Tuesday, November 17, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 3


 
 A CASA DOS ALTOS
  
A IDEIA FEITA SONHO CRESCE E CONTINUA

Foi já no encalço do cumprimento de execução dessa ideia visionária que, logo após o seu regresso de França iniciou, a passo largo, a construção de casas para instalar “vendas” e os Mestres de artes e ofícios dedicados ao fornecimento das necessidades básicas locais. 
E, concluída esta primeira fase de instalação e consolidação do apoio à auto-suficiência industrial-artesanal e comercio local, lançou mãos à construção de uma casa para habitação própria sobre a casa de “Venda de Mercearia”, a primeira casa do local construída para habitação sobre os altos de outra casa com acesso independente por escadaria a partir da rua pública.
Pelo inédito de tal construção, de imediato, a casa foi designada como a “Casa dos Altos”, concluída em 1940. Mais tarde, pelo processo de simplificação da oralidade linguística popular o local passou à designação de “os altos” e por fim, e até hoje, conhecido como “o Alto”.
  
A execução e concretização de seu sonho francês levava já vinte e dois anos e estava, na sua ideia original, concluído. Contudo, para alguém com pensamento visionário, o sonho vive em estado de movimento perpétuo. 
No ambiente da barbearia do objectivo e inteligente cartesianismo prático de Mestre Bota, o mais perspicaz a propor e provocar conversas audazes chamariz, análises e discussões qualificadas sobre a guerra de 1939-1945 em curso e assuntos de interesse local, os Mestres artesãos, pequenos proprietários, comerciantes e antigos combatentes de La Lys juntavam-se frequentemente para falarem da guerra, de Salazar, da comparação entre o Estado Novo e a democracia francesa que muitos viveram durante a Grande Guerra, do estado do mundo e sobretudo da actualidade e futuro do seu sítio de Gorjões. 
Observavam e falavam de que nas Cidades e Vilas as populações, pelo dinamismo de seus comerciantes e Mestres artesãos locais, tinham criado Sociedades Recreativas nos bairros centrais e o movimento estava alastrando pelas Aldeias próximas.
No local propício à discussão séria da barbearia de Mestre Bota, um grupo de dezoito conceituados e respeitados Mestres, pequenos e médios proprietários de terras, juntam-se para criar, organizar, instalar e dirigir a designada Sociedade Recreativa Gorjonense. Entre eles está, inevitavelmente, o Estanco que já residia na sua “Casa dos Altos” acabada de construir. 
E, dado os antigos armazéns de vender vinho e aguardente de "porta aberta" e “trazer balho” aos domingos, não terem a dignidade requerida para a nova maneira organizada, ordeira e respeitada de trazer baile para sócios sob estatutos e regras a cumprir o grupo fundador decidiu, como melhor local e solução para instalar a Sociedade Recreativa, ocupar a parte maior e mais nobre da “Casa dos Altos”. 
Uma sala grande em L virada a Sul e dois quartos anexos, com sete janelas e uma varanda serviram, durante quase dez anos, respectivamente de Sala de Baile, Direcção e Bufete.

O sonho foi tomando formas e estas sugeriram novos sonhos e novas formas num processo sempre inacabado. A ideia visionária entrara em modo de criação e parto automático. 

 (continua)

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