Monday, November 23, 2015

A UTOPIA DE JOSÉ PINTO CONTREIRAS 4


A MODERNIDADE

Com a instalação e inauguração em 1943 sob aceitação e aplauso total, rapidamente a Sociedade Recreativa Gorjonense se transformou num sucesso social frequentado por todo o povo residente e gente de todos os arredores à volta, e passou a ocupar o lugar central de convívio e animação domingueira para a população. Todos podiam frequentar, sócios e não sócios com aprovação dos dirigentes que só recusavam a entrada a bêbados e desordeiros.
A Sociedade Recreativa fez-se assinante do jornal “O Século” e adquiriu uma “telefonia” a bateria de carro para ouvir as notícias nacionais mas também servia para ouvir os “postos” estrangeiros em ondas curtas, nomeadamente, a BBC e “Rádio Moscovo” acerca da guerra que, embora proibidas e dos ruídos introduzidos para boicotar a audição, eram muito ouvidas dada a conhecida falta de independência e manipulação das notícias oficiais do regime salazarista.
Deste modo a Sociedade Recreativa Gorjonense foi uma inovação que civilizou os costumes rudes antigos, quer pela actividade recreativa com organização de bailes, festas e jogos quer pela actividade cultural com peças de teatro de sátira local ditas “Récitas”, leituras de jornais e audições rádio-telefonia, quer ainda na actividade social com festas de beneficência para angariação de fundos em prol dos muito pobres e doentes.

Para abrilhantar os bailes eram chamados os melhores e mais famosos acordeonistas e algumas vezes grupos chamados de “Jazz-Band”. Os bailes decorriam sob a ordem e vigilância da Direcção que não admitia provocações, desordem ou guerreias na sala nem gente a cuspir no chão ou com chapéu na cabeça.
As raparigas mais prendadas passaram a frequentar o baile e serviram de modelo para as outras que passaram a ir à cabeleireira fazer permanentes vistosas e rapar as pernas cabeludas até então considerado um símbolo atractivo da sexualidade feminina.
Os rapazes passaram também a tomar em conta o modo de vestir e apresentar-se, como pretendentes, face às “moças” de seus olhados. Sobretudo, os rapazes passaram a não usar botas cardadas ou sapatos e peúgos rotos, que logo eram notados, pelas mães e avós das moças, como referências pouco abonatórias para pretendente a suas filhas e netas. Também eles passaram a usar fato completo feito por medida no alfaiate profissional, anéis vistosos ditos “cachuchos”, gravata com alfinete, sapatos engraxados e até alguns apresentavam-se com penteado às ondas feito na cabeleireira,  muito ensopado e cheiroso de brilhantina.
Também as “moças” raparigas tomaram-se mais discretas e cuidadosas nas “tampas” ou recusas de ir dançar com alguns moços, ou porque não gostavam do moço ou porque já tinham “par certo”. “Tampas” essas que antes tinham sido motivo forte de grandes desordens e guerreias nos armazéns de “trazer balho”.
A nova ordem estabelecida e aceite voluntariamente impunha a observância de igualdade de respeito mútuo, mesmo entre locais e vindos de fora, o que permitia maior troca de contactos e conversas entre moças e pretendentes e, deste modo, alargava-se a liberdade de escolha no enamoramento entre moços e moças em detrimento da vontade de pais, mães e avós.
  
Assim, tal como para as “moças” raparigas e “moços” rapazes a Sociedade Recreativa foi uma força civilizadora face a hábitos e costumes antigos, também para os pais e irmãos mais velhos o foi por vivência própria com regras e influência prática e próxima de seus familiares jovens. 
Sob a ordem imposta pelos Estatutos, levados à risca por uma Direcção de homens fundadores respeitados, foram interditos os jogos de valentia como o “jogo do teso” ou “abarcas” e "despiques" de jogos de pernas e cajados, que eram vulgares nos antigos armazéns de “trazer balho”. 
Como medida preventiva, à entrada, os grossos e nodosos cajados de fabrico próprio para serem os mais resistentes e dolorosos nos jogos, eram deixados na Direcção e só devolvidos à saída.
Progressivamente os novos hábitos e comportamentos foram tomando conta do dia a dia até que, ser o mais valente ou o que aguentava beber mais, deixou de ser símbolo de força e virilidade.

Sob a Bandeira bordada, o Hino e Marcha próprias, criadas por figuras artísticas locais ou amigas, cantados por grupos de jovens gorjonenses e escutados silenciosa e respeitosamente por todos de cabeça descoberta e chapéu na mão, a Sociedade Recreativa tornou-se um símbolo muito forte de identidade e unidade do povo de Gorjões e seu maior orgulho.
Com os Estatutos aprovados e sua consequente aplicação o povo pode conhecer e apeeender pela primeira vez como, por via prática, se exercia o aspecto mais fundamental da Democracia: o voto livre. E não deixa de ser irónico que um poder político que escondia, proibia e reprimia ferozmente o ensino e qualquer organização ou expressão de Democracia na sociedade portuguesa, tornasse uma exigência obrigatória, nos Estatutos das colectividades ditas Sociedades Recreativas, o uso de processos democráticos. Pois regulamentava um período findo o qual toda nova Direcção tinha de ser eleita em Assembleia Geral pelos sócios pelo método democrático de um sócio um voto.
Quer as discussões travadas com as pessoas propostas para nova Direcção quer, sobretudo, o facto de posteriormente haver uma escolha por voto livre, fez alertar e crescer em muita gente uma consciência democrática antes desconhecida. Aprenderam o que significava a liberdade de escolher pelo voto livre pessoal e passaram a perceber e apreender porque lá fora os Presidentes mudavam de tempos a tempos e por cá só mudavam por morte. 
Na totalidade da sua acção pode dizer-se que a Sociedade Recreativa foi uma escola de educação cívica e ética que pela sua prática virtuosa no uso e defesa de progressos civilizacionais durante gerações, ensinou os novos gostos, maneiras, valores e comportamentos racionais marcando a sua criação o momento de entrada dos Gorjões na modernidade.

 (continua)

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