aplicação utópica mas sim como apenas simples erros de má avaliação e aplicação da teoria e, para mais, ditos, feitos de boa-fé.
Acreditamos que filósofos, sábios génios, não podiam querer mal aos seus povos e concidadãos e que, por conseguinte, seus estudos e pensamentos tinham em mente o bem desses povos. Contudo, a história prática da evolução das sociedades humanas demonstra que, quanto mais elevado se pensa e se quer tocar o infalível, o imóvel, a perfeição, o absoluto, com mais força somos atirados para a realidade e caímos no regaço da terra mãe. E de novo voltamos a pensar como perceber e realizar o sonho.

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