Wednesday, September 30, 2009

ÁGUAS E ESGOTOS: APROVAÇÃO, FINALMENTE.


INCOMPREENSÍVEL
Imcompreensível é o mínimo que se pode dizer da posição da Junta de Freguesia de Santa Bárbara de nexe, na votação para aprovação do novo modelo de financiamente para as obras de águas e esgotos que afectam em grande parte, precisamente, a população desta freguesia. A nossa JF, ontem à noite cerca da 01,45 H, na Assembleia Municipal de Faro, votou contra o modelo de financiamento apresentado pela CMF para possibilitar avançar com os projectos e adjudicações já feitas das obras há décadas adiadas. E segundo ouvimos de viva vóz, tal votação vem no seguimento de outra decisão de voto identica tomada há cerca de un ano.

Estamos em crer que não seja essa a vontade de coração do nosso Presidente da JF e que por tal se sinta incomodado com o sentido de voto imposto pela CDU. Contudo, devia ser corajoso, fazer sentir, bater-se e fazer valer, no interior da estrutura partidária, que neste caso era prioritário dar valor às reais e urgentes necessidades mais sentidas das populações que tomou a responsabilidade de servir. E neste caso tratam-se de necessidades básicas e civilizacionais cuja falta é incompreensível em pleno Séc XXI. Submeteu-se às orientações políticas partidárias gerais que nada, mesmo nada, coincidem com o interesse particular do povo da nossa Freguesia. Foi pena.

E de pouco vale a razão que possa ter o argumento invocado de que durante muitos anos o PS e PSD, que têm ocupado a Câmara, não tivessem feito já antes as referidas obras. Ter razão histórica não justifica estar contra no presente: pelo contrário justifica, antes de mais, acabar com a má história do passado e fechar esse capítulo pouco digno. Pela mesma razão a JF não arranjava caminhos, não abria variantes, não se batia por melhoramentos porque tudo já fora possível de ter sido feito por outros antes. É de teor e valor identico o argumento do erro cometido há anos ao meter-se a Fagar no negócio das águas do Município. Tomar qualquer erro passado como um "pecado original" que temos de expiar eternamente é da religião não é da política. Finalmente o argumento de que, com tal modelo de financiamento, pode o custo da água passar a ser sucecivanente maior, basta lembrar que o custo actual da água distribuida por particulares atinge um valor de 10(dez) vezes o custo da distribuição pela rede municipal. Frouxos argumentos, portanto.

Importante foi que, finalmente, o modelo de financiamento para as obras tenha sido aprovado com os votos a favor do PS e PSD apesar dos votos contra da CDU e BE. Agora devemos estar atentos não vá dar-se o caso, face ao actual descalabro financeiro e necessidades da CMF, que as verbas obtidas em nome destas obras sejam utilizadas em mais obras "de praia" ou " de lazer" ou "de embelezar" ou "de iluminar" ou "de futebolear" ou "de patrocinar" ou "de ilhar" ou "de ribeirinhar" ou..., ou de "fogo de vista eleitoral". A ver vamos.

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Saturday, September 26, 2009

UMA HISTÓRIA GORJONENSE VIII


"Trêz Quadras Dedicadas ao Crime dos Gorjões de Santa Bárbara de Nexe" relatam uma tragédia de amor e ciúmes acontecida por volta do início dos anos trinta do século passado. O Tio Cascalheira e a Sanita do José Reis, padeiro, hoje, ambos com oitenta e oito anos, lembram-se de ouvir falar deste caso tinham cerca de dez anos na altura, confirmam os nomes de família envolvidas e o local do crime, uma casa aqui no Alto, conhecida e ainda existente, em ruinas.

As quadras sugerem uma trilogia de actos trágicos sucessivos, encadeados numa situação de causa efeito, iniciados por um acto de loucura por ciúme incontrolável, depois determinados por justiça divina reclamada pela amiga Augusta, à maneira da tragédia grega como a Oresteia. Os próprios títulos das quadras, dedicados: 1.ª à desventurada, 2.ª à despedida d'uma amiga íntima, 3.ª à morte do assassino, ilustram claramente a ligação dos assuntos tratados em cada canto (cada quadra), em íntima e perfeita unidade com o tema geral: 0 crime dos Gorjões.

