Thursday, January 28, 2010

BELEZA IMPARÁVEL

DO MEU ALGARVE


De novo se abre
o milagre
prodigioso de côr
branco doce
que trouxe
imortal pintor
do caos à beleza.


Proeza
única e prenda
sempre repetida
sem mudar de vida
sem saber da lenda
que te increve
saudades de neve
de moira princesa
desolada.


À nobre coitada
a mãe natureza
ofertou flôres
promessa de fruto
promessa em bruto
de pão e valores
sob a condição
inexorável da mão
mãe natureza
única soberana realeza.


Mas a ofertada flôr
sob jugo de fulgor
d'outras belezas fabris
emanadas da ementa
modernista, rebenta
fulgurante de viris
troncos sábios austeros
interpelando os meros
humanos broncos imbecis
abrindo-se farda de gala
maravilha d'encantamento
diz ao sábio e ao jumento
que existe floresce e exala
beleza, não morre nem se cala.

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Thursday, January 21, 2010

TÉNIS TÉCNICO À MODA DE LILI CANEÇAS

No Open da Austrália o grande técnico professor do ténis português Bernardo Mota acaba de deixar aos amantes da modalidade o seguinte pausado grande pensamento:

"O serviço é uma pancada muito importante, (pausa) porque permite ganhar muitos pontos, (pausa) mas permite também perder outros tantos ".

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Monday, January 18, 2010

UMA HISTÓRIA GORJONENSE X


1. A ESCOLA DO VIRGÍLIO
Tinha a mãe posto o Virgílio na Escola Oficial e o moço tinha custosa e atrapalhadamente passado para a 3ª classe aos nove anos, naquele tempo de princípios dos anos quarenta. Os tempos estavam difíceis e muito duros para as famílias pobres de pouca terra, lavoura e frutos secos, para mais em ano mau de colheita que povocava escassez de dias de trabalho por conta. Pior ainda numa família onde o pai abalara para França, trazia a mãe o moço na barriga, e por lá andava sem dar sinal de vida o que dificultava ainda mais a situação em casa da Ti'Furgena com três moças e um moço para criar.

Tinha de fazer-se o milagre diário do pão e conduto mínimo sobre a mesa e saber repartir a miserável fartura a bem pelos filhos que à mãe bastava-lhe azeitonas e figos torrados. As moças, ainda meninas e mulherzinhas, já ajudavam na lida da casa e trabalhavam nas casas de lavradores, eram já contribuintes para o milagre de cada dia feito à mesa com toalha de oleado sem pratos postos. Porque eram mais velhas e eram moças, a estas nem sequer lhes tinha sido dado hipótese de frequentar a escola.

Nesta magra e frágil situação de recursos familiares com tendência a piorar devido à guerra mundial que deflagrara, o Virgílio era obrigado a ajudar em casa nos trabalhos de ida às compras, de tratar dos "bichos" e nos trabalhos de varejo e apanha nos pequenos pedaços de terra própria. Via-se obrigado a faltar frequentemente à escola, além de que, criado entre uma famíla rural de analfabetos, o seu gosto era tudo menos virado para livros, contas e estudos. E também nada ajudava a gostar da escola as frequentes meia dúzia de "reguadas" em cada mão que a profesora lhe aplicava sem ele perceber porquê. Pensava para sí próprio: - já sou obrigado a estar preso na escola e ainda por cima batem-me sem eu fazer mal a ninguém-. Custava-lhe suportar ser mal tratado sem ter feito mal algum, segundo a sua educação em liberdade na escola da natureza onde nem os valados mais altos nem o mato mais denso o aprisionavam.

