quinta-feira, maio 23, 2013

INDIVÍDUO, SOCIEDADE, LIBERDADE


Todas as utopias são na sua grande parte de fundamentação, de forma e substancia, generalistas. São estruturadas, defendidas e pragmatizadas sempre segundo a prática geral de amar todos por igual na sociedade perfeita em abstrato mas duvidar ou detestar cada um em particular na sua vizinhança de relações pessoais. No fundo têm um fundamento prático na filosofia que Pacheco chamou a lei do filho da puta: amar todos em geral e odiar cada um em particular.
À minha volta vejo isso correntemente na vida prática diária de personalidades conhecidas. São acérrimas defensoras e lutam partidariamente pelo máximo de igualdade entre os humanos em sociedade contudo, são imcapazes de praticar, promover e conseguir um mínimo de fraternidade mesmo dentro de portas.
Uns não conseguem evitar que os próprios filhos se desentendam por pequenos interesses e motivos fúteis. Outros, mal contratam trabalhadores para fazer trabalhos em suas casas entram em litígios ferozes às vezes apenas por opinião diferente sobre a execução do trabalho, ou muito pior porque o trabalhador exige os seus direitos. Outros ainda praticam um individualismo insubmisso mas dizem estar dispostos à servidão em nome da igualdade social, esquecendo que o adversário de uma verdadeira liberdade é um desejo excessivo de segurança. Outros muitos, porque as suas faculdades são menores, refugiam-se na igualdade que lhes dá lucros individuais pois aí serão iguais aos melhores.
Também há os casos de ingenuidade, talvez a maioria, que por prática de costumes de honestidade e valores morais, defendem a bondade e retidão e tomam-na como sinónimo de igualdade, contudo são avarentos na defesa dos interesses próprios. Lembro-me sempre do meu sogro, que não colhia um figo, uma amêndoa, uma alfarroba nem uma azeitona, contar que no tempo da guerra 1939-45 e do miserável "racionamento", ir pedir a um agricultor vizinho tido por igualitarista que lhe vendesse um litro de azeite e este lhe pedir um preço muito superior ao valor do mercado "racionado". Dizia o meu sogro que ficara vacinado para a vida contra palavras a favor de actos.
O problema insolúvel, para além das desiguais faculdades intelectuais de cada ser, está que cada pessoa relaciona-se com outras de modo pessoal e individual através das suas genéticas qualidades de inteligencia, caracter e personalidade únicas e não de grupo para grupo, conjunto para conjunto, ou sociedade para sociedade dado que estes não possuem personalidade, qualidade ou caracter único ou unificado. Quando o grupo, conjunto ou sociedade dialoga com parceiro igual fá-lo através de indivíduos pessoas representantes e são as "impressões digitais" dessas pessoas que fazem a marca das "impressões digitais" deixadas em cada interlocutor.
Desde Heraclito que se sabe que as diferenças e a lei dos contrários (Marx chamou-lhe a luta de classes) provocam o conflito e este é o motor da civilização. Também desde Protágoras ficámos a saber que é o homem indivíduo que é a medida de todas as coisas e não a sociedade humana.
Esta, a sociedade humana, é que deve ser a decidida pelos homens individualmente livres e permanentemente medida e avaliada por eles para evitar ou corrigir caminhos errados. 
A humanidade foi um ganho civilizacional e a sociedade será tanto mais humana quanto mais o homem indivíduo for livre e próspero para se organizar em estádios de sociedade cada vez mais elevados de bem-estar.   

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segunda-feira, abril 25, 2011

25 D' ABRIL SEMPRE, DITADURA NUNCA.


Faz hoje apenas trinta e sete anos o 25d'ABIL e já todo mundo fala dum dia velho e senil contra o "dia inicial e limpo" inaugural.
Um povo submesrso na escuridão política sob total falta de liberdade para pensar e discutir livremente e ganhar hábitos de cidadão político com o mínimo de entendimento histórico do que vale a política e do que ela pode fazer pelo bem dos portugueses, tomaram a queda da ditadura como se, bastasse isso, para dar como adquirido o progresso e bem estar sem interrupções.
Já fôra bem patente, nas crises anteriores, que o bem que possuimos só está adquirido quando é nosso, isento de penhora e isento de acidentes de futuro. O uso e abuso de bens hipotecados é próprio da sociedade de "instrumentos" e não de "fundamentos", da sociedade de "exibicionistas" e não de "economicistas", da sociedade de "prevaricadores" e não de "prevenidos".
Deslumbrados pelo fascínio do facilitismo vivido até há pouco, fomos todos apanhados pela abrupta falência da abundância fictícia e caímos em desânimo. E como, quando se cai em desgraça esta arrasta males em corrente caudalosa, sem compreender o castigo de nossas culpas, atiramo-nos sobre os políticos que estão à mão para os acusar de todos os nossos males e os do mundo.
É assim que, derorientado, o povo do dia a dia na rua, já pede outro "25d'abril", sem perceber que se a democracia não é capaz de solução dos problemas, qualquer alteração à força do regime democrático, só dará lugar a soluções drásticas e violentas por via ditaturial. Ou seja, aplicando sobre o Estado democrático de direiros e garantias dos cidadãos, uma pinochada repleta de barbaridades, uma pinochada que mata supostos males matando pessoas.
O 25d'Abril mostra que somos capazes do extraordinário e o estado actual mostra outro aspecto de nossa extrema capacidade. Se somos capazes de praticar o extraordinário quando é preciso, que sejamos capazes de nova opção extraordinária para voltar à normalidade corrente.