Quadra 1.ª: à desventurada.
Canta o carácter malvado que matou a esposa sem ter nenhumas razões e as consequentes imprecações e maldições que a amiga Augusta augura e atira ao assassino, fera desastrada.
José Barriga, vindo da Argentina enamorou-se de uma rapariga orfã de dezassete anos que vivia com uns tios e, foi um encanto de namorado. Também dela ninguém tinha que dizer e ele cumpriu todos os preceitos de pedido da mão da namorada aos tios e ao juiz, indicando ser educado acima do uso local e um homem de boas intenções. Mostrou ser um verdadeiro cavalheiro, dado que a tradição mais funda era o namorado roubar a moça de casa dela, "fugir" com ela, levá-la para casa dos pais, e viver "ajuntados ", isto é, juntos o resto da vida.
E o Barriga levou o seu jovem amor ao casamento. Mas o resto da vida deste casal apaixonado foi curta e trágica. Logo nesse dia lindo de virgindade vestida, depois do altar e da festa, o recém marido bateu-lhe sem ter dó nem arrependimento. De que novidade teve conhecimento o marido para entrar logo a bater na primeira noite? Emprenhou pelo ouvido com um veneno acerca do primo da noiva? Teria comprovado nessa noite, de facto, que era verdade o primo lhe ter roubado a primícia da esposa? O ciúme e a ideia de que os outros o viam com um par de chavelhos na testa era insuportável, enlouqueciam-no. Passados uns tempos dormia ao lado da jovem esposa com uma navalha de barbear debaixo do travesseiro. E um dia, incontroladamente tresloucado não suportando o peso na cabeça, usou a navalha como lanceta na graganta da jovem esposa.
A amiga Augusta, autora das quadras, indignada com tal martírio bárbaro, prega sentidas imprecações ao malvado Barriga e pede a Deus o amaldiçoe com o degredo em África ou na Penitenciária. E, desesperada pela trágica morta, pede vingança por justiça e deseja que tal patife seja queimado no meio de uma praça.

Quadra 2.ª: à despedida d'uma íntima amiga.
Canta os choros e lamentações da amiga íntima Augusta, perante o cadáver da jovem amiga tão estimada e tão bárbara e imerecidamente assassinada.
A Augusta, amiga íntima inconsolável, chora a perda trágica daquela que era para sí uma querida pomba mansa e a explendida flôr entre o coração de espinhos que a ninguém fazia mal. Lamenta não ter podido ajudar a amiga e evitado tal má-sorte, pois jamais pensou que o cão do Barriga fosse capaz de tal traição fatal sobre a sua inocente amiga. Lamenta que a amiga nunca tivesse descoberto à Tiazinha ou a ela própria, as maldades e maus tratos do traidor Barriga que andava com a lança para a degolar.
As lamentações sentidas da Augusta, como se estivera ainda á beira do cadáver que ela encontrara na cosinha e quiz abraçar, reforçam a súplica por justiça na praça pública ou no céu. Há um crime de sangue sobre a sua amiga íntima, feita mártir, que tem de ser expiado pelos homens ou por Deus.

Quadra 3.ª: à morte do assassino.
Canta a intervenção de Deus em socorro das súplicas de vingança e cumprimento das pragas aos milhares pedidas sem medo através de S. Pedro.
Antes que a justiça dos homens se pronunciasse e não fosse suficientemente justa, para o imperdoável crime de sangue, a mão de Deus antecipou-se para justiçar a mártir bondosa e inocente. Depois de quatro dias na prisão a pão e água, o desgraçado Barriga fez uma corda com as bondosas mantinhas da cama de prisão, enforcou-se e foi, com cara de réu, dar contas ao Senhor. Pelas maldades cometidas e consequentes pragas pedidas o Barriga, tirano malvado, expiará no inferno em contraste com a esposa que estará no ceu.
Ainda é revelado neste canto outro antecedente de malvadez praticado pelo Barriga que, certa vez, atirou a esposa para um silvado sem ela a ninguém dizer. É tanbém neste canto que é revelado o enigma que origina o dilema dos ciúmes enlouquecedores do Barriga, quando afirma: matás-te a tua infeliz sem o primo ser culpado.