Naquele tempo vivia-se, salvo alguns ofícios tradicionais do mundo rural, quase integralmente dependente da produção da terra. A escola e o saber ler e escrever bem era uma desprezível ocupação face à aprendizagem dos duros serviços do campo, onde se começava a ganhar cedo para ajudar ao milagre diário do pão sobre a mesa. Tanto que, anos mais tarde ainda, avós de garotos que andavam na escola até à 4ª classe e iam estudar, diziam aos netos que andavam a desperdiçar o tempo, que as letras não davam de comer a ninguém, que jamais ganhariam para sustentar uma casa, que nunca haviam de ser alguém sem aprender um ofício e era certo que iam passar uma vida de miséria e fome porque ninguém lhes daria trabalho por saber ler mas não saber cuidar da terra ou ter ofício e ser mestre.
Era com tal dureza de previsões carregadas de desgraças negras que os mais velhos admoestavam os jovens familiares descendentes, na boa-fé de lhes incutir a severa educação rural e prosseguir a tradição ancestral, transmitida de pais a filhos. Não por lhes querer mal, pelo contrário, este era o modo de lhes expressar o melhor bem que lhes desejavam para o futuro: porque assim tinham educado os filhos e assim tinham ouvido dizer que fôra com os avós deles e que portanto sempre assim fôra e seria.
Grande força tem esta tradição inapagável, reminiscência indestrutível duma cultura milenária fundada no primitivo culto aos deuses ligados à Mãe-Terra. E quanta verdade ela contém ainda hoje, basta ver os humanos fracos e impotentes, de repente tornados suplicantes baratas tontas ou caçadores ferozes pela sobrevivência, face às grandes catástrofes naturais.

Um dia o Virgílio não sabia a lição nem fizera os trabalhos de casa. A professora Ermelinda, como costume na época, aplicou o método pedagógico padronizado oficialmente acrescentando o seu rigor pessoal. Depois das inevitáveis "reguadas", mandou-o pôr-se de braços abertos na rua, sem se mexer, virado para a parede e vigiado: quando já não aguentava e deixava cair um braço levava uma varada nesse braço. O moço Virgílio, bravio pastor de cabras, salta valados, trepador de árvores, corredor descalço por caminhos de pedras e matos, lançador de pedras certeiras, atirador de fisgas e fundas, pássaro livre como taralhão mosqueiro, jamais podia sujeitar-se a tal insuportável castigo. Sentido na pureza da sua inocência incompreendida e ferido na sua bravia liberdade instintiva, agarrou a vara do vigia, deu-lhe com ela e fugiu da escola a sete pés.

Desde esse dia, abalava de casa com a bolsa dos livros às costas, fingia que ia para a escola mas passava o horário escolar atrás dos pássaros. Passava o tempo de aulas vigiando o movimento dos pássaros para descobrir os ninhos deles escondidos nas árvores. Pelo caminho, desde casa até perto da escola, já descobrira alguns de pintassilgos, pintarroxos, e até de cotovias, feitos na terra no meio do trigal, e um de pôpa, feito de caca e penas, numa toca de alfarrobeira. Foram dias felizes a estudar com a natureza, a ganhar destreza e argúcia jogando às escondidas com os pássaros e observando as lições de astúcia e maravilha que eles davam no trabalho minucioso de fazer as suas redondas e fofas casas perfeitas. E maravilha maior, faziam-no com alegria tal que a celebravam com cantes e gorjeios que o maravilhava mais que os cantes dos pintassilgos que tinha em casa na gaiola.
Esta felicidade à solta e livre como passarinho, fazia-o feliz e esquecer a escola. O pior era quando chegava a hora do regresso a casa e tinha de mentir à mãe e ao pai, que entretanto regressara inesperadamente de França, sobre o facto de andar "fugido" à escola e isso metia-lhe medo e trazia-o apoquentado.

Inevitavelmente, um dia a notícia de que andava "fugido" à escola tinha de chegar aos ouvidos da mãe. Esta ainda quiz encobrir e depois desculpar o procedimento do moço perante o pai que viera de França há semanas e já embirrava com o filho por tudo e por nada. Por sua vez o Virgílio, que não conhecera o pai e via agora, de repente, aquele homem estranho, que mal chegado a casa passara a dar ordens a todos, até à mãe que o criara e sempre tivera e respeitara como a dona da casa, via o pai como um intruso que viera perturbar a boa harmonia da família. Tanto mais que, além de dar ordens à bruta com ameaças já tinha batido numa moça e corrido atrás dele para lhe bater sem conseguir.
Estando as coisas neste pé, a "falta" grave do Virgílio era o pretexto ideal para o pai demonstrar e impôr a sua autoridade definitivamente em casa. Quando soube do que se passava, apesar e contra a defesa da mãe, agarrou o Virgílio e deu-lhe uma sova que o deixou doído a sangrar. Contudo a dor maior era sentir o sangue ferver-lhe no coração, tão grande que lhe rebentava nos olhos e queimava as faces, tão forte que lhe pôs os cabelos em pé e o pequeno peito a saltar, tão sentida que jurou ali mesmo a sí próprio, que nunca mais na vida deixaria aquele homem bater-lhe.

