Tuesday, July 02, 2013

LIXO INTELECTUAL


No pensamento não há forças de resistência, não existem constrangimentos nem condicionalismos ou obstáculos físicos. No discorrer do pensamento não existem limites à imaginação e tudo é possível ligar a tudo com um mínimo de nexo.
Contudo a quase totalidade do pensamento produzido no mundo nunca atinge ser valor de conhecimento e o produzido pela grande maioria dos indivíduos é apenas lixo intelectual.
Tal como o ser não pose ser produzido a partir do não ser também o pensamento não pode ser produzido a partir do que não existe, isto é do nada. Logo, mesmo qualquer pensamento com valor de conhecimento só pode ser produzido a partir de um conhecimento relativo já existente. A elite de sábios acrescenta conhecimento ao conhecimento existente mas as outras elites sociais apenas reproduzem o conhecimento já existente e traficam esse conhecimento com interpretações próprias e interesseiras.
Estão neste caso as elites políticas e ainda nestas há os que são capazes de interpretar o conhecimento existente com sentido de futuro e agem com inovação para produzir presentes novos que nunca foram, são casos raros. A maioria apenas reinterpreta o conhecimento existente à luz do passado e agem no sentido de regressar a um presente antigo que já foi.
Uns, os raros, querem produzir futuro, outros, a grande grande maioria, querem reproduzir o passado. 
O povo como sociedade atingiu civilizacionalmente um presente, o seu presente, vive e apenas só nele pode viver, nesse presente que aceitou e se sujeitou racionalmente, que conhece e onde enraizou e estabilizou o seu modo cultural de vida e molda o seu pensamento racional. 
Quando, constantemente empurrado ora pelos raros que jogam no futuro ora pelos maioritários que apostam no passado, o povo não compreende ter de fazer o papel de bicho laboratorial de adaptação rápida às constantes experiências e mudanças sociais. Não compreende nem aceita convulsões e inversões constantes no seu modo de existir que obriga a rupturas sociais e pior ainda a rupturas de pensamento corrente prático fundamentado no próprio modo presente de existir. 
Tudo que existe é mensuravel e tem opostos e por conseguinte tem um centro. Se se corta uma extremidade da parte mensurável, um segmento de recta por exemplo, logo novo centro e extremidades nascem no mesmo acto. Também na sociedade o mesmo fenómeno se passa: se se arrasar (cortar) uma extremidade, esquerda ou direita, logo novas extremidades as substituirão derivadas da própria acção de cortar. 
A grande massa do povo tende a viver ao centro como todo o animal e humano da natureza: com um corpo e uma cabeça ao centro de duas pernas e dois braços. Também como os pássaros ou um avião com o corpo que transporta os passageiros entre duas asas. Os braços, os pés e as asas permitem exactamente caminhar ou voar com inflexões para ambos os lados inventando caminhos sem perder o equilíbrio e o rumo na caminhada. Se se perde um pé ou asa cria-se uma deficiencia imediata de caminhar ou voar equilibradamente. No caso do avião a deficiencia conduz ao embate catastrófico do corpo com a própria sombra.  
Platão, o maior pensador da idade clássica e de sempre para muitos, já afirmara que a virtude consistia na moderação e Aristóteles tão bom pensador como o Mestre e depois de décadas a pensar profundamente no assunto, afirmara que a virtude estava no meio-termo.
Logo, quando alguém tenta convencer outrém de que pode existir só esquerda ou só direita argumentando que o centro são meias-tintas, trata-se da maior mistificaçâo filosófica. Outra argumentação dos extremos é de que o centro não é afirmativo, não tem certezas logo é hesitante e é fonte de dúvida, não é claro e taxativo. Mas isso que é atirado à culpa do centro é precisamente a sua grande virtude: ter dúvidas e ser céptico com bom senso para poder escolher opções racionais mais para um lado ou para outro. É do conhecimento prático que onde maior é a estupidez menos dúvidas existe e nos casos de fé e crença  só existe certezas sem fundamento e nenhuma racionalidade. 
Fazer crer que a inflexibilidade é uma coerência e tomar a coerência irrevogável como se fora um acto de fé então é como estar a dar razão aos cardeais da Inquisição que mataram Bruno e humilharam Galileu.
As verdades inflexíveis à dúvida são tomadas como certezas absolutas e estas nunca deram a bom caminho nem a bom fim.
   

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1 Comments:

Blogger António said...

O meio de um segmento de recta é sempre fácil de determinar pela aplicação de sistemas convencionados de medição. É um ponto imutável que só será alterado se houver alteração na dimensão do próprio segmento de recta. Mas, nesse caso estar-se-ia a falar de um outro ponto e de uma outra realidade, já que o segmento de recta não seria o mesmo que o anterior. - Mas será sempre fácil, no plano teórico, localizarmo-nos mo meio exacto de qualquer segmento de recta.
No plano social isso já é mais complicado, já que nunca poderemos estar no meio exacto. Em vez de um ponto de meio, há uma área de meio, cujos limites podem tender para mais perto ou mais longe de cada um dos extremos, dependendo da análise subjectiva que cada homem faz de determinada realidade. O Homem, seja ele mais pensador ou mais prático, filosoficamente gira em torno de um meio teórico, mas na prática nunca está nesse meio e ajusta a sua posição de acordo com o cruzamento entre uma realidade e o seu próprio sistema de valores.
Assim, Aristóteles disse que a virtude está no meio. - Está totalmente correcto se se tratar do meio de um segmento de recta já que é aí que se encontra o ponto de equilíbrio.
Mas no plano social, esse meio virtuoso é melhor definido por Balzac ao dizer: "A virtude não é talvez senão a cultura da alma"
O meio de um sistema social e político é portanto muito dinâmico, muito volátil, muito circunstancial . Matematicamente é um sistema de equações possível mas indeterminado, em que tudo depende do valor das variáveis que o integram.

4:01 AM  

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