Monday, March 04, 2013

CONTRIBUTO PARA A HISTÓRIA DO "É TUDO O MESMO"

 EDITADO EM 1971, PROIBIDO PELA CENSURA DEPOIS VENDIDO E COMPRADO CLANDESTINAMENTE NO MESMO ANO DE 1971 (NOTAS E TRADUÇÃO DE CÉSAR OLIVEIRA)


PUBLICADO EM 1844 SEGUIDO DE "A IDEOLOGIA ALEMÃ" EM 1845 COM AS CÉLEBRES TESES SOBRE FEUERBACH, FOI AQUI QUE DEU À LUZ A IDEIA DE TORNAR A TOTALIDADE DOS HOMENS SOBRE A TERRA, "TODOS O MESMO".

 "É tudo o mesmo" ou, "são todos iguais" ou, "são todos o mesmo" ou, "é tudo igual" ou, como diz Jerónimo e respectivo séquito replicador, "é tudo farinha do mesmo saco".
Contudo o que se constata é que "o mesmo" mesmo é, precisamente a história da prática política de cada actor político apelidar de ser "o mesmo" tudo que não é o pensamento do próprio. E não só o actor político para se diferenciar dos outros actores contracenantes mas, igualmente e especialmente os mestres pensadores da filosofia. Aliás, é nestes que os actores políticos vão beber para arranjar fundamentos de justificação para as suas tiradas argumentativas.
Para além dos gregos pré-socráticos que, a partir de mestres fundadores, por exercícios lógicos do mais elevado e puro racionalismo a partir da observação dos fenómenos naturais, conceberam filosofias contraditórias e até opostas cujas concepções perduram e são fonte original de todo o debate filosófico posterior até hoje, também posteriormente cada filósofo sistémico quis deitar para o caixote do lixo histórico todo o pensamento anterior ao seu.
Porque tinham sido todos "o mesmo".
O mais exorbitante nesse propósito foi Karl Marx, que o declarou impante de auto-convencimento quando pensou ter descoberto a teoria e leis científicas para conhecer o sentido da História. Ele próprio que teve em Feuerbach e sua crítica a Hegel o grande despertar para a sua visão de solução do obstáculo que era a oposição original entre real (sensível) e ideal (cognoscível), disse deste nas suas célebres teses: - Feuerbach não se dá por satisfeito com o pensamento abstracto e recorre à contemplação; mas não concebe o sensorial como actividade sensorial-humana prática-, e daí parte para a sua sacro-santa tese de que, - Os filósofos limitaram-se até hoje a interpretar o mundo de diferentes modos; agora, do que se trata é de o transformar-.
Quanto a Hegel virou-o do avesso e de seguida atirou-o ao caixote do lixo porque entendia que o sensível era exterior à natureza do ser mas apreensível e apropriado pelo pensamento, pelo que "O carácter humano da natureza dos produtos do homem, é demonstrado por eles serem produtos da mente abstrata, portanto, fases da mente, entidades do pensamento", à qual contrapunha Marx que "Um ser que não tenha a a sua natureza fora de si mesmo não é um ser natural e não compartilha da existência da natureza".  
O futuro desenvolvimento do pensamento materialista sócio-filosófico de Marx está já inscrito e bem estruturado nos seus primeiros escritos de juventude como foram os "Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844 e logo seguidos de "A Ideologia Alemâ" de 1845 nas quais tece as célebres teses sobre Feuerbach.
Praticamente, também Marx ao afirmar que até ele aparecer e afirmar o seu materialismo como o verdadeiro porque explicava o social e não o indivíduo, que depois tardiamente, com a introdução dos conceitos do "materialismo dialéctico" tentou transformar a sua sociologia-filosófica em ciência dita "materialismo científico", também este cientista social, dizia eu, não fez mais que afirmar que antes dele todos os pensasores foram "o mesmo", isto é, todos se limitaram a ser intérpretes dos acontecimentos.
Através do estudo do processo histórico da luta de classes descobrira as leis gerais da transformação, não só na sociedade e no pensamento humano, mas também no mundo exterior, reflectido pelo pensamento humano. A partir dessa descoberta das leis que regiam a sociedade, podia prever o futuro até ao fim dos séculos. Claro, com uma certeza absoluta na mão, logo previu e desenvolveu a teoria social que curaria o homem de todos os males e o conduziria directa e imediatamente à felicidade eterna.
E, paradoxo dos paradoxos, onde havia classes e portanto correntes de opinião diferentes ele propunha resolver definitivamente os problemas da humanidade através da solução radical de igualitarizar todos os indivíduos, igualitarizando socialmente cada um perante o outro. Isto é, precisamente, fazendo obrigatoriamente que todos fossem iguais perante a sociedade comunista, ou seja fazendo que todos sejam "o mesmo" porque possuem "o mesmo" e por tal haveriam de necessáriamente vir a pensar "o mesmo".
Ideia genial e tão brilhante como lírica; imaginem só como seria o mundo hoje composto de seis mil milhões de indivíduos plenos de faculdades mentais pensantes diferentes a viver e pensar "o mesmo" ao mesmo tempo. Seria exactamente o tal paraíso do qual Adão e Eva, mal tiveram oportunidade, saltaram e deixaram entregue aos deuses.
Ainda hoje os adeptos (m-l), mesmo vivendo em democracia e sob correntes de opinião organizadas em partidos, são os mais fervorosos defensores de que fora da sua corrente de pensamento "é tudo o mesmo". E apontam isso como anátema à cara dos que pensam diferente.
Trata-se de um embuste; precisamente porque não são o mesmo nem pensam o mesmo é que alinham e se organizam sob uma determinada corrente de pensamento social. E até mesmo dentro dessas organizações há diferenças de pensamento e forma, as chamadas "linhas" radicais, duras, moderadas, revisionistas, fundamentalistas, ortodoxas, etc., historicamente tão famosas quão erradas ou certas na acção prática.
Mas o embuste não está apenas no querer fazer crer que fora do seu grupo é tudo  "o mesmo" o que, na realidade social, o pensamento e prática corrente já diferenciou e separou. O verdadeiro embuste consiste em que aqueles que alcunham e atiram aos outros que são "todos o mesmo" são precisamente os que, por opção ideológica, pretendem criar uma sociedade onde todos, por imposição ditaturial, seriam material e mentalmente "iguais" perante os outros também eles "todos iguais".
A contradição é total; detestam e diabolizam a democracia porque na sociedade existente os outros são todos "o mesmo" ao mesmo tempo que consideram como ideal a sociedade onde todos devem ser "o mesmo". 
Em cada época, para os que vivem e pensam a sua época, o fim dos dias acaba numa revolta aguda contra o passado porque sobrevém e se sobrepôe um sentimento de frustração e raiva pelos enganos e embustes a que fomos submetidos sem nos apercebermos. A sempre tardia tomada de consciência de que fomos no engano e subsequente revolta, é a prova de que realidade e verdade só existe no passado, no que foi, e que no futuro, ou no que há-de ser, nada existe além de promessas sob a forma de crítica do antes para vender o novo embuste no depois. 
Hoje, constata-se que Marx também não fez mais que explicar o mundo pela observação e crítica da sociedade do seu tempo tal como outros e especialmente Platão o havia já feito e, tal como este, preconizou um regresso aos tempos pré-arcaicos.
Contudo, na caminhada da civilização não pode haver descontinuidades com saltos em frente nem saltos atrás; ninguém consegue saltar por cima do seu tempo.

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