Uns dias depois, juntou os poucos trapos remendados que possuia, meteu-os dentro de uma saca que meteu às costas e abalou, estrada fora a caminho das hortas, a pedir trabalho como "moço de servir". Numa horta do Rio Seco, aceitaram-no para moço de servir na cozinha da casa e tratador do gado e das cabanas dia e noite.
A sua escola voltou a ser ao ar livre junto da natureza viva das plantas e animais, a sua carteira era o catre onde dormia e sonhava ser sábio sem livros e estudos, a sua caneta de aparo era a forquilha e enxada e a tinta o estrume azedo dos animais com o qual escrevia riscos sobre a terra que dava o pão e os frutos. Aprendeu, para sempre, a gostar da fragrância do estrume dos animais que fermentava a terra e os frutos saborosos, tal como a massa azeda de farinha que fermentava o pão precioso.
Nesta escola da vida ao vivo, andou tantos anos quantos tinha quando nela ingressou. E só voltou a casa depois do pai morrer.

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Wednesday, January 13, 2010

DOS BONS PROFESSORES


O MEU BOM PROFESSOR

Mil vezes bom professor foste tu, mil
vezes bom professor bom do velho IIL

pardieiro à Buenos Aires, onde içáste
ao topo não a carreira mas o ensino
da tua escola e aos alunos o assassino
bom gosto de calar o saber quanto-baste
pequenino e elevar o ser à substância
cerebral útil do saber com importância
futura. Tu, o único a dar altas notas
porque os alunos iam aos pormenores
todos da matéria com gosto, e dos piores
fazias bons, bons mesmo sem batotas
deles nem tuas, e do respeito e maneiras
ímpares de ensino e trato curso e cadeiras
volveram gozo. O único que à chamada
obrigatória dizias nada e tal não impunha
às 8H da matina sala vazia mas à cunha

de alunos teus e outros que de pé e sentada

atentos escutavam mudos a fala suprema
dita desenhada números letra esquema
a giz no quadro preto. Eras o Chagas
Gomes mil vezes mais desejado entre
todos pela sábia e subtil exposição sempre

clara de Eng.º professor nas horas vagas
cheias de talento a ponto de dizer-se: a tal
professor nenhum dinheiro paga o que vale.

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Wednesday, January 06, 2010

DEMOCRACIA MENOR

Adão, o poder

MAL VÃO OS HOMENS E O PAÍS DESSES HOMENS

Anda meio Portugal a discutir as "escutas" feitas através de espreitadelas a telefones de uns cidadãos por outros cidadãos arvorados em denunciantes oficiais da democracia. Eu acho, se me é dado o direito de também achar tal como a outros o de espreitar, que a Democracia bem podia dispensar tais abusivas e pidescas espreitadelas, pela calada, à vida privada dos cidadãos, de qualquer cidadão.
Não se viveria, como agora se vive, nesta alarve e imbecil discussão acerca de se se cometeu um crime através de uma fala ao telefone.
Todas as discussões palermas, vazias e decadentes como esta seriam evitáveis desde que hovesse uma Democracia maior e saudável capaz de:

Mudar a lei e pura e simplesmente proibir todas as escutas. Todas e a quem quer que seja. A ninguém deve ser dado o direito de escutar às escondidas o outro. O povo não deliberou em lado ou lugar algum que um cidadão, ou grupo deles, se possa colocar clandestinamente na posição de "escuta para bufo denunciante" da vida privada de outro cidadão com direitos iguais a todos os demais compatriotas.
Acaso alguém entre vós, cidadãos portugueses, se se souberem sob escuta aceitam tal situação? Então porque aceitam que outros o sejam?.

Afinal, alguém comete ou pode cometer um crime "de facto" através de um escrito ou de uma fala? Um crime só é crime, ou devia ser, quando fôr cumprido o acto do crime, caso contrário todas as promessas e ameaças incumpridas, escritas ou ditas, teriam de ser consideradas crime.
E aos polícias obrigue-se a chegar ao crime pela inteligência e investigação dos vestígios dos factos, e aos juizes que julguem crimes e não intenções ou insinuações de crime.

Muito mal vão os homens e o país desses homens onde se pretende "ver" crime e "deseja" crime quando ainda nenhuma acção de prática de crime foi cometida. Tal país e tais homens estão a caminho de servos e não de Homens livres.

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