Tuesday, September 30, 2008

OBSERVAÇÃO

VERDADE E MENTIRA
Nunca ninguém mente a sí próprio, a mentira só existe para o outro. Numa troca de ideias a minha opinião é sempre verdadeira para mim. Quando formulo uma opinião faço-o sempre num quadro mental que configura e expressa a minha verdade. Mais, cada opinião emitida é a focagem num fragmento de um vasto quadro elaborado e em permanente recomposição no meu pensamento. Sendo a opinião uma extracção de um fragmento de mim mesmo, tomar a minha opinião como falsa seria como considera-me a mim próprio uma falsidade, o que é um absurdo.
Com o outro passa-se precisamente o mesmo, e se o seu quadro de pensamento não coincide com o meu a minha opinião é mentira para ele e vice-versa. Quando os quadros mentais coincidem não há mentira, quando muito divergências de composição em fragmentos do quadro.

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Monday, September 29, 2008

PAUL NEWMANN


HOMENAGEM FÚNEBRE

Na revista dirigida por Luis de Pina, "FILME" nº 7 de Outubro de 1959 acerca do filme "The left handed gun"(Vício de Matar), Dinis Machado dizia a propósito da representação da personagem Billy the Kid por Paul Newmann: " A interpretação é truculenta, teatralizada, nervosíssima, quase esquizofrénica, às vezes estapafúrdia. Paul Newmann utiliza o 'Método' até incomodar o espectador".
O 'Método' era e é, como se sabe, a designaçaõ atribuida ao ensino de Strasberg e Elia Kazan no Actor's Studio, donde sairam actores como James Dean, Marlon Brando, o próprio Paul Newmann e depois muitos outros actores que continuam representando de forma quase esquizofrénica sob o modelo de Kazan. Contudo, se neste filme citado, PN ainda era um bom aprendiz de Kazan, foi progressivamente moldando o Método à sua personalidade própria para se tornar um actor-ele-próprio, um actor que compunha cada personagem com rigor e fidelidade de forma pessoal sem precisar de usar ou exagerar o arsenal da semiologia Kazaniana. Melhor, por fim, ele usava o Método como fundo do quadro de composição das personagens e não como grande plano ou imagem de marca.
Por isso mesmo gostava, cada vez mais, de ver PN na tela, e cada vez menos de ver, os sempre cada vez mais continuadores zelosos na aplicação espalhafatosa do Método. Por isso, PN acabou sendo o autor das suas personagens e deixou de incomodar o espectador, enquanto os imitadores constantes de James Dean e Marlon Brando, com a repetição ininterrupta, de filme para filme, do Método levado ao exagero refinado, transformou-o numa cartilha de estilos de tiques que nos incomodam com a sensação visual de que estamos sempre a ver o mesmo filme.

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Saturday, September 27, 2008

MARAFAÇÕES LXV

ASSIM NÃO, NÃO

Não há cão nem gato que não tenha tentações de experimentar esquemas de ordenar indicações de protesto organizado aos portugueses. Mesmo as organizações instituidas privadas que alcançam notoriedade através de trabalho honesto como a DECO, a partir de se sentirem creditadas e escutadas não resistem à tentação de medirem forças, normalmente com o Estado ou com outras entidades de poder a nível nacional como é o caso presente. Logo que ganham massa critica de poder protestatário, à primeira oportunidade acham conveniente enfrentar o adversário a jeito para saber da dimensão e força sócio-comercial-política da sua instituição.
Mas que raio de efeito tem ninguém abastecer o carro um dia no ano ou mesmo no mês? Ninguém se abastece todos os dias e o facto de ninguém se abastecer num só dia até podia acontecer por coincidência. Se não se abastece nesse dia mas andou de carro e consumiu vai gastar a mesma quantidade habitual e no fim do mês o consumo, e por conseguinte a despeza na bomba, mantem-se a mesma de antes. Afinal que perdem as gasolineiras se um dia não fazem receita mas nos dias seguintes recuperam e no fim do mês tem a mesma conta em caixa?
Não, o problema não é provocar prejuizo às gasolineiras, pretende-se tão somente mostrar e pesar o poder e a força de protesto da instituição para possíveis futuras contendas sobre dividendos em jogo entre as partes. Já há tempos, muita gente, muitos mail e até muitos blog avisados, alinharam e divulgaram, como um achado de grande visão, esta táctica de fazer pressão para baixar os preços. Parece que nada aconteceu mas a ideia ganhou corpo e agora uma instituição respeitável vem corporizar o protesto.
Hoje, se o depósito acusar "reserva" abastecerei como normalmente faço, comigo não contem, não alinho e desconfio muito de tomadas de acção grátis.

