quarta-feira, agosto 12, 2009

UM DIA NO HOSPITAL DE FARO III


AS IMPRESSÕES
Para concluir a minha experiência ao vivo, passada no interior do Hospital de Faro como "acompanhante" de um paciente, durante 20 horas, entre as 8,30 H do dia 2 e as 16,30 H do dia 3 deste mês, vou agora descrever as impressões mais fortes que tal experiência me deu observar. Tendo passado todos os momentos junto do paciente, pude observar de perto e ouvir conversas e diálogos pelos corredores e salas de tratamentos, as quais entendidas à luz dos acontecimentos vividos, dos protestos e reclamações brandas ou exaltadas, me permitiu fazer os seguintes juizos a partir dessas impressões então registadas.

i) Na espera para o tratamento da ferida nas "pequenas cirurgias", um senhor também "acompanhante" encostado ao corredor junto da maca do seu doente, de repente exaltou-se e fixei o seguinte: ... como querem que esteja calmo, como? Digam-me. Depois de 5 horas de espera e vejo outros entrarem e sairem e eu aqui, não sei de nada e ninguem me diz nada. E pedem-me calma e que fale baixo? Por acaso esta maca com o doente e eu próprio somos invisíveis? O que eu acho é que quando o doente tiver alta o "acompanhante" está capaz para ser internado.
Certeiro. Também eu, por fim, senti igualmente uma fraqueza humana inultrapassável, uma angústia impotente, uma revolta já sem voz, apenas dor. É-se "acompanhante" de alguém muito amigo ou familiar querido, não por obrigação ou dever de ofício, logo o mal do paciente tanbém é o nosso mal: acrescentar mais mal ao mal, a certo ponto, torna-se insuportável. Aquela imagem dada pelo tal "acompanhante", tem muito de pertinente: quando, por fim e ao fim de uma situação tipo Kafkiana, o doente vai ter "alta" o respectivo "acompanhante" está em condições mentais de dar "baixa" e ser internado. Ou então ser levado à Esquadra da Polícia próxima por ilegal estado de loucura.

ii) Quando esperava à porta do "Balcão Verde-Azul", perguntei a uma enfermeira se me podia dizer quando previa que a doente fosse atendida, se o serviço estava muito demorado porque a ferida da paciente continuava a sangrar. Respondeu que se se tratava de uma ferida devia esperar à porta da "pequena cirurgia" e apontou o local. Respondi que tinham mandado esperar à porta daquele "Balcão Verde-Azul". A enfermeira respondeu: - então não sei nem posso dizer mais nada -. Pouco tempo depois, uma "acompanhante" fez uma pergunta semelhante a uma outra enfermeira que desabafou: - nós somos as enfermeiras, somos as executantes, os doutores diagnostificam e receitam, nós apenas executamos. Sabemos bem o trabalho que temos a fazer e executamos, sobre outras coisas tem de perguntar aos doutores-. E falava em voz alta de modo que os doutores, na sala em frente de portas abertas, ouvissem directamente de viva voz.
A segunda impressão a retirar deste diálogo da enfermeira com a "Acompanhante" mas dirigido aos doutores é: que não existe cooperação solidária de esforços para bem servir o doente entre os diversos agentes que servem a eficácia do acto médico. Dá-se a entender que tudo é feito por obrigação e disciplina, por procedimentos burocratizados onde não cabe a boa-vontade e espírito de serviço ao doente.

iii) As situações vividas no caso da radiografia onde a doente entrou na sala e foi posta no corredor e sobretudo o caso do tac onde a doente esteve na máquina pronta para fazer o exame e foi recusado fazê-lo e de novo posta no corredor, ficando neste caso como em situação de doente "perdida" por apagão informático do hospital. Tudo porque o sistema de informática interno não comunicava entre serviços e, como a ficha da doente não aparecia no computador do serviço de tac, foi-lhe interdito fazer o tac e colocada em abandono à porta do respectico serviço tac.
Terceira impressão a retirar deste modo de proceder dos serviços: a existência de uma burocratização e guetização dos serviços exagerada. Os serviços não comunicam "humanamente" mas apenas mecanicamente, não comunicam "medicamente" mas apenas "responsabilitavelmente". Cada serviço é apenas responsável, e sobretudo vigilante, pelo "bom serviço" do seu departamento: os serviços são compartimentados e fechados sobre sí próprios sem inter-ajuda e "fala humana" entre eles. Assim o hospital torna-se ainda mais desumanizado sobre a pessoa já fragilizada pela doença.

iiii) É inadmissível que face a uma falha dos sistemas informáticos entre serviços, não esteja estabelecida uma alternativa, um plano b para manter os serviços em funcionamento. Pois em caso de um "apagão" informático o hospital, em poucas horas, fica inoperacional, infuncionável, em estado comatoso e explosivo devido à acumulação de doentes e acompanhantes pelos corredores em estado de espera indefinida.
Porque carga de água, em casos de falha de "entrada" de um doente no computador de um serviço este, não pode pedir uma confirmação escrita (uma nota de serviço interna) ao médico que requereu o serviço, responsabilizando-se este pelo pedido? O doente que aparece à pota do serviço para fazer um tac certamente não aparece ali por acaso: o chefe do serviço de tac sabe-o perfeitamente mas não dá passo para desbloquear a situação. Inadmissível.

