Saturday, December 30, 2006

CAPA DO LIVRO GORJEIOS







CAPA DO LIVRO GORJEIOS DE
JOSÉ NEVES
ORIGINAL DE
ADÃO CONTREIRAS

Thursday, December 28, 2006

MARAFAÇÕES III

A Dignidade


Naquele tempo a jovem tipo vespa obreira era o exemplo de beleza;
duas partes roliças e uma cintura de guita, ao alto uma cara bonita
e uma farta cabeleira, umas pernas gordinhas peludas, dois braços
fortes na courela e mãos habilidosas para as artes domésticas.
Ela era a exaltação da beleza daquele tempo em carne e osso,
disputada por moços pobres, ricos e remediados de olhos em seta.
Seus olhos tinham luz própria como carvões em brasa
iluminando um sorriso de sonhos felizes.
Sua juventude resplandecia atraente merecedora de futuros
radiosos, que do pouco passado vivido ela já tinha provado
o gosto amargo inscrito no precoce rosto envelhecido
de sua mãe, outrora também bela.
Sentia-se cobiçada pelo corpo e menosprezada pelos parcos
teres familiares, eternos valores dominantes da necessidade
quotidiana, mas acreditava no amor.
Atingida por Cupido, de alma lavada e pura acreditou
encantada nas palavras melosas de um vizinho e levada
pelo coração abriu confiante, as preciosas intimidades, condigna e
conformemente à primeira doce inclinação do coração.
Enganada, disse o povo quando o amor a traiu.
Desonrada, pensaram todos que tinham sonhado e sido preteridos
e, imaginando facilidades, rondaram a porta e caminhos,
na ganância de serem segundos, terceiros, quartos, ou apanhar lugar
na fila de espera de pretendentes a uma punhalada falo-pulhítica.
Enganada e desonrada pelo amor gritou ela intimamente ao coração,
enquanto a alma lhe amparava a dignidade.
Hoje soube da sua morte súbita, reclinada no seu leito, após
a ceia de Natal e uma vida inteira de luta pela sobrevivência
própria e dos seus, sempre ignorada pelo amor e esquecida por Deus.
Desprezada pelo amor dos outros, ganhou um forte amor próprio
para suportar, com nobre dignidade, a má sorte que lhe estava
reservada até hoje.
O amor enganou-a e desonrou-a, cobrindo-a de uma maldição
indespegável apesar do nobre combate que travou. Sózinha
emigrou para França para servir as madames, e serviu sem queixumes
durante anos. Voltou trazendo consigo um português bêbado
abandonado que teve de alimentar,vestir e sobretudo dar de beber,
servindo nas “villas”, “maisons” e “homes” dos estrangeiros
na sua terra, sem queixumes nem queixinhas. Tratou humanamente
do homem alcoolizado e do filho toxicodependente comprando,
ela própria, o alcool e a droga de que os seus corpos arruinados
necessitavam para sobreviver, sem queixumes nem queixinhas
nem ajudas.
Apesar de tanta resignação sem revolta, de tanto sofrimento sem
queixume, de tanto amor dado sem troco, duns olhos gastos de tanto
chorar, dum rosto coberto de rugas fundas esculpidas por lágrimas
de chumbo, a maldição do primeiro amor perseguiu-a sempre.
Nada nem ninguém lhe foi bom, nem o país pois era da pensão
francesa que vivia, nem Deus pois quando descansava
merecidamente dos duros tormentos passados, enviou-lhe a morte
após a ceia de Natal.
-Coitada, teve sempre pouca sorte-, diz o povo.
Com pouca sorte ou maldição de amor, envergou o seu farrapo humano
sempre limpo e asseado com grande dignidade e se é verdade que existe
Deus no céu, só pode ser princesa no seu reino.





