Friday, February 04, 2011

CONVERSA DE SOMBRAS


O Ti' Carrusca, um médio proprietário lavrador do Lugar de Palhagueira, era um homem sabido de prática e corrido de mundo que esteve em África, como camionista de picadas no transporte de algodão por entre matas de Moçambique. Com fundamento na sua longa experiência de vida e atenta observação do comportamento e valia dos outros, tinha resposta pronta e racional para todas as questões que lhe colocavam. Quando não tinha à boca a resposta adequada, inventava de repente e improvisava de sua imaginação repentista uma resposta que parecia absurda à assistência.

Dado esse facto de dar respostas ortodoxas umas vezes e obscuras e incompreensíveis outras, levou que ganhasse fama de inventor de "balelas" ou "bujardas". Tal julgamento era talvez devido à defeituosa interpretação das suas respostas mais oraculares que, por inocente ignorância, gerava um comum juizo de valor irónico-depreciativo sobre a seriedade de suas histórias pessoais. A sua pessoa, contudo, à parte essa caracteristica de resposta crítica inventiva, era escutada benévola e atentamente sendo mesmo considerada e respeitada como homem sério cumpridor de palavra dada.

Quando tentavam qustioná-lo ou enredá-lo em contradições de alguma resposta sua mais incrível, logo comparavam com a considerada máxima, assim: essa é como a dos canzis que o Ti Carrusca cortou dum golpe com uma faca. E logo ele respondia quase invariavelmente: "Mas quem disse isso? Isso é conversa de sombras, são coisas de sombras nas vossas cabeças".
Evidente que, tal resposta ainda mais obscura que a anterior, tida como mentira, valia um novo coro de sorrisos malandros discordantes mas, no fundo, apenas actitudes mais cúmplices de ignorância própria do que ingenuidade dele. Dele, Tí Carrusca da Palhagueira que, por intuição e cálculo prático, aprendera com a vida a diferênciar a palavra da acção: o que se diz do que se faz, o pensar da obra. Ele não lera ou ouvira falar do génio grego Demócrito, mas apreendera racionalmente que a palavra sem mais é como a sombra da acção, e consequentemente, atribuir-lhe acções que não cometera era coisa de sombras. E deduzia logicamente que, não havendo acção humana alguma mas apenas uma falsa evocação dela, a sombra dessa inexistente acção só podia estar localizada na cabeça de quem a evocava em vão.

Em Platão, na sua alegoria da caverna, o homem amputado de existência e acção física e sujeito a só ver sombras da realidade, pensava as sombras como realidade, recriando assim uma realidade apenas com existência intelectual: uma realidade feita de pensamento, sem acção correspondente, logo um jogo de sombras mentais. Também para o Ti Carrusca, que também nunca lera ou ouvira falar de Platão, algo que não existira como acção nem sequer pensamento seu, não podia ser fonte de qualquer realidade para sí, isto é: era apenas uma realidade mental pensada por cabeça alheia.

Incomodava-o quando o confrontavam com factos irreais que lhe atribuiam, daí responder como sendo conversa de sombras ou visão de fantasmas: não têm existência mas metem medo e incomodam. O incómodo que provocava no Ti Carrusca atribuir-lhe "façanhas" que ele rejeitava como irrealidades, tal só podiam ser coisa de sombras ou fantasmas na cabeça das pessoas.
O Tí Carrusca, que nunca estudara filosofia, era um filósofo da vida prática.


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