iiiii) Quando soubemos, depois de 3 horas de espera, que o médico do "Balcão Verde- Azul" afinal tinha receitado fazer o tac à doente, reclamámos que não nos tinham falado em tal nem o médico da "pequena cirurgia" falara dessa necessidade depois da rádiografia. Este foi falar com o colega do Balcão mas não o convenceu a desistir do tac.
Ficámos com a impressão de que o médico do Balcão, mais por receio futuro de qualquer nefasta ocorrência, jogou pelo seguro e quiz-se munir de todas as cautelas: e assim insistiu e ordenou o tac. Nota-se, subjacente a esta cautela exagerada, o receio interiorizado de uma possivel futura acusação de "negligência médica". Ainda mais quando o médico é jovem e, consequentemente sem muita experiência, e provávelmente contratado, visto não ser português, tudo se conjuga para que se jogue pelo seguro.

iiiiii) Racionalmente ficamos com a sensação de que dada a compartimentação de cada serviço individualizando-os, com os seus agentes de tratamento afectos apenas a cada serviço, cria muita duplicação de pessoal auxiliar ou menos especializada. Observámos, durante as longas esperas nos corredores, que o pessoal interno de "batas verdes", batas azuis" e "batas cinzentas", desloca-se constantemente de um lado para o outro, quase invariávelmente assomando-se ou entrando pelos serviços adentro, perguntando algo ou trocando conversa com o pessoal adstrito. Há uma constante invasão dos serviços por pessoal de outros serviços o que, normalmente, faz interromper momentaneamente em muitos momentos, o trabalho e a atenção do técnico sobre o doente.

iiiiiii) Reconhecemos, para além das impressões atrás referidas, que podem ser falsos alarmes com base em uma situação ocasional, que ir hoje a um hospital nada tem a ver com uma ida antes ou mesmo muito depois de Abril. Os cuidados e a atenção médica prestada ao doente, são hoje em dia, incomparavelmente diferentes para melhor. Nesse tempo e neste caso concreto, o doente ia ao enfermeiro para fazer o "curativo" da ferida e era mandado "curado" para casa.
Também a existência da figura do "acompanhante" é uma medida de muita validade. Assim o doente nunca está nem se sente só, desprotegido, abandonado além de permitir-lhe estar informado do andamento do seu processo clínico. E como ficou demonstrado neste caso, evita que o doente possa ficar esquecido ou perdido no hospital, por qualquer falha burocrática. Pode ficar horas exageradas à espera nos corredores, mas aí o vigilante "acompanhante" terá sempre a possibilidade de interpor uma revolta declarada em voz alta. Isso é um ganho importante de cidadania.

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sábado, agosto 08, 2009

UM DIA NO HOSPITAL DE FARO II


AS PERIPÉCIAS
Como já expliquei, entrámos, doente e eu, o "acompanhante", no Hospital de Faro às 20,30H do dia 2 e saímos às 16,30 do dia 3 deste mês: 20 horas passados no interior do hospital para realizar 4 operações médicas normais que gastaram um total de 1,3o horas. O resto do tempo foi gasto em esperas intermináveis e outras, as maiores, inteiramente absurdas.

Depois do curativo à ferida, com pontos na cabeça, na "pequena cirurgia", surgiram sintomas de que algo não estava funcionando bem. Após 1/2 hora de espera chegou a maca à porta da sala de radiografia quase contígua à anterior. Passado 1/4 de hora, a maca com o doente, deu entrada na radiografia e passados 2 minutos os mesmos foram postos de novo à porta, motivo: a ficha do doente não constava no computador do seviço de radiografia. O empregado auxiliar que andara com a maca, de boa vontade para resolver o enigma da "branca" do ficheiro, andou de um lado para outro e até levou à entrada a braçadeira amarela identificadora do processo. A boa vontade do maqueiro desbloqueou a boa vontade do pessoal da radiografia e finalmente à meia noite o cirurgião podia verificar que radiograficamente estava tudo bem.
Perguntei se o doente ia ter alta e o cirugião respondeu que não: o doente ia ser enviado para o "Balcão Verde-Azul" para ser observado afim de tentar determinar-se a causa do desmaio e consequente queda e ferida.