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Monday, December 25, 2006

MARAFAÇÕES II

A ROLA

Bago a bago enche a rola o papo.
Pauzinho a pauzinho faz a rola o ninho.
A história da rola conta-se pelas histórias das rolas.
A grandeza grega começou com a inclinação da rola das Ninfas por deuses e heróis.
Roma fez-se grande, poderosa, imperial, pelo rapto da rola das Sabinas.
Portugal fez-se reino pela inclinação da rola de Dona Tereza pelo galego Fernão Peres de Trava.
A curta grandeza de Portugal nasceu dos ovos bons postos pela rola de Dona Filipa de Lencastre.
A história da humanidade também pode contar-se pela história das inclinações das rolas.
Tambem os tempos próximos podem ser previstos, os Augures conheciam o futuro pelas inclinações do vôo das rolas.
Quando a rola voa para um determinado ponto da costa o tempo fica salgado.

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Thursday, December 21, 2006

MARAFAÇÕES I

O homem programado.

Ia no Metro com minha mulher e disse:-ficamos em S.Sebastião. Um senhor entre dois com aspecto de bem reformados que ouvia a conversa respondeu pronto:-Para o Corte Inglés é em S. Sebastião. Olhei para o senhor tão espantado como tão longe de mim estava tal pensamento. O certo é que à saída do Metro lá estava a placa indicando o centro comercial para onde o tal senhor se pôde dirigir rápidamente sem dúvidas. Nós andámos à procura duma saída com indicação "Gulbenkian", inglóriamente.
A exposição de Amadeu Sousa Cardoso teria umas dezenas de pessoas contemplando a beleza inovadora da sua pintura, no El Corte Inglés andavam milhares de pessoas à procura de uma idéia à vista que entre tantas alguma havia de ser.
O homem programado é sinal de decadência, os gregos criaram um programa para o homem e surgiram oa bárbaros romanos, estes programaram de novo e surgiram os bárbaros godos, gauleses e saxões. Estes por sua vez programaram o homem actual.Quem serão os autores da próxima programação?

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Wednesday, December 13, 2006

MERDOCK, VELHOS TEMPOS

Às vezes ponho-me em sossego a recordar e penso
atrás, próximo de cinquenta e tais anos de distância.
Circulando pela memória de repente salto e venço
o tempo, regressando às coisas bonitas na infância
feitas e que, distraídos, não demos importância
naquele tempo de medo surdo-mudo, oculto e tenso,
imposto ao povo que o carregava na alma a toque
de caixa, e jovens gritavam"liberdade pró Merdock".

Era um cão desmazelado, pelo amarelo sujo, vadio,
pele-e-osso, meio-grande, orelhas partidas, rafeiro
perdido na cidade, que apareceu muitos dias a fio
à porta do liceu, e muitos estudantes, primeiro
brincam com ele aos poucos, depois a tempo inteiro
cada vez mais amigos, com sobras matam o fastio
do cão, e por fim não deixam que alguem o enxote
ou maltrate, tornando-se por adopção sua mascote.

Naquele tempo não havia liga de defesa de qualquer bicho,
mas havia a carroça dos cães e homens de cotim, com laços
compridos, para caçar os sem dono que andavam no lixo.
E um dia, caçaram o Merdock e lavaran-no para os paços
do canil, contra os estudantes, que logo reuniram os escassos
dinheiros para pagar a multa, e cheios de brio e capricho,
dirigiram-se ao canil municipal, em jeito de manifestação
pelas ruas principais da cidade, para libertar Merdock, o cão.

O caso foi falado por toda a cidade e no liceu, penso,
onde mandavam os homens do regime, os reitores
cara de ferro, tendo à frente o zeloso e sisudo Ascenso,
vigilante dos profes duvidosos, possíveis opositores.
As opiniões dividiram-se na sala dos professores,
pois julgava-se que não seria preciso haver consenso,
acerca da iniciativa estudantil de tão prosaica medida,
mas a gente da situação viu no caso, coisa escondida.

E tanto assim foi que, passado um mês e poucos dias
o Merdock, apanhado de novo, foi enviado pró canil
em clara demonstração de poder e força, às rebeldias
dos estudantes que, perante a evidente actitude hostil,
voltaram a desfilar em manif, (desobediência civil),
com cartazes e bandeiras pretas (autênticas heresias
políticas). Chamados perante as pequenas majestades
locais, ficaram sob nacional ameaça de pidescas grades.

