Saturday, September 22, 2007

O FUTEBOLISMO CONTINUA


Os criativos escribas de 3 jornais 3 diários dedicados em exclusivo, mais 4-6 páginas diárias dos jornais generalistas e outro tanto dos semanários, mais 50% dos noticiários das TVs e cerca de mais 20-30% da sua programação geral, fazem do futebolismo a sua carreira profissional e modo de vida. Sobre o povo culturalmente analfabeto é despejado diáriamente, como inevitável aguaçeiro forte e permanente, uma torrente de futebolinices em palavras e imagens repetitas e repetidas e repetidas ao retardador até à exaustão e cedência cerebral. Não admira portanto que a cabeça dos portugueses esteja intelectualmente preenchida com jogadas, jogatanas e teorias conspirativas para explicar todas as situações complexas que surgem na sociedade moderna. Ninguém lê jornais, revistas ou livros de conhecimento que permitam ligações de raciocínios e formação de opinão fundamentada, mas toda a gente têm uma opinão forte, perentória e definitiva sobre tudo, estilo Nabokov sobre literatura. Como devoram, e só, literatura de futebolismo(actualmente alguns experts da matéria para dar-se ares, embrulham estatísticas e alguma beleza de futebol que ainda acontece, em rodriguinhos literário-filosóficos e análises para-científicas), vêem, analisam e discutem tudo sob o prisma do futebolismo, quer se trate do caso Casa Pia, da Joana, da Maddie, do guarda Costa, do guarda do alterne, dos assaltos, dos acidentes, dos políticos, da política, dos ministros, do governo, como da Cindinha, da Lili ou do vizinho que tem um BMW novo.
No recente caso Scolari, todo o pessoal bem pensante dos jornais e blogs, fizeram coro com as leis da Uefa e contra a "vergonha nacional" que o seleccionador nos fez passar. Diga-se que neste caso o povinho educado pelos próprios escribas do futebolismo, não percebeu a idéia subjacente que é a defesa intransigente do estado actual das coisas para manutenção dos seus pequenos privilégios de subordinados dependentes da mão do futebolismo grado. Então, tal como fez o seleccionador sérvio, apontam à Uefa as maldades do Snr. Scolari, malandro que agrediu o anginho sérvio, para que seja punido severamente. Eles sabem que a Uefa, instituição principesca, é rápida a julgar de acordo com os seus regulamentos e "Tribunal Especial" tão democrática e transparente como aqueles vidros modernos que só deixam ver de dentro para fora. E sabem que o "Tribunal" da Uefa castiga sempre, sem ouvir as pessoas e apenas com base em relatórios de árbitros e delegados infalíveis, apenas e só a mão visível da violência. O "Tribunal Especial" da Uefa entende, com o apoio de todos os escribas de serviço, que o único culpado é quem responde a provocações e agressões disfarçadas mesmo que estas sejam pensadas e planeadas no treino ou balneário. Scolari, como treinador e lider, tem de dar o exemplo e enfrentar tudo e todos de cabeça fria, isto é racionalmente, mesmo quando momentânea e inesperadamente é insultado em cima duma ferida ainda a doer. Ele, Scolari, tem de manter-se frio mesmo quando tem a cabeça e coração a ferver, tem de ser ferro e polido antes de ser carne e alma, contudo os dignissimos comentadores com tempo para pensar calma e racionalmente, decidem rancorosos e inapelavelmente pelo "lamentável", "passou-se", "demissão imediata", "despedimento já", "fora", "rua", tudo com justa causa. Foi um verdadeiro auto-de-fé realizado por escritura mediática sob a protecção e bandeira do fair-play, uma coisa completamente desacreditada face ao valor monetário que cada victória representa directa e indirectamente. Depois de tão exacerbado radicalismo de mate-se e esfole-se verbal, imagine-se o que fariam estes senhores apanhados de surpresa e nas mesmas circunstâncias pelo pulha sérvio. Decerto tal actor não voltava inteiro a casa para continuar a praticar jogo sujo disfarçado de futebolista.
Quanto à "vergonha nacional" sentida por tão virginais pessoas é de um ridículo pungente tal é a púdica nacionalite choramingada, que vê a Pátria ofendida num arremedo de arruaça boxista por causa dum jogo de futebol e nem sequer os intérpretes são portugueses. Estas vestais ofendidas envergonham-se logo que o caso é notícia "lá fora" e pode ser motivo de falatório europeu, relatório e julgamento uefiana sempre pronta a aplicar severidades a países que considera menos poderosos que ela própria. Faz parte da tradicional mentalidade moralista e piegas de um povo mendigante face à europa rica, apesar de vinte anos de "Europa Connosco".
Estava redigindo este escrito quando rebentou o caso Mourinho que de repente ofuscou o caso Scolari e prova que o circo mediático, cavalga todos os cavalos de batalha do dia, brandindo novamente princípios moralistas gastos e rascas. Contudo o novo caso Mourinho só prova que futebol hoje em dia é sobretudo poder e dinheiro e que mesmo para empregos pagos principescamente as relações de trabalho são imperativamente de empregado para patrão que não consente haver dois galos no mesmo poleiro. Hoje os clubes são sociedades comerciais, os empresários têm uma carteira de jogadores como bolsa de valores mobiliários, só as victórias rentabilizam essa bolsa de valores, logo é o vale tudo para obter resultados e daí os apitos dourados a todos os níveis. Futebol? Quando é que isso já foi?
E por conseguinte o futebolismo continua.