Três horas à porta do "Balcão Verde-Azul", com um corropio de médicos, enfermeiros, auxliares do serviço a passar junto de nós e, nada. Interpelámos a enferneira do serviço que, atenciosa, nos atendeu e prometeu ver o que se passava. Passáva-se que o médico, sem observar a doente e sequer informar disso, decidira mandar fazer um tac à cabeça da doente. A emfermeira informou que o tac só poderia ser feito por volta das 10,00h. Acerca dessa hora telefona-me o doente que já tinha feito o tac e podia ir buscá-lo. Ó surpresa fantástica: fantástica de fantasmas. A doente estivera na máquina do tac mas no último momento não fora accionada para realizar a operação: outra vez a identificação do doente não constava no computador deste serviço. Situação kafkiana: a doente foi colocada no corredor à pora do tac numa situação de total abandono. O sistema de comunicação informática não comunicava logo, o médico que receitara o tac, como não recebia informação do doente apagou-o da memória, ou melhor desaparecera o seu rastro no meio da burocracia informática e por conseguinte prefigurava-se uma situação de "perdido".

E assim estava e bem podia ter ficado a situação, até esticar-se e rebentar o sistema nervoso e gerar-se uma humana revolta de palavras azedas, caso não surgisse do interior do hospital a Sandra, amiga quase familiar, que se propôs resolver o caso dado tratar-se de assunto obrigatório do seu serviço de apoio aos utentes. Mesmo assim, contando com toda a diligência e boa vontade da Sandra, só foi possível realizar de facto o tac cerca das 15,00h e sair do hospital pelas 16,30 horas.

Descritas todas as peripécias, para-kafkianas, passadas no hospital de Faro durante 20,00 horas, na próxima direi das impressões tiradas e retidas a partir das situações atentamente observadas.

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quarta-feira, agosto 05, 2009

UM DIA NO HOSPITAL DE FARO


VISTO POR "ACOMPANHANTE"
Um dia de vida passado no Hospital de Faro no papel de "acompanhante" de um doente é uma experiência prática de viver no interior dum cosmos verdadeiramente não criado por Deus. Aquele mundo só podia ser inventado por Kafka. Não obstante, diga-se desde já, ser uma coisa boa o facto de agora existir essa figura do "acompanhante" que segue e vigia o familiar ou amigo doente a par e passo por todas as "salas", "blocos", "balcões" e sobretudo pelos inúmeros longos "corredores" a perder de vista onde os doentes passam 90% do tempo de estadia no interior do hospital. Caso contrário seria ainda mais doloroso ser apenas "esperante", às cegas e sem informação do que se passa com o doente familiar. Ver, observando, aquele microcosmos fervilhante de médicos, enfermeiras, auxiliares, doentes, acompanhantes e todo o arrastar contínuo de macas e aparelhagem técnica de um lado para outro por entre conversas médicas, cavaqueiras nos corredores, ordens hierárquicas, revoltas e discussões de aconpanhantes, gritos e falas altas de drogados ou bebados recém-chegados, falas grossas e descabeladas de presos de pulsos amarrados vigiados por guardas prisionais, e tudo isto misturado com sonoros ais, pedidos, gemidos e gritos de dor dos doentes, faz-nos pensar num mundo inconvencional, subterrâneo, sem Deus.
A minha experiência contada sumáriamente foi assim. Chegada via ambulância, entrada e registo administrativo do doente cerca das 20,30 horas do dia 02.08.2009 e saída às 16,30 do dia 03.08.2009, portanto um total de 20 horas passados dentro do hospital ininterruptamente para realizar 4 operações médicas: i) tirar sangue para análises, 15 minutos. ii) pequena cirurgia de tratamento e suturação de uma ferida na cabeça com 3 pontos, 30 minutos. iii) fazer uma radiografia à cabeça, local da ferida, 15 minutos. iiii) fazer um tac à cabeça, 30 minutos. Conclusão, foram precisas gastar 20 horas para se poder realizar 1,5 horas de trabalho efectivamente médico: menos de 8% de aproveitamento útil.
E como foram gastas o resto das horas? De tal forma que tornam as horas intermináveis e o tempo insuportável, quer para o paciente que, sustentando o mal no corpo se resigna, quer sobretudo para o "acompanhante" que desespera pelos corredores junto da maca onde o doente é instalado, depositado e transportado. Fácil é deduzir, da explicação do tempo útil gasto em actos médicos, que o restante tempo é necessáriamente gasto em "esperas" para identificação, "aguardares" para ser atendido à porta das salas de serviços, "abandonos" nos corredores por falhas burocráticas de comunicação internas.
A maior de todas foi, depois de sair cerca das 12,00 horas da radiografia, depois de um abandono durante três horas à porta do Balcão Verde-Azul, e depois de interpelada a enfermeira de serviço, diga-se, atenciosa e que deu imediato seguimento ao questionado, soubemos que à doente tinha sido medicado fazer um tac à cabeça, o que só poderia ser efectuado pelas 10,00 horas dessa manhã. O certo é que o tac das 10.00 horas falhou e só se pôde efectuar às 14,00 horas: uma "espera" de 14,00 horas. E com inadmissíveis procedimentos pelo meio, mas isso vamos contar na próxima.

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