terça-feira, setembro 02, 2008

GORJEIOS XIX


Sobe montes desce montes
por carreiros e horizontes
desconhecidos, incertos,
cara ao alto olhar em frente
está triste mas vai contente
com os olhos bem abertos
espetados na esperança,
salta raia de males e mazela
percorre terras de Castela
sonha com terras de França
tal como o pai sonhou Brasil,
Argentina, Venezuela.
Espera-o vida de cão e trela
nos palácios de lata do bidonville.


Do livro "Gorjeios"
3ª estrofe do poema "Emigração".

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segunda-feira, julho 07, 2008

GORJEIOS XVIII


Vai fugido vai à procura
d'encher pele e ossatura
à vista no corpo seco.
Faz contas à sua sucata
de vida no país que o trata
como farrapo de boneco
lançado na valeta,
pergunta que deus ignoto
faz que uns raspem o goto
e outros mamem na teta.
Lembra-se da última ceia
mais lágrimas que comida,
tem saudades da remexida
mulher só e triste? na aldeia.


2ª estrofe do poema "Emigração"
do livro "Gorjeios".

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terça-feira, julho 01, 2008

GORJEIOS XVII


Se fez emigração à falta
de pão e o povo salta
fronteira
na mão de desonestos
"passadores" papa-restos
de tostões de algibeira.
Investido de sua lástima
sem carta ou passaporte
vai a salto vai à sorte
pede à senhora de Fátima
forças prá caminhada
por entre serras e vales
escondido dos seus males
sonha com o fim da jornada.


Do livro "Gorjeios"
1ª estrofe do poema "Emigração"

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quinta-feira, maio 22, 2008

GORJEIOS XVI


OH!, CIDADE DAS JANELAS INDISCRETAS

Oh!, cidade das janelas indiscretas
Molduras de modelos vivos fazendo convites
De fazer crescer e incendiar apetites
Que chegam em bandos em bicicletas
E em grupos observam e medem os modelos
Em coloquial aberto e minucioso exame
Fitando-os clara e demoradamente a vê-los
De lado a lado da ponta dos pés aos cabelos
Em ruas de Amsterdam.

Oh!, perverso Lautrec das mulheres do Pigalle
Oh!, delicada Maluda das janelas de Lisboa
Pintem estas mulheres e janelas onde o sexo voa
Incandescente ao rubro sobre a rua e águas do canal
Sejam malditos, cubram as telas de vaginas e tetas
Escorrendo e onde todo o mundo vá e mame
Encenem olímpicas orgias e bacanais
Ponham falos cuspindo esperma como agulhetas
Exaltem a folia de bordéis com meninas nas saletas
Ondas de esporra espumem as águas mansas dos canais
Contestem subvertam façam humano o frio e infame
Sexo mecânico tecno-asséptico de Amsterdam.

Amsterdam, 20.04.99

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segunda-feira, maio 07, 2007

GORJEIOS X














MESTRES DOS GORJÕES

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Os Mestres citados, atrás lidos,
os Mestres Desconhecidos,
construtores de sonhos e peças
únicas, hojes, amanhãs e fins,
foram educadores, almas, clarins,
contra um mundo indo às avessas.

Foram Mestres de ofícios, de mãos,
foram Mestres de sonhos, artesãos,
foram Mestres de luta, utópicos,
foram Mestres de lisura, limpos,
foram Mestres de exemplo, distintos,
foram Mestres do seu tempo, únicos.


Do livro "GORJEIOS" de José Neves

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sábado, fevereiro 24, 2007

GORJEIOS V

A ALMA

Alma imortal dos nossos ancestrais
Homem e Mulher, viestes e estais
connosco desde sempre até hoje
passando de pai a filho, morto a vivo,
és a raiz, o modelo, a matriz, o livro,
que o passado dos nossos a nós impôs.
O tempo passa, o tempo foge,
o tempo muda, o tempo define,
o tempo cerca, circunscreve,
o tempo corre, faz-se breve,
o tempo marca, o tempo imprime,
o tempo ensina, o tempo indica,
o tempo dá e tira, o tempo redime,
o tempo renasce, o tempo replica,
o tempo leva a carne, deixa o sublime,
o tempo vem, o tempo vai, a alma fica.

Alma grande de todas almas tecida
de marcas de amor à terra empedrenida
virgem e brava, feita mansa e mole
pela força dessa alma que vagueia
tecida de todas as almas feitas teia
que nos envolve, qual sombra, qual sol
que nos ilumina e aquece, qual farol
noa traça o caminho e guia,
qual força invisível que captura
a alma antiga, a actual e a futura,
funde-as, molda-as, e delas recria
a nossa alma comum, alma-máter
original que em nosso peito habita
desde os pássaros, fonte de carácter
limpo e perene que morre e ressuscita.

Alma vinda dos céus nas asas das aves em vôo,
alma caída na terra dura nosso chão, fecundou-o,
alma mulher útero de mil rebentos,
alma mito, origem ideal, íntegra, intocável,
alma obreira da pedra do mato, da terra arável,
alma semente de almas na terra e nos tempos,
alma apelo dos antigos de corrupção isentos,
alma costume de costumes únicos que houveram,
alma saber dos saberes dos nossos avós maiores,
alma cultura da cultura da vida e dos valores,
alma forma das formas que idas almas nos deram,
alma corpo dos corpos gastos feitos ossos e pós,
alma fonte de ecos de lutas e sonhos que viveram,
alma viva vinda de passado em passado até nós.


Do livro Gorjeios

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quinta-feira, janeiro 18, 2007

GORJEIOS I

SÃO SAUDADE

Um português são dois na prática,
é alma, terra pedra fixa apática,
é corpo, carne sangue a ferver,
desta ligação antagónica
faz o português a sua crónica
de vida feita desta maneira de ser
dois e diferente,
de ser dois e toda a gente
filhos dests elástica dualidade
entre o deixa andar e o tumulto,
entre ser vilão ou ser vulto,
entre o génio e a boçalidade.
entre Aljubarrota e Quibir,
entre ser ou não ser, lutar ou fugir.

Entre descobrir mundos, índias, brasis
ou descobrir imundos "bidonvis",
entre alma mole e corpo de genica
passa os dias o nosso ser paradoxal,
marcado desse pecado original
dum corpo que parte e uma alma que fica
penélopiando em espera dependente
do corpo desejado ausente.
Com a alma perdida, o corpo sem sina
ou vontade própria, corre ao Deus dará,
estrebucha, luta, é escravo ou marajá
fixado no regresso à unidade uterina.
Noutros povos corpo e alma são unicidade,
no português corpo e alma são saudade.

Do livro Gorjeios

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