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Tuesday, December 12, 2006

SER MONTANHEIRO

Ser montanheiro é saber distinguir os cheiros
da terra com marca de tempo, e não de frasco.
É conhecer a hora pela sombra que dá o astro.
É saber o nome dos matos, cerros e outeiros
em redor, sentir e conhecer as estações pela côr
dos campos, e os frutos das árvores pela flôr,
apreciar sabores de tripas cheias pelos fumeiros.

Ser montanheiro é saber com o olhar os nomes
das árvores e dos frutos, das ervas e cereais,
dos bichos do ar e da terra, ter saberes manuais
sobre os trabalhos que dão o pão que tu comes.
É conhecer os animais pelo andar e pelos cios,
as amêndoas e os figos pelas côres e feitios,
as cearas pelas espigas, as farturas pelas fomes.

Ser montanheiro é conhecer de ouvido os pios
das aves agoirentas, os pássaros pelas côres
e vôos, e pelos ninhos conhecer os seus autores.
É suportar geadas invernosas e brasas de estios,
curvado à rabiça ou à vara por nateiros e matos
sob o jugo da natureza, respeitando os pactos
que repetem sempre o mesmo homem e desafios.

O montanheiro vive no chão entre terra e estrelas
onde não há ruas, praças, palácios nem catedrais,
apenas cerros, caminhos e veredas, talvez capelas
de santas e sinos escutados no céu pelo badais,
tocando a reunir povo com o eterno montanheiro
que vive nos montes olímpicos desde o primeiro
tempo, como autor, vigia, juiz de homens e rituais.

O montanheiro é o fiel depositário dos costumes
antigos da humanidade, das boas tradições e crê
respeitosamente no tempo, no sol e chuva, que vê
como a mão milagrosa de Deus que dá perfumes
coloridos às plantas e sementes, que dão o fruto
e o pão, e no rebanho que dá a carne e o conduto,
num ciclo de vida de rastos e restos de estrumes.

