terça-feira, junho 08, 2010

OS BRILHARETES DE SODERLING


Sentir-se obrigado é sempre um entrave à criação e expressão da liberdade interior de um indivíduo. Sentir o peso da responsabilidade de uma obrigação intimida a pessoa e condiciona o pensamento inibindo o indivíduo de atingir plena e totalmente as suas capacidades para fazer o melhor que é capaz.
O caso de Soderling no ténis é um caso típico. Em 2009, logo no início do torneio de Roland Garos, sem nada a perder e liberto da obrigação de ganhar foi capaz de bater Nadal. Depois na final, sentindo-se obrigado a justificar a importante victória recente sobre Nadal, frente a Federer, foi apenas uma sombra de sí mesmo como jogador. Agora em 2010, no mesmo torneio de Roland Garos, repetiu-se precisamente a mesma situação: apenas com inversão dos adversários.
O mesmo podemos dizer de Nadal e Federer: a responsabilidade de ganhar é ainda maior dada a enorme carga de obrigação que recai sobre eles. Contudo, enquanto estes dada as superiores capacidades de jogadores conseguem victórias e com elas superar a carga inibidora da obrigação, Soderling ainda não tem esse estatuto de ganhador nato pelo que vai fazendo brilharetes quando é um jogador livre de forças de obrigação.

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segunda-feira, maio 17, 2010

TÉNIS ASSIM, SIM

ARAVANE RESAI
De repente e por acaso dei-me a ver a, para mim desconhecida, tenista Rezai a jogar e não mais larguei o televisor. Aquele é o ténis que eu sempre desejei ver jogar um dia: ganhar ao adversário vergando-o e não esperar que o adversário perca por erros. Considero que Federer joga um ténis quase perfeito de técnica, presisão e varidade dos golpes e também ataca muito os adversários, contudo tem também longos períodos de apatia e vai-se abaixo quando o opositor persiste e consegue ser eficaz. No recente jogo perdido no Jamor nem conta: foi apenas interesse pelo treino e total desinteresse pelo jogo e victória.
Rezai ataca todas as bolas até obrigar o adversário a ser batido ou a falhar a resposta. E é continuamente assim que joga sem períodos de descanso e espera pelo erro do adversário: um jogo totalmente ao ataque até á impotência do adversário, à rendição face ao ataque sistematico sem tréguas. Claro que acaba, por sobre-esforço, por ter lapsos de tempo que falha mais e faz o adversário respirar e equilibrar o jogo, contudo mesmo assim não deixa de continuar a fazer o seu jogo de imposição pela rapidez, força e colocação da pancada.
O jogo de Rezai é o contrário do jogo dos "experientes" ou dos "velhos" que jogam sempre mais sobre a hipótese de uma resposta certinha até à falha do adversário por desespero: aquilo a que nos jogo dos "velhos" se chama jogo manhoso sempre defensivo, no mínimo esforço, salpicado de bolas-colocadas-estudadas quando o adversário está "enfastiado" de troca de bolas.
O meu gosto pelos jogos, sejam quais forem, foi sempre de simpatizar com o jogo pelo jogo, o gozo do jogo, o jogar para bater o opositor pela superioridade do jogo e não baseado em jogo calculista defensivo à espreita do erro do adversário. Rezai é o exemplo daquilo que eu penso sobre o jogo, neste caso o jogo de ténis.

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quinta-feira, janeiro 21, 2010

TÉNIS TÉCNICO À MODA DE LILI CANEÇAS

No Open da Austrália o grande técnico professor do ténis português Bernardo Mota acaba de deixar aos amantes da modalidade o seguinte pausado grande pensamento:

"O serviço é uma pancada muito importante, (pausa) porque permite ganhar muitos pontos, (pausa) mas permite também perder outros tantos ".

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sábado, dezembro 12, 2009

OS JOGADORES


DE BATE BOLAS

É verdade, às segunda e quintas tenho um de bate bolas, ou um debate com bola. Ou seja, com uma bola só a gente de bate bolas para cá e lá da rede. Somos dois, cada um de cada lado da rede de bate bolas na mão. Mas, e como é um jogo afanosamente mexido e disputado entre dois adversários com mais tempo em cima que jogo, já mais cobertos e pesados de tempo que de ciência e técnica, acontece terminar sem drama depois de passar por algum estilo de comédia burlesca.
Começa em jogo bate-bolas com boa leitura e bom estilo, intermeza em réplicas de irritações bate-bocas-desabafos por falhanços infantis imperdoáveis, inclui discussões de contagem por despiste de memória, inclui discussões de bate-fora bate-dentro por visão distorcida, e tem epílogo de boa disposição e bem-estar com saída por cima de qualquer casmurrice marreta. Isto é, com o sábio reconhecimento de que o outro parceiro, a pessoa amiga, a amizade, vale bem mais que quaisquer peripécias circunstânciais.