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Friday, September 26, 2008

MARAFAÇÕES LXIV


Após uma ausência do lugar do computador, ao ler o jornal da manhã e ver/ouvir a tv constato que tudo, politicamente, continua no tom anterior e mais ou menos sempre igual. Vejamos:

1.- O jornal "Público" pela pena do seu rotundo director e sua corte, faz um editorial do mais arrevezado estalinismo imaginável para concluir subentendidamente que a culpa da crise actual foi do presidente "socialista" Franklin D. Roosevelt que criou em 1938 a Fannie Mae e mais tarde outro presidente criou a Freddie Mac em 1970. Grande esperto nos saiu o vidente Roosevelt, que achando a resolução para o problema dos americanos terem possibilidade de ter casa própria em 1938, após a grande recessão se 1929, já nessa altura previa as falcatruas dos "produtos tóxicos" e exploração do "efeito de funil", que as actuais "D. Brancas, eminências gestoriais" fariam na década de 2000. Não saberia Roosevelt já em 1938, como o sabiam certamente de ginjeira os dourados gestores que aplicaram agora tais métodos que tal efeito dá sempre buraco? Sabia a D. Branca, sabia o dos selos de Madrid, e sabiam estes também que explorada toda a água da nascente esta já não alimenta a rega, é como se o funil passasse a funcionar ao contrário. Não há hipótese, mais tarde ou mais cedo seca a fonte e, sem caudal corrente seca a floresta que neste caso era quase o planeta inteiro.
Claro que os meninos que aplicaram a trapaça não são loucos, bem pelo contrário, nem enganaram o "contolo, supervisão, regulação, governo, cia, etc", porque estão todos ao mesmo nível de riqueza e estatuto social, são conhecidos e frequentados, partilham identicas ambições e revesam-se nos lugares, não interveem, deixam andar e acabam todos a tirar partido da situação. Sabem, dada a dimensão criada, que alguem põe a massa ou é a falência global, entretanto eles ficaram multimilionários e a arraia-miúda que vá ao "Padinhas".
Mas o estalinismo puro está no julgamento de intenções do editorialista, para além de se esquecer que as tais Mac e Mae, já nada têm de "Federais" e são geridas tão privada e sonegadamente, longe do escrutíneo e transparência a que o Estado está obrigado, que as levaram ao ponto de insolvência enquanto embolsavam como estrelas primas-dona. Veja-se este mimo de prosa: "O que significa que se podemos falar da irresponsabilidade dos seus gestores, a seguir convém acrescentar que eles em Portugal seriam mais depressa gestores da CGD do que de um banco privado".
Uma conclusão tirada dum maquiavélico processo de intenções. Pois, também no BCP se viu a sagaz bondade e nobreza da privadissima gestão: milhões para a gestão e cêntimos para os accionistas. Cá o Estado resolveu com a CGD, lá resolve com o FED ou tesouro, ou lá o que é, mas sempre à custa dos outros, os não culpados.

2.- Na tv Marques Mendes continua igual a sí próprio e aos portugueses em geral: pede por tudo que é preciso a Portugal mudar de vida mas quando perguntado se se vai manter activo, responde que se sente bem com a vida, que está bem consigo mesmo, vive satisfeito com a vida privada que leva e se sente com genica para gozar a reforma. Resumindo, a mudança do mudar de vida aconselha-a ele aos outros porque para sí a vida corre bem. É o programa político dos portugueses em geral.

3.- Na "quadratura do círculo" Pacheco Pereira continua a cruzada contra a propaganda do governo: que o computador até é uma ferramenta útil nas escolas e para os miúdos mas que pode ser mal utilizado, que não é de fabrico português ( e o que é hoje em dia de fabrico genuino de um país?), que não sabe quem paga os computadores, porque não se esperou por um computador melhor programado (à portuguesa: esperar pela última moda), que se dá computadores aos miúdos como se fora um brinquedo, que a distribuição é pura propaganda, etc. etc.
Claro que a invenção de dar e distribuir computadores nas escolas arrasta inevitavelmente alguma dose de propaganda. O problema está que este governo descobriu uma necessidade gritante da nossa época e meteu mãos à obra juntando útilidades. E com isso leva o computador junto das classes mais pobres, sem capacidade de o comprar e pagar a net, colocando as crianças de Portugal em maior igualdade de oportunidades e desse modo aproximando-as na capacidade de adquirir conhecimento, um bem precioso agora e mais ainda no futuro.