Comentário
Diz a mitologia grega, que foi fonte das trilogias trágicas ainda hoje motivo de académicas discussões e interpretações de ordem literária e psicanalítica, que as feias e bárbaras Erínias ou Fúrias são primas de Afrodite: aquelas nasceram de salpicos de sangue, esta de salpico seminal, ambos salpicos procedentes de castrações masculinas.
Esta não é uma tragédia contada sob a elevada sabedoria e filosofia dos gregos para ensinar e educar o povo segundo os valores, ordem e justiça dos novos deuses do Olímpo. Ao contrário, esta tragédia dos Gorjões é, desde o título, tratada como um crime perante a justiça dos homens. E é contada de forma popular e por uma escrita e conceitos muito simples retirados da fala do dia a dia dum meio social rural ligado aos trabalhos da terra. Contudo não deixa de ter aspectos comuns: logo no facto de haver uma ligação entre amor-de-perdição e vingança-de-sangue, isto é entre Afrodite e Erínias; depois na justiça feita pelo julgamento do deuses. Na Oresteia de Esquilo, no dirimir entre os deuses é a nova justiça de Zeus imposta por Apolo que vence, Orestes é ilibado, e as Erínias vingadoras terríveis implacáveis, vencidas por argumentação e submetidas às novas leis, tornam-se Euménides, as benevolentes. No crime trágico dos Gorjões, a justiça e leis benevolentes escritas pela racionalidade dos humanos, é inviabilizada pela intervenção da mão de Deus que, solicitado a intervir, aplica com urgência implacável justiça divina.
E, repare-se que, na nossa tragédia dos Gorjões, Deus não intervém solicitado a escutar uma defesa ou acusação por interposta elevada filosofia retórica ou sofística, que o convence. Nada disso, como um Deus tão rural e cruel como o Barriga, ele acode solícito às pragas de vingança pedidas pela amiga Augusta que, subentende-se, falava também em nome do povo local. Neste crime-tragédia dos Gorjões, foi aplicada a justiça dos deuses primitivos proclamada pelo deus da guerra: Ares é imparcial, mata aqueles que mataram.

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Thursday, September 24, 2009

GOLPES TRÁGICOS

A dar fé nas sondagens de hoje já conhecidas, tudo faz crer que o "povão" não é ingénuo nem se deixa enganar. Por cá não se aprendeu nada com as últimas eleições em Espanha. Lá quizeram aproveitar-se do ataque terrorista que ensanguentou Espanha inteira e perderam na véspera as eleições dadas como ganhas até dias antes. Por cá ainda foram mais aprendizes e canhestros. Quizeram instalar uma linha de montagem, para fabricar balas de canhão, desde a primera peça: um tripé forte para a sustentabilidade e fabricado de fino material para a credibilidade da linha. Azar: os engenheiros, preocupados de mais com a finura e lisura dos materiais, calcularam mal a resistência ao torcimento (flambage) e a linha ruiu estrondosamente sobre os próprios engenhocas. Um está ferido de morte e os outros estão a espernear para sair da situação em que se encontram.

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Saturday, September 19, 2009

A PROPÓSITO DO TGV


1. A PONTE DO GUADIANA
A polémica actual sobre o tgv faz-me lembrar a história da acesa discussão, transfronteiriça e não muito antiga, entre os comerciantes locais acerca da ponte sobre o Rio Guadiana em Vila Real de Santo António.
Anunciavam, especialmente os logistas que faziam opinião junto da população, que a ponte nova era a morte da Vila. Quem, vindo de Espanha pela ponte, se deslocaria a VRSA uma vez que a ponte passava ao lado e longe do centro da Vila, repetiam aflitos, arrepiados, desorientados, quase enlouquecidos, os donos de "portas abertas" ao público, especialmente ao público espanhol que naquele tempo comprava às sacadas os atoalhados portugueses. Para aquela visão estática da vida em sociedade, ou incompreensão nula do futuro, ou olhar tradicionalista arcaico, à ponte fora e longe da Vila preferiam manter os barcos "ferry". Nem sequer viam o estrangulamento de passageiros que os barcos representavam com filas e esperas desesperantes e desanimadoras capazes de fazer desistir um santo.

Que aconteceu? Após a ponte feita e respectivos acessos o número de espanhóis na Vila cresceu de forma exponencial. Os comercientes passaram a dizer: nunca pensei tal coisa, nunca me passou pela cabeça este resultado, afinal os espanhóis, agora, são muito mais e a todo o tempo e até à noite. Antes era só nas horas de barco e estes não chegavam para todas as pessoas que queriam vir cá.
Pois é, é preciso um mínimo de saber ver para além do umbigo para entender uma sociedade dinâmica, num tempo a evoluir para o futuro e não para o passado