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Monday, December 11, 2006

ESTRADA DE SANTA BÁRBARA DE NEXE

CÂMARA MUNICIPAL DE FARO

Exmos. Senhores Edis,

A freguesia de Santa Bárbara de Nexe é a única do concelho de Faro que está alcandorada sobre a cidade, sobre a Ria e sobre o Mar a cerca de 300m de altitude e fica apenas a 10Km da cidade capital do Algarve. Em qualquer pequeno carro utilitário são 10 minutos para alcançar a sede da freguesia. Seriam, pois que no caso presente serão mais e sobretudo com aumentadas possibilidades de graves riscos para a saúde do carro ou para a própria saúde do condutor e passageiros.
Como já devem estar a pensar estou a falar da estrada Municipal nº 520, principal ligação de Faro à nossa Freguesia. Passados mais de 30 anos sobre a promessa Abril, muitos anos sobre um país coberto de Auto-Estradas, IPs, ICs, Vias Rápidas, Circulares, Pontes, Túneis, Aeroportos, Estádios, e prestes a entrar na era da via Linha de Alta Velocidade, é com enorme desgosto que percorro a curta via de ligação à minha freguesia rural e constato que tudo mudou à volta excepto a velha estrada 520. Esta mantem-se obstinadamente na via Linha de Mesma Velocidade, aquela das carroças da pedra, da amêndoa, da alfarroba e dos peixeiros de bicicleta a pedal. Lembro-me quando ia para Faro de bicicleta fazia todo o percurso desviando-me das covas, buracos, poças de pó ou água, pedras, paus, para chegar inteiro e limpo à cidade. Hoje vamos de carro mas as manobras e os cuidados são os mesmos.
Verdadeiramente a velha estrada 520 ficando sempre igual piorou enormemente com a mudança verificada à sua volta. A população aumentou e toda a família, comércio, indústria, serviços, turismo, etc. se desloca em viatura própria. Onde passava uma carroça de vez em quando hoje passam dezenas de carros a velocidades 20 vezes superiores. Onde havia de vez em quando uma portada de saída para a estrada hoje há dezenas de portadas de saída de carros, carrinhas, camiões, velhos e crianças. É verdade, tudo mudou só a 520 não.
Como foi possível que se tenha gasto tanto dinheiro a fazer e desfazer pisos de ruas, largos, fontes, jardins, parques, parquinhos de estacionamento e para a 520 nem um tostão. Como foi possível gastar tanto dinheiro na Ilha de Faro a socorrer a duna, a fazer e desfazer o largo, abonitar o imbonitável, e para a 520 nem um escudo. Como foi possível deixar passar durante anos os apoios comunitários ao desenvolvimento rural, ao saneamento básico, havendo à vista uma estrada naquele estado nas barbas do Município. Não dá para acreditar.
Dá para se explicar: -a total falta de atenção às populações rurais, a total falta de consideração pelas populações rurais, a total falta de respeito devido a quem já sofre do isolamento da interioridade, da falta de meios e serviços à mão, da falta de água e esgotos à mão, da falta de tudo que o citadino tem em casa ou à porta dado e o rural tem de pagar com deslocação e tempo perdido. Contudo o rural paga exactamente as mesmas taxas camarárias que os demais.
É o velho paternalismo salazarista do “cidadenho” sobre o “montanheiro”: este passa bem com a sua courela de barrocal, com o seu hortejo de couves, favas, xixaros, papas, porco, cabras, galinhas e ovos frescos, e neste quadro fica a matar uma bacia turca de obrar sobe a pocilga. Neste quadro idílico para gente sem instrução e, por conseguinte sem necessidades finas, boas estradas, bons caminhos, bons acessos, água, luz, esgotos, etc. são pérolas por bolotas. Esta cultura mental do tempo do velho sen(il)hor durou, durou e dura ainda apesar da Europa Connosco.
Sei que tudo estava por fazer mesmo na cidade e que planear exige prioridades. Compreendo que eleições ganham-se com votos e estes estão concentrados nos dormitórios das cidades. Percebo que os meandros dos negócios criem redes e grupos de pressão à roda da política e dos políticos difíceis de contornar.
Mas alguém em perfeito juízo entenderá que um Município que possui a Capital Distrital tenha às porta da sua cidade povoações sem água nem esgotos e com acessos quasi intransitáveis? Que tudo isto aconteça nas barbas duma população rural que vê os seus Edis gastarem rios de dinheiro com um clube de futebol falido? E cegos, com o mealheiro já derramado no clube, acabam por bater com o mealheiro meio vazio no pedregulho mastodôntico inutilmente enfeitado para estádio de futebol do tal clube falido.
Penso que a extrema mais longa do nosso concelho se situa aqui nos Gorjões, isto é a 15kms de distância. Numa cidade que queira ser uma capital distrital que vise o futuro, que tenha ambições de alargar a sua área de influência, que faça sentir a toda a volta o peso do seu desenvolvimento, que seja um pólo de atracção para toda a região, tem forçosamente de entender que toda a zona envolvente até ou mais de 15kms à sua volta deve ser considerada seus arredores. No caso de Faro todo o resto do concelho deveria ser olhado como tal, arredores para sua futura expansão habitacional, comercial, industrial, cultural, desportiva, etc. Edis com vistas largas, optimistas quanto ao futuro da cidade, deveriam desde já começar a acreditar nessa possibilidade e iniciar o planeamento nesse sentido. O primeiro passo seria abrir vias rápidas modernas até às sedes das freguesia rurais como estrutura base, que só por si arrasta o resto. Claro que essa obra mãe não pode deixar de levar no ventre as redes de todas as necessidades já consignadas na carta do cidadão europeu.
Nem só de praia, sol e bom tempo pode o algarvio viver sempre, até por que o clima está a mudar e a amêndoa, o figo e a alfarroba foi chão que deu uvas, e uvas hoje é no Alentejo.

José Neves

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