segunda-feira, dezembro 01, 2008

JOÃO BARRA BEXIGA , A HOMENAGEM


O MOMENTO DA ARTE
As coisas grandes são grandes pelo sentimento do merecido, do justo, do belo que nos despertam e tomam a nossa consciência de assalto ocupando-a integral e exclusivamente por momentos que ficam inesquecíveis. O grande é grande não por ser monstruoso mas quando o homem comum, fazedor de coisas normais, sentindo-se ele próprio, conscientemente, pequeno perante a sua constatação do que é belamente grande, se torna admirador assumido racional e sentidamente, do Homem capaz dessa grandeza criadora do maravilhoso gerado na alma e nascida pela mão do Artista. Uma alta montanha é grande pela impressão grandiosa transmitida pela beleza criativa da mãe Natureza, uma escultura, uma pintura, um poema, uma música é grande pela grandeza da impressão que nos transmite a beleza criativa do Artista e que lhe guia a mão.

Na festa do dia 29, no Teatro da Figuras em Faro, de homenagem ao Homem João Barra Bexiga e à sua Obra de compositor de música para acordeão, aconteceu um momento raro de comunhão de sentimentos entre público e homenageado: uma beleza grande, logo um momento inesquecível. Foi uma verdadeira celebração em honra do Homem simples, auto-didata criador duma Obra notável reconhecida por entendidos e não entendidos. Os entendidos reconhecem pela pauta musical, pela composição, pela técnica e pela harmonia, os não entendidos sabem que aqueles sons representam emoções, paixões, impressões, sentimentos, elevados estados de alma inspiradores que eles conheceram ao longo da vida do Artista.

Um momento houve que consagra um Artista, aquele visto através de um filme que mostra o Mestre tocando numa taberna com copos sobre as mesas e gente simple à volta. Num local onde normalmente a conversa e o ruido abafa qualquer outro som, todos escutavam estáticos, num silêncio total submisso e atencioso virados para o Mestre, como que comungando com ele as emoções e sentimentos originais que inspiraram a música que ouviam, sentiam e através da qual se identificavam consubstancialmente com o seu criador. Foi um momento de impacto total entre Arte e o seu efeito, foi um momento hipnótico. Foi O Momento da Arte.

Tudo bonito com um senão: o Mestre João Barra Bexiga devia ter sido chamado ao centro do palco, ele unicamente e só, para receber a ovação merecida por ele mesmo e valor próprio, que não precisa de muletas.

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sexta-feira, novembro 14, 2008

JOÃO BARRA BEXIGA - CONFISSÕES II



APCgorjeios, no seu contributo para a homenagem em curso na Freguesia sobre as reconhecidas e incontestadas qualidades de carácter e obra de acordeonista e conpositor que é João Barra Bexiga, deixa aqui a 2ª parte, em video, da conversa que teve com o Mestre e Homem notável e raro.

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quinta-feira, novembro 13, 2008

JOÃO BARRA BEXIGA - CONFISSÕES I


O apcgorjeios associa-se inteiramente e com muito gosto de alma e coração à justa e merecida homenagem em curso, em boa hora apadrinhada pela Junta de Freguesia, ao Grande Mestre do Acordeão de Bordeira, João Barra Bexiga. Continuador de outro grande Mestre, José Ferreiro (Pai), tal como o seu conterrâneo amigo e modelo exemplar de artista, foi igualmente criador-inventor de arte musical por força imanente do seu espírito de pesquizador perscrutante dos sons tirados dos dedos. Sem ensino de acordeão nem educação musical, tal como o Aleixo fez belos versos sem saber escrever, compôs magníficas e belas melodias de elevado grau de qualidade harmónica e dificuldade interpretativa. Amante do belo foi permanente apaixonado platónico de mulheres bonitas que lhe insinuavam na mente a Musa inspiradora e lhe despertavam a veia da criação em catadupa.
Como contributo para melhor compreender os mecanismos mentais que conduziram e conduzem ainda, felizmente, este Mestre compositor e acordeonista de elevada craveira para o meio e condições de auto-didata que o envolveram e cercearam vôos mais altos ainda, aqui deixo a 1ª parte de uma conversa com o Homem e compositor em Julho de 2005.

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terça-feira, junho 03, 2008

RABISCOS DE UM POETA


RABISCADOR DE POESIA

Francisco Viegas Dias, que assinava as suas quadras, ou "quadrismos" assim lhes chamava, como Francisco Dias Bexiga e era conhecido de todos apenas como "O Bexiga", tem desde o dia 31 de Maio de 2008 a sua poesia, feita dos farrapos da sua vida, impressa em livro. Saído quase analfabeto da instrução primária salazarista, o seu vocabulário era restrito e o pensamento estava limitado às expressões, ditados e analogias de uso comum rural. Mas estas limitações que são importantes para a poesia académica elaborada, não são impecilho e pouco contam para uma genuina veia poética popular como acontecia com o Bexiga. Ele, mesmo com as palavras simples dos rurais "montanheiros" do Barrocal Algarvio, conseguia transmitir com clareza juizos sociais e morais e conceitos de vida entre o ser e o ter, tirados da própria experiência de toda a sua vida tentar ser livre (libertário), mesmo sabendo que em troca o esperava o trabalho duro, miséria e fome.
O Bexiga foi inteiramente coerente com a sua filosofia