2. A FROTA DE TAVIRA
Ainda a propósito do tgv, que a candidata MFL quer parar por considerar que tal obra é apenas do interesse dos espanhóis, será que, hoje, também pararia o vai-vem a Ayamonte, da frota camarária de Tavira para abastecer-se de combustível em nome de uma poupança mais que duvidosa? Macário Correia decidiu tal manobra em nome do interesse camarário mas, à luz do conceito MFL, estaria a servir interesses espanhóis.
Também milhares de portugueses lá iam abastecer o carro assim como fazer compras de muitas mercearias mais baratas, em nome do interesse próprio e em desfavor dos comercientes portugueses. Até já havia quem, no tempo do barato, fosse lá comprar casa para viver e trabalhásse cá.
Nestes casos, como tantos outros iguais noutras fronteiras, a ordem seria para parar? Ou acabava de vez com o interesse espanhol, encerrando as fronteiras pura e simplesmente? Ou, chateados acabariam os espanhóis a fechar fronteiras e deixarem-nos a falar sozinhos?


3. A LINHA DE METRO PARA A EXPO'98
O opinador-mor nacional, mas tão invidente do futuro como qualquer mortal, tal como os comeciantes de VRSA, o inteligente e sábio VPValente, escreveu que a linha do Metro para a Expo'98 era um absurdo e um deitar dinheiro à rua. Dizia o adivinho que no dia seguinte ao fecho da Expo não havia ninguém para andar naquela linha: os prejuizos seriam tais que melhor seria fechá-la e tamponá-la.
Que aconteceu? Acabou a Expo e a linha não só se manteve como cresceu mais que as outras. Hoje é das mais rentáveis face ao crescimento comercial e habitacional daquela zona. Tal como os comerciantes de VRSA, o gigante pensador-mor, mas invidente como qualquer mortal, só pensava no passado: não admira, é historiador.

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Thursday, September 17, 2009

RESCALDO DA ÉPOCA DE FOGOS

A MÃO INVISÍVEL DOS PIRÓMANOS
Uns garotos atearam um fogo em Loures de elevadas proporções e prejuizos, por um método aprendido através de consulta via "má escola" da Internet. Pensa-se que os miúdos usaram o "Magalhães" para obter o pirómano conhecimento.
Pacheco Pereira, António Barreto, Francisco José Viegas, Vasco Graça Moura e mais alguns ilustres velhos pensadores anti-modernices, suspeitam haver no caso a mão do PM Sócrates. Pensam que, finalmente, descobriram o criminoso e o verdadeiro móbil da distribuição de computadores "Magalhães" pelas escolas do ensino básico.

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Wednesday, September 16, 2009

MARAFAÇÕES LXXV


TRADUÇÃO PACHECAL
Face às irreflectidas e irresponsáveis investidas contra os espanhóis, por total falta de pensamento estratégico estruturado e mesmo de não ter uma ideia mínima para Portugal, e nem senso comum político ou nem mesmo ideia e respeito para consigo própria, dado que foi interveniente pessoal na assinatura dos acordos e depois foi funcionária de uma " grande empresa" espanhola (então, não se lembrou de ir apoiar trabalhando com seu elevado saber para as pequenas e médias empresas), depois de ser ministra das finanças, vimos a "pachecal" figura encarregue, mais uma vez, de fazer a interpretação da linguagem manueleira. E, como qualquer linguagem vulgar de non sense pode facilmente dar-se a interpretação que se desejar, o pachecal tradutor, faz a sua conveniente tradução invertendo o sentido do descalabro mental da Senhora. Numa penada, a frase entre outras, proferidas veementemente e de má catadura pela senhora, de que o "TGV apenas serve os interesses dos espanhóis", é metamorfoseada numa suspeita sobre se o governo defende os interesses portugueses face aos espanhóis. E mais grave ainda, seguindo o mesmo raciocínio, lança a suspeita se os interesses portugueses têm ou teriam sido bem defendidos na UE por este governo. Trafulhice maior era impossível.

Um pouco de racionalidade basta para ver que se uma ligação serve os interesses espanhóis, quatro ligações servem muito mais os interesses espanhóis. E aqui não pode funcionar o argumento de mudança de circunstâncias: com mais endividamento ou não, se agora há apenas interesses há cinco anos eram igualmente apenas interesses e, certamente, com mais linhas de ligação mais interesses em jogo haveria.