Porque cada um explana o jogo sob argumentos tácticos opostos e cada um tem resistências diferentes nos mui usados e gastos bofes, o jogo toma ar de peça em palco. Um, com bofes de liga fraca, quer ganhar o ponto à força atacando tudo desvairadamente, o outro, com bofes de liga forte, não quer falhar e perder de modo nenhum e devolve tudo atlética e certeiramente. De modo que, de início as trocas de bolas são a perder de conta, e em três tempos o forcejante está com os bofes de fora enquanto o outro continua fresco, impávido, metódica e disciplinadamente na sua táctica de desgaste aproveitando o mínimo erro sem falhar. E os falhanços passam a ser mato na medida do esforço dispendido, para quem faltam bofes face ao adversário que ainda por cima é também forte na rede. Em resumo, o adversário que já é, de longe mais forte de pernas, bofes e jogo de rede, fica cada vez mais forte e senhor do jogo.

O início do cansaço e dos falhanços bate-bolas começa com irritados bate-bocas sobre perdas infantis inperdoáveis, como: "merda, depois do ponto construido em beleza e à mão de um toque, falhas, meu burro idiota"; "punheta de merda, fazes tudo bem para acabares dando o ponto de borla, meu camelo"; "que merda dum cabrão esta heim! com o campo todo à mercê e pôes a bola fora, grande palerma"; " que porra de merda esta, faço tudo bem e falho no momento de matar o ponto, punheta de gajo, eu"; são expressões, pouco académicas e mais do calão vernáculo, usadas durante o jogo pelo de bofes-curtos e jogo a matar.
Do outro lado, o jogo concentrado do bofes-longos na exploração do sucesso que se desenha através da táctica utilizada e seguida à letra. Mas duas perdas de bola fácil seguidas também soltam a fera escondida nos tiques do professoralmente correcto; "meeeerda", com raquete bate-bolas ao ar ou ao chão.

A causa e o efeito do constante recurso a monólogos exorcistas levam a discussões de contagem por despiste de memória, já de sí cheia e pesada de tempo. O despique dos pontos, o despique dos monólogos, o despique da contagem do jogo, o cansaço e o suor, levam a visões deslocadas de bate-dentro, bate-fora. Por efeito de vista através de óculos embaciados, de um lado, ou de vista cegueta pelo uso, cataratas ou miopez por outro, cada um vê a bola bater do lado que lhe convém. Como ninguém pode mentir a sí próprio ao emitir um juizo, cada qual acredita na sua versão: logo ou há cedência de dúvida ou repetição de ponto e o jogo continua.

Acontece assim devido ao despique do jogo apenas ou sobretudo devido ao adiantado estádio de vida dos jogadores? Ou uma conjugação das duas causas citadas, por sua vez causas de outras causa e assim recuando ou avançando sucessivamente, vias e caminhos diversos que conduzem ao trilho resultante direccionado ao iniludível indefinido total?
Tudo está ligado. Os inícios são infinitos, o percurso tem caminhos infinitos, mas todos vão desaguar num último e único desfiladeiro intrepável que termina no abismo negro sem fundo. Tudo está ligado por uma teia de fios-caminhos invisíveis que conduzem todos ao memso lugar sem escapatória.

Era bom, portanto, ter sempre presente ao longo da estadia por cá, esta finalidade comum. Durante a força do sangue, as forças exteriores da necessidade condicionam e encobrem o fundo do deternimismo final onde todos vão bater, então qualquer razão de queixa minhoca leva ao desentedimento e voltar de costas. Não é esse o nosso caso, já temos tempo e maturidade de sobra para distinguir a essencia da pele das coisas. E os despiques rascas, os monólogos porno, as discussões patetas momentâneas, por via de sábio bom senso adquirido na escola do tempo, fazem que reconheçamos que são isso mesmo: patetices sem valor de uso ou troca.
Logo, o nosso de bate bolas, funciona ao contrário: não divide, liga; cria um desejo de mais apesar de, cimenta a amizade. Liberto das necessidades fabricadas e impostas incessantemente, mais livre de condicionalismos sociais, o homem volta o olhar mais para dentro de sí que para fora. Infelizmente, nos tempos actuais, isso só é possível algo tarde. Mesmo assim vale a pena não desperdiçar.

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