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Friday, September 12, 2008

BRILHANTISMO

Durante todo o apuramento da selecção para o recente Europeu todos os doutorados e catedráticos em futebol que lecionam, em doses maciças diárias, o resto dos portugueses por forma a obterem licenciaturas de treinador teórico infalível, fizeram uma verdadeira barragem crítica acerca das pífias exibições, victórias inexpressivas e exíguos resultados para tanto jogador dos melhores do mundo. Exigia-se brilhantismo. Portugal com tais jogadores tinha obrigação de ganhar com exibições convincentes e brilhantes. Não se fazia por menos.
Agora, no primeiro exame a sério, a selecção quiz e tentou ser brilhante, e até quase o conseguiu esporádicamente, contudo acabou por perder o jogo. E o drama consistiu precisamente em querer fazer ver aos catedráticos que realmente podemos e temos o dever de ser brilhantes até ao último minuto. Foi a recém-passada exigência catedrática de ganhar com brilhantismo, memorizada pelos jogadores e aceite pelo novo treinador, que deitou a perder os jogadores, o treinador e por fim o jogo.
Os jogadores endeusados pela imprensa futeboleira, a cinco minutos do final, embora a ganhar e depois de várias perdidas inaceitáveis em alta competição, teimavam em justificar o seu estatuto de melhores do mundo e demonstrar que podiam ganhar por mais e assim obter o brilhantismo nas primeiras páginas e a classificação individual de brilhante. Foram à procura do brilhantismo para junto da área do adversário despreocupadamente. O treinador, temendo ser acusado de falta de ousadia e brilhantismo, não só consentiu como ainda ajudou ao descurar uma opção defensiva. E foi o que se viu.
Ou muito me engano ou uma mentalidade mais terra-a-terra terá de ser inscrita na cabeça de todos, ou ainda vamos ter muitas saudades do Scolari.

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Wednesday, September 10, 2008

O ANONIMISMO

O anonimismo é uma escolástica do pensamento dos instintos. Segundo Freud, o progresso na espiritualidade consiste em preferir os processos intelectuais chamados superiores (reflexões, recordações e juizos), aos dados da percepção sensorial instintivos. O anónimo é o doutor da escola filosófica do instinto. Tal como o medroso armado dispara instintivamente sobre o que mexe na escuridão, o anónimo descarrega a opinião instintiva sobre qualquer opinião de fora que não faça inchar o seu amor-próprio. A sua caça é a opinião alheia inconveniente, a sua arma o instinto, o seu esconderijo o anonimato.
Actualmente na blogosfera aberta, a grande maioria dos comentários a escritos de opinião ou notícias, são descargas de opinião primitiva dos instintos, como se se tivesse aberto a comporta duma estação de tratamento de águas sujas, sai o que está á porta de saída tal como o anónimo despeja a corrente mental instintiva que lhe ocorre à cabeça.
O Homem primitivo e nosso pai foi caçador nómada, viveu isolado em cavernas, intelectualmente infantil, apenas deixou marcas anónimas. Será que a actuação dos anónimos actuais são sinais remeniscentes dessa freudiana herança arcaica dos nossos pais primitivos?

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Tuesday, September 09, 2008

FAZER ONDAS

A manhosa imprensa à portuguesa é mestra em formar e fomentar vagas de catástrofes; vagas de incêndios, vagas de crime violento, vagas de traficantes, vagas de pedófilos, vagas de acidentes, vagas de emigrantes clandestinos, vagas de pobreza, vagas de sem abrigo, vagas de alccolismo, vagas de protestos, etc.
Qualquer pessoa de fundamentadas leituras, com vivência e experiência dirá que a nossa imprensa se dedica a viver (subsistir) do imoral expediente de criar um senso comum medroso, explorando o espírito iletrado crente da maioria, submergindo a cabeça e encharcando os olhos dos portugueses sob ondas ressonantes artificiosamente criadas a partir de ondulação de costa, perigosa para banhistas que não sabem nadar e perdem o pé.
Costuma dizer-se a quem não sabe fazer bem o seu serviço que, para disfarçar, faz ondas. É isso que faz a nossa imprensa.

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FAZER ONDAS II

Ontem no telejornal do meio dia a rtp deu aos portugueses a colossalmente importantíssima notícia nacional com a incondicional imagem da estatural figura: - o João Pinto depois de há meses deixar o futebol ainda não sabe o que vai fazer - .
E, acaso, a rtp já sabe o que anda a fazer?

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Tuesday, September 02, 2008

GORJEIOS XIX


Sobe montes desce montes
por carreiros e horizontes
desconhecidos, incertos,
cara ao alto olhar em frente
está triste mas vai contente
com os olhos bem abertos
espetados na esperança,
salta raia de males e mazela
percorre terras de Castela
sonha com terras de França
tal como o pai sonhou Brasil,
Argentina, Venezuela.
Espera-o vida de cão e trela
nos palácios de lata do bidonville.


Do livro "Gorjeios"
3ª estrofe do poema "Emigração".

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