Esta pachecal personagem já metia medo desde a sua era m-l, num dos grupos mais obreiristas, mais básicos e lúmpen da altura, depois no soez ataque no Parlamento a António Campos por causa das "vacas loucas" que ele não queria que fosse denunciado (morreu recentemente o último contagiado com a doença das "vacas loucas": qual o grau de resposabilidade nesta morte tem o ministro encobridor Arlindo Cunha e o seu defensor pacheco?), depois na sua cruzada contra os media e a informação livre que continua, de olhos e esgares exorbitados, contra a mais pequena notícia publicada de que o governo existe, e agora como ininterrupo lançador de suspeitas próprias e espalhador de suspeitas alheias, sobre as quais depois formaliza acusações, sobre as quais depois pede explicações, pede esclarecimentos, pede desmentidos. Uma verdadeira técnica inquisitorial ou pidesca.
Se já metia medo pelo passado, presentemente é horrívelmente assustador pensar que tal pessoa pode ocupar um lugar de relevo na condução da política de Portugal.

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Sunday, September 13, 2009

UMA HISTÓRIA GORJONENSE VII

FACETA DE POETA
O Adelino Bexiga, tal como o seu irmão, inspirado poeta popular de quadras impressas em folhetos de feira, também transportava em sí uma visão poética de ser e estar muito própria, que lhe marcou vincadamente o rumo e modo de vida.

Era eu garoto, trabalhava ele na oficina de sapateiro de Mestre José Condinho, aqui no Alto. Tinha, desde pequeno, andado a aprender o ofício com o Mestre Zé Sapateiro, da Charneca, contudo nunca aprendera bem a arte de bem bater a sola, enfiar a sevela, enformar um sapato domingueiro: quando muito era capaz de meter umas "tombas" numas botas grossas. E por isso nunca passou de uma "sapateira", como lhe chamava o povo referindo-se à pouca qualidade do produto saído de suas mãos. Também diziam dele que era um "bate sola", exactamente por não fazer trabalho fino mas, tão somente, fazer os trabalhos que não implicavam mão de artista: a arte do acabamento, do toque artístico final, era para Mestre. A sua inquieração mental pendia mais para ser como o irmão mais velho: trabalhar o mínimo para poetar o máximo. À sua maneira.

Ser sapateiro era o pretexto para vagabundear a sua imaginação por outras bandas, outras necessidades, outras ousadias mais astutas, outro modo de vida paralelo, clandestino e tão íntimo como o poema antes do papel. Meteu-se a fazer a sua própria casa, tirada do sonho e desenhada de sua pura imaginação e feita, única e exclusivamente, pela vontade e força dos seus braços. Sapateirava na oficina do Mestre mas, a maior parte do tempo vivia erigindo o sonho feito de pedras não trabalhadas e mal sobrepostas, quase atiradas umas para cima das outras, como se estivera a fazer cavernas com "maroiços", mantidas de pé por um caldo ralo de argamassa de cal e areia.

A figura pequena e franzina do Adelino ia desfazendo-se, menos pela leveza de sapateirar e mais com tanto carregar pedras para alevantar os maroiços que formavam as três divisões do seu palácio. Ele fazia de carregador de pedras, servente e pedreiro, além de ser o arquitecto e engenheiro e tudo o mais que fosse necessário para ver crescer o seu palácio de grossos valados. Contudo o seu entusiasmo e vontade imparável começou a ser insuficiente para prosseguir o sonho ao ritmo desejado. Apesar de tudo ser fruto do seu esforço, a miséria da jorna de sapateiro, não lhe consentia acabar a sua obra de arte em pedra à balda. Fôra preciso gastar poupanças na cal e areia e agora era preciso dinheiro para as portas, ladrilhos de barro e sobretudo ferro e cimento para a placa de cobertura. Deu largas à imaginação, sob a forte pressão da necessidade, para que esta lhe arranjasse uma solução que o ajudasse vir a ser dono da sua própria casa-abrigo.

Num analfabeto, nem mesmo uma imaginação poética, sob a pata da ordem e poder indiscutíveis, organizados com base na imposição de vidas miseráveis como era a sua, seria capaz de fugir à conclusão da impossíbilidade de, por via normal da venda de sua força de trabalho, poder ver o seu sonho concretizar-se. Ou emigrava, como a maior parte do povo estava fazendo, ou jogava mão de formas de poética subversiva da ordem estabelecida. Não tinha familiares lá fora, para emigrar tinha de ser a salto, por um lado, por outro a sua figura pequena e franzina não lhe ajudaria a arranjar trabalho de emigrante clandestino: duro, sujo, de criado às ordens e mal pago. Nem podia imaginar quando poderia retomar a construção do seu palácio tão desejado e deixado ao abandono. Naquele pedaço de terra, adquirido à custa de miséria e força de sonho, onde já plantara árvores que ele regava as raizes e cresciam viçosas, não podia deixar secar a mais querida planta entre todas.

E assim foi, e se ficava era para continuar a construção e acabar a obra-prima arquitectada de sua imaginação. Não tinha meios nem pé-de-meia para continuar mas, pelos caminhos e veredas que pisava até à oficina do Mestre Condinho no Alto, ele bem via as imponentes alfarrobeiras de abas até ao chão carregadas de fruto valioso. E via ainda de olhos mais acesos, as airosas e doces amendoeiras de ramos pendentes ao peso de cachos de amêndoas ainda mais valiosas. E ainda via também as redondas e ramudas figueiras tocando o chão, ao nascer do sol, iluminando nos gomos, abundantes e brilhantes figos maduros "arreguados" pela brandura da noite.

Para poupar já deixara de comprar comida além do pão: durante o dia comia figos e outros frutos que apanhava nas terras e nos quintais, muitas vezes também alfarrobas secas, à noite comia os mesmos frutos, que levava para casa, e eram o conduto do pão. Não comprava roupa nova nem sabão, não se lavava e andrajou-se, contudo o sonho de sua vida começava a cumprir-se. Arrancou a pedra, britou a pedra, comprou o ferro e cimento, armou a cofragem com troncos e tábuas de caixotes, fez a massa, fez a escada de paus, acarretou a massa a baldes e uma placa grossa às ondas alterosas fez-se cobertura de palácio de pedra amaroiçado. Jamais alguma casa vista até então fôra integrada tão completamente na Natureza. E tornou-se paisagem virgem, quando passados anos, a terra acumulada sobre a placa, foi fecundada por sementes de ervas altas e arbustos rasteiros, deixando perceber como única existência ali, de valados e plantas como em qualquer terra do barrocal: a casa perfeita para amante ecológico e defensor do ambiente.

O Adelino, agora no seu exíguo palácio de pedra cavernoso, continuou a desleixar-se mantendo o seu aspecto de poético andarilho sujo e trapilha. Deixou a oficina de sapateiro, não trabalhava, alimentava-se dos mesmos frutos apanhados aqui e além, mas nem por isso deixava de dar sinais de algum desafogo quando era desafiado sobre a miséria do seu modo de vida. A sua forretice era extrema e inimaginável, contudo, não trabalhando, nunca daria mais que para um pé-de-meia escondido no maroiçal palácio e nunca para pôr no banco como começava a ouvir-se dizer.

Entretando, com o diz diz sobre poupanças do Adelino, também soavam todos os anos, pela altura da apanha dos frutos secos, as queixas dos donos das terras próximas e afastadas de sua nova morada. Em ano de fartura de frutos secos, as alfarrobeiras e amendoeiras inicialmente carregadas verdes, na altura do fruto seco, de repente surgiam descarregadas da sua carga inicial como se foram fortemente abanadas nos ramos mais baixos e apanhados os frutos caídos. O falatório do lugar, para classificar uma atitude revestida de alguma astúcia poética desde o "Hino a Hermeias" atribuido a Homero, usava uma alegoria também poética e que ouvi ao Leonardo dizer várias vezes, e que era: - para alguns o Sol nasce à meia noite -. Referia-se o povo àqueles que pela calada da noite e ao luar da madrugada iam roubar frutos secos às árvores espalhadas e escondidas pelos barrancos.

Face às queixas dos donos das terras, os "guardadores de terras" Raposeiras e Modesto, contratados nesse ano para manterem inviolável a propriedade alheia, uma noite montaram uma "espreita" ao Adelino e apanharam-no com a mão na saca. Ou melhor, nas sacas visto que levava consigo algumas, enchi-as e ia escondê-las nas moitas do mato para noutro dia, com calma e à melhor hora, descontraidamente, ir recolhê-las. Estes guardadores sazonais usavam um alto, flexível e nodoso varapau de marmeleiro, uma espécie de símbolo de poder e de respeito de que eram investidos pelos proprietários locais. Com esses varapaus, malharam o corpo do pobre do Adelino de nódoas roxas que o deixaram inválido para mais noitadas ao luar nesse ano.

Passou a ter mais cuidado o Adelino, contudo não deixou a sua arte poética, executada ao Sol da meia noite, nem tampouco a inspiração lhe faltou. Foi obrigado a percorrer caminhos mais longos e lugares mais afastados onde não havia guardadores ou não era conhecido nem suspeito: passou a ser mais custoso poetar à sua maneira. Passados anos, mais velho e cansado, já lhe custava ir poetar para muito longe e carregar com os pesados poemas até casa. A um poeta de raiz a imaginação fervilha de invencionismo e até uma imprevista cagadela de pássaro, pode ser motivo de uma invenção maior que o roubo das vacas do deus Hermeias ao deus Apolo. Um dia quando ia com a cantara de água ao poço, afastado de seu palácio paisajístico cerca de mil metros, um pardal cagou de cima de uma amendoeira carregada de fruto e enfiou a cagadela pelos buracos do velhinho e roto chapeu às três pancadas, desfazendo-se na cabeça. Irritado pelo abuso, num golpe rápido, pôs a cantara no chão e atirou uma pedrada ao pardal. Resultado: cairam várias amêndoas e uma delas, enfiou pela boca da cantara de água. Aí, o Adelino olhou, olhou, e... pensou: eureka.

Desde então, o povo começou a ver o Adelino num vai e vem no caminho do poço carregando a sua cantara de água. Tanto que desconfiou da azáfama, e tanto mais que o Adelino continuava a andar sujo, nem ele se lavava nem a roupa andava limpa. Então para que acarretava tanta água pensava o povo, torcendo o nariz. Num ano bom de frutos secos, os guardadores contratados, o Modesto e João Coxo, avisados da desconfiança do povo e provas de rastos e restos no caminho do poço e imediações, montaram uma nova "espreita" e descobriram o truque de astúcia usado. No outro dia vinha o Adelino do poço, saltaram-lhe ao caminho e pediram-lhe uma sede de água. Esquivou-se, disse que fossem a casa dele que tinha lá água, um púcaro e um coxarro para beberem à vontade. - Não, disseram os guardadores, temos sede e podemos beber pela cantara levando-a ao alto e deixando cair a água pela goela abaixo sem tocar a boca da cantara, vamos a isso -. Face à recusa insistente do Adelino, os guardadores trocaram um olhar de acordo e zás: levantaram os bordões de marmeleiro e rebentaram em cacos a cantara de água. E qual milagre das rosas, ali houve milagre de água feita amêndoas. Outra vez o pobre desgraçado ficou pintado de nódoas roxas e negras.

O irmão poeta continuava a fazer poesia popular com êxito, sob a forma de "quadrismos" como lhes chamava, e o Adelino continuou igualmente com a sua veia poética virada para imaginativas maneiras de ganhar o pão por via de astuciosos artifícios e representações. E também com êxito e proveito, pois agora, muitas vezes fazia de banqueiro ao irmão poeta sem cheta. O poeta poeta gastava tudo na bebida como estímulo à inspiração, o faceta de poeta não bebia, não comia, não se lavava nem se vestia a não ser de trapos. Explorando o seu estatuto de magricela roto e sujo, resolveu meter-se a andarilho andrajoso a pedir esmola de porta em porta e ruas de Olhão. Comprou um "ferrolho" de bicicleta para ir à sua nova vida de "ganha pão". Dizem que, paralelamente, à sua actividade de mendigo profissional, nunca deixou de acumular com regulares saltadas nocturnas ao fruto seco na terra alheia.

Era miserável mas assumida a sua vida, gostava de viver à base de fazer de parvo para enganar os espertos, de fazer de pedinte e ter mais que quem lhe dava esmola, de protagonizar o papel de zé-ninguém quando se sentia mais gente que muitos. A sua realidade estava em uníssono com a sua humanidade: fôra sempre ele próprio e o que desejou ser em cada momento sempre, intimamente feliz num ambiente de natureza e liberdade.

Um dia, numa rua de Olhão, um camião que fazia marcha atrás estava ameaçando o seu "ferrolho" que deixara ali estacionado. Aflito, correu para salvar a esquálida bicicleta e foi ele que ficou sob o rodado do pesado monstro. No palco da comédia da sua vida real, o seu papel de representar sempre escondido atrás de máscaras diversas, merecia um final trágico e conseguiu-o. O irmão, poeta quadrista, também já fôra atropelado e esvaíra-se em sangue na valeta. O humano é feito de carne e alma, e estes são os autores e os actores intérpetres da comédia e tragédia da vida corrente. Na vida destinada aos poetas, a tragédia é privilegiada.
Deixou no banco mais de vinte mil contos. Transpôs a morte, dando continuidade à comédia da sua vida real, transladando as suas máscaras para os familiares na disputa pela partilha desta herança. O Adelino viveu uma comédia feliz e na hora da morte ainda contribuiu com uma ajuda para a comédia da vida real dos vivos.


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Tuesday, September 08, 2009

FALHA DE PEREIRA


OU PEQUENA VINGANÇA
O pensador sofista da marmeleira, JPPereira, deixou a chefe MFL ir à Madeira sem previamente a industriar e redigir o "manual de sofística" para a boa fala e discurso político durante a estadia em campanha na Madeira. E foi a contínua asneirada que se viu e ouviu.

Resta, contudo, saber se JPP, à anos a fio insultado por AJJ, valha-lhe ao menos isso em seu benefício, não deixou a chefe MFL em roda livre de propósito, como uma vingançazinha pessoal pela vassalagem que a chefe se dispunha a prestar ao soba da Madeira sem atender à sua douta opinião. Ao mesmo tempo mostrava à chefe que sem o estribo do seu inspirador pensamento pachequista e do seu arguto "olho político", a chefe só se enterra, pouco vale e não vai longe.

A volta de Pacheco à política dura, depois de tantos anos a pensar, escrever, adquirir, dominar e manobrar um conhecimento total sobre a arte da manha política mais sofisticada, certamente não será apenas para servir de batelão carregando e a fazer transbordo de ideias para um barco roto. Por ali, há certamente, ambição maior. PRangel que se cuide.

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Saturday, September 05, 2009

NEXENSES VI


NOVA ESTRADA
Fala-se que a Estrada Municipal 520 vai entrar em obras até à Falfosa como o Apolinário informara, há um ano, aquando da reunião camarária aberta, realizada em Santa Bárbara de Nexe.
A 520 vai à mão do empreiteiro de estradas submeter-se a cirurgia plástica, pôr-se lisa, larga, vistosa, gostosa de rolar-se por cima dela, para ir até ao Parque da Cidade. Por isso já deixou de falar-se oficialmente, e vai deixar de chamar-se e dizer-se, "Estrada de Santa Bárbara", mas tão sómente passará a ser designada por "Estrada do Parque". Apenas ao troço estreito, enrugado, esburacado e leito de enxurrada quando chove, que entroncará na nova estrada do Parque, chamar-se-á "Estrada de Santa Bárbara".
Mais um sintoma de identidade nexense em fase decrescente.



TRÂNSITO NA ALDEIA

A mudança de trânsito na nossa Aldeia acarretou um novo prejuizo para o povo dos Gorjões. Se já estávamos a 4 quilómetros da Aldeia sede da Freguesia, agora passámos a estar a 6 quilómetros 6. Se já estávamos próximos de estar mais próximo de Loulé, agora tiraram-se todas as dúvidas. E sempre por estrada de bom piso, pode-se ir às compras, ao café ou apanhar a A22, via Loulé.
Não sei se era essa a melhor solução para resolver o problema do trânsito no interior da Aldeia: não estudei nem pensei no assunto tecnicamente, isso compete aos técnicos tendo em atenção a geografia e as pessoas dos sítios da Freguesia. Apenas constato o facto de que os gorjonenses ficaram prejudicados: mais um novo prejuizo a juntar à sua má situação de já viverem em regime de dura periferidade e mal servidos de acessos e serviços básicos.
Mais um sintoma de identidade gorjonense em fase descrescente. Contudo, sobreviveremos.

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Thursday, September 03, 2009

VARIAÇÕES SOBRE A VERDADE


À MODA DE MFL(TOQUE DE MIDAS)

Até há um mês das eleições sobre as grandes obras a verdade consistia, no início em:


RASGAR......, APAGAR......, RISCAR......,

A um mês das eleições é:

PARAR......, SUSPENDER......, REPENSAR......,

Em cima das eleições será:

REANALIZAR......, AVANÇAR SE......, TALVEZ......, NÃO DIGO QUE NÃO SE FAÇAM......,

Depois das eleições vai ser:

REVI......, REVISTO......, PRONTO......, BOM......, APROVADO......, AVANÇAR......, AVANÇAR......, ACELERAR......, ACELERAR......, SEGUE, SEGUE......, E......,

VIVA A NOSSA VERDADE.

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