terça-feira, novembro 27, 2007

TEMPOS

TEMPO I

Hoje fiz anos e começo a dar conta como começa a faltar tempo. O tempo não tem mudanças nem acelerador para dar mais ou menos velocidade como um automóvel. E muito menos marcha atrás. Vamos nele inseparávelmente ligados ao seu ritmo e velocidade invariável de tal forma invisível que nem damos conta de tal amarra. Exigimos ser livres, lutamos por liberdade e quando alcançamos viver com as liberdades do dia a dia julgamo-nos seres libertos de todo tipo de sujeição pessoal íntima. Sentimos e fazemos valer a força da nossa liberdade face ao outro, conseguimos reforçar o peso da nossa individualidade, obtemos um substâncial aumento do nosso amor próprio, impomos mais vezes um juizo próprio e até uma corrente de pensamento, tornamo-nos mais criativos. E o progresso material no mundo avança.
Um dia contamos os anos que já temos e damos conta que a moinha do tempo nos transportou sempe blindadamente circunscritos. Amarrados à terra e ao tempo pela nossa condição humana, chamamos liberdade às pequenas conceções que estas duas forças irreprimíveis nos concedem temporáriamente.
A verdadeira liberdade está no pó.

TEMPO II

As notícias nacionais de hoje informam que um avião da Força Aérea foi buscar o cadáver do soldado morto num acidente de viação no Afeganistão onde fazia uma comissão de serviço. Esta notícia choca-me o pensamento e divide-me em dois tempos ferozmente desiguais.
Na nossa guerra colonial era regulamentarmente proibida à Força Aérea transportar um morto mesmo em combate. O cabo Aguiar ficou sepultado em Quipedro num descampado junto ao acampamento à sombra do único imbondeiro ali existente. Um ano depois no Mucondo deu-se o caso do soldado raso Pires, que já moribundo, o oficial piloto recusou-se transportar o ferido porque o considerava morto. Só a enérgica intervenção do nosso médico Dr. Alves Pimenta obrigou o piloto a ceder.
Há 46 anos, muitos soldados tombados quer em combate quer em acidentes de armas ou viação ficaram espalhados pelo imenso mato angolano, nos locais de acampamento das tropas, porque simplesmente não era permitido aos mortos qualquer regresso. Credo religioso oficial à parte, um morto era só um morto, um não combatente, um não valor.
O tempo como relógio é imutável, contudo o tempo como liberdade circunscrita, está em permanente mudança de conteúdos.

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