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Friday, September 14, 2007

DO FUTEBOL ISMO

FUTEBOLISMO OUTRA VEZ

No hectómetro quadrado de terreno chamado rectangulo de jogo de futebol é um dos locais onde se reúne uma das mais elevadas taxas de Euros/m2 no mundo. Quando os jogadores se juntam agarrados na grande área a taxa atinge milhões/m2. Além destes milhões também é preciso arranjar receita para pagar principescamente mais milhões aos senhores das Federações, Uefas, Fifas e manter o luxo e grandeza destas instituições que faz parte da ostentação do poder. À volta deste mundo anda todo um mundo de gordos empresários de jogadores e jornais e por baixo, como pardais de esplanada, um mundo menor de empregados, jornalistas, comentadores, leitores de estatísticas, professores de táctica e estratégias de jogo, juizes de jogos e jogadores que dão notas, etc.,etc., que a troco das migalhas alimenta diáriamente a bisbilhotice analfabeta do povo do futebolismo. Com estes ingredientes altamente valorizados artificiosamente ninguém consegue cozinhar qualquer fair-play ou regras de boa conduta quando colocados frente a frente para um jogo(embate ou combate dizem os comentadores).
Os comentadores cada vez mais são induzidos a usar uma linguagem de guerra exactamente para poderem exprimir o que realmente se passa no campo. Na realidade cada jogador é cada vez mais preparado física, mental e moralmente para se comportar como um herói guerreiro e a equipa preparada com tácticas e estratégias atacantes e defensivas de dureza violenta para vencer ou não sair derrotada do campo de batalha. Há alguns anos os europeus riam-se com as arruaças nos campos sul-americanos e fingiam que isso só acontecia nesses locais atrazados e ainda primitivos civilizacionalmente. A mim cada vez me parece mais que aí as arruaças ainda eram realmente primitivas e por conseguinte genuínas e honestas, enquanto por cá elas são precisamente cada vez mais um produto pensado, estudado, premeditado, isto é da civilização "de massa".
Quando foi o caso do Zidane achei a sua felina cabeçada o mais belo gesto de todo o jogo e por ventura a mais bela reacção contra o futebolismo. Só foi pena o sacana do italiano ficar-se a rir e não ter ido para os balneários com os dentes ou costelas partidas, merecia-o. Porque toda a sua actuação foi estudada e premeditada como se sabe hoje pelo que disse ao adversário. Levou para o campo, além das unhas, pitons e cotovelos, uma frase estudada a que o Zidane, depois de levar e ser agarrado em cada jogada, não podia deixar ficar sem reacção. O resultado foi o que se viu, o Zidane foi para a rua e o jogador desonesto como Judas, foi beijar a taça de campeão do mundo. E claro tudo isto sob a vigilândia e supervisão das Uefas, Fifas e total apoio e cobertura mediática, porque é preciso preservar a ordem e os interesses estabelecidos.
Também ontem algo semelhante aconteceu com a nossa selecção nacional e logo um coro de interesseiros veio condenar o Scolari. E o que veio fazer o sérvio desde o meio do campo para junto do banco da nossa selecção? O árbitro tinha dado o jogo por terminado, ele empatara, estava satisfeito, que raio de desforço precisava tirar do nosso selecionador? Por que não mandara dar a bola à equipa sérvia que a tinha atirado fora por um dos seus estar caído? Então se uma equipa treinar para perto do fim do jogo ter sempre um jogador caído o adversário fica impedido de jogar? Então o árbitro não está lá para avaliar a situação e porque razão ele não parou o jogo?
O jogador sérvio vai à pressa para junto de Scolari e está a dizer algo que certamente ofende, depois dá-lhe, uma palmada no braço a que Scolari responde com uma bela e oportuna esquerda.Foi pena não ter acertado em cheio, mereciam-no ambos, um ter acertado, outro ter levado com ela bem pesada. Ao treinador compete dar o exemplo? Concerteza, mas isso compete a todos os treinadores de todas as equipas e ao treinador dos sérvios também lhe compete exigir fair-play aos seus jogadores e não vir explorar a situação fazendo declarações que mais não foram que uma verdadeira delação à Uefa para que esta castigue severamente Scolari.
O jogo sujo dentro do campo, pensado, estudado e premeditado, é sempre do provocador e não de quem é apanhado a frio mentalmente e a quente emocionalmente. Ontem assistimos mais ou menos a uma já vista farsa num velho palco com encenação trazida de casa.

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Monday, September 10, 2007

GORJEIO DA SAGRAÇÃO

SAGRAÇÃO DO LUGAR DA INOCÊNCIA

Que atracção é essa que herda
o humano do lugar nossa tela
da vida, onde se nasce, vê e sente
pela primeira vez, se tem perda
da virgindade memorial e nela
tudo registado se faz semente
mãe de futuro sempre presente
e permanentemente aceso
iluminando as originais imagens
captadas após o grosso ventre
escuro e desde a luz sem peso
que nos penetra sem portagens
mas cobra forte de nos fazer gente
à luz desse lugar vivo, imanente
guia e nosso referencial, criador
da sagração da inocência iniciática
assimilada tão imperecívelmente
em nós que se torna acto primor
dial da nossa vida plena prática,
qual árvore vive de terra e clima
propício e adapta ramo folha fruto
à raiz o homem, obra-prima
da natureza, crava o pé onde foi puto.

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