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sexta-feira, dezembro 03, 2010

INDIVIDUALIDADE, SOCIEDADE, LIBERDADE


Lê-se nos jornais que:

Havana autorizou a abertura de pequenos negócios em 178 tipos de actividades, incluindo profissões como mecânico, jardineiro, encadernador, vendedor de frutas e legumes, relojoeiro, palhaço e contabilista. Estas medidas visam aligeirar o efeito do desaparecimento de 500 mil postos de trabalho na função pública, uma de várias medidas de austeridade aprovadas no Congresso do Partido Comunista, em Abril.»
Há tempos tinham falado, os jornais, da privatização dos barbeiros e quiosques de gelados e que também o governo de Havana havia mandado criar juntas de bois dada a falta de dinheiro para comprar tratores.

Também nos jornais se tinha lido há dias que Fidel Castro aprovava, sem dúvidas, as medidas do irmão acerca destas pequenas privatizações face ao descalabro e miséria da economia cubana, e desabafara desiludido, mais ou menos o seguinte(cito de memória): nós pensávamos que sabíamos o que era o socialismo e quais as medidas certas (científicas?) para implantá-lo facilmente numa sociedade capitalista.

Por cá, elites livrescas de fino recorte existêncial burguês, que acerca do socialismo não evoluiram uma palha para lá da cartilha proféctica vulgarizada de Marx, da pretenciosa sociologia científica de Engels e da teoria anti-democrática da tomada do Estado de Lenin, fazendo-se passar por proletários através do discurso crítico sob a visão moral marxista, sempre de grande efeito fácil atractivo, quando sobre as contradições da acção política do dia a dia que, obrigatória e inescapavelmente, se tem de mover e sobreviver no interior do imbrincado novelo de relações de força e interesses internos e externos e que são a pedra de toque do regime democrático, arregimentam tais elites, massas de trabalhadores de colarinho branco nas quais vêem, tomam e tentam organizar como se fôra a nova classe de proletários ao serviço da elite, vanguarda, guia e educadora da classe, para a tomada revolucionária do poder.

Foi o "socialismo real" da URSS que em 1989 caiu de podre simbolizado pelo derrube do muro de Berlim, foi o "maoismo" socialismo real ultra-radical que virou paulatinamente no capitalismo mais desumano do planeta(semelhante ao mesmo que Marx tinha contemplado em Inglaterra na primeira industrialização) e lhe dera inspiração para a formulação crítica da história económica e o seu sistema sócio-ideológico, foi a experiência de Pol Pot, um verdadeiro holocausto em sacrifício de mais uma ideia científica cobaia para instalar o verdadeiro "socialismo real", é na Coreia do Norte que está instalada outra aberrante forma de "socialismo real" onde um regime ultra-despótico mantem um exército mostruoso que consome tudo e é usado ao limite do confronto nuclear como forma de mendigar esmola junto dos países ricos, enquanto o resto da população morre à fome ou vive para sobreviver como num goulag, e é agora o modelo existente de "socialismo real" cubano que a própria nomenclatura, ao mais alto nível, começa a dizer ao mundo que falhou, contrariando a tese propalada de que era tudo culpa do embargo norte americano.

Apesar das evidências históricas de maus resultados e sofrimentos infligidos às massas de população desses países que experimentaram o "socialismo real", por cá não desarmam as tais elites que prometem remédio para todos os males sociais, precisamente, pela aplicação de receitas à base de doses, mais ou menos maçiças, de "socialismo real".
Servindo-se fraudulentamente da atracção e fascínio que a moral igualitarista suscita sobre as camadas mais atrazadas das populações, usam e abusam da oferta, já para amanhã, dessa utopia igualitária para esconderem que o percurso para tal desígnio vai directo ao igulitarismo na servidão.

O "socialismo real" ao coartar os homens de elememtares liberdades individuais castra-os da livre iniciativa individual e do racional conflito de ideias entre sí, chama humana que ilumina e donde brota a capacidade criativa dos homens. A falta de liberdade é o caminho em linha reta para a amputação de uma essencial condição humana: a idividualidade.
Sim, porque o homem livre contém inerentemente duas essencialidades que interagem dialécticamente: a interior ou componente individual e a exterior ou componente social. Se uma delas é aniquilada o homem fica refém da outra: amputado da sua individualidade fica servo do exterior social e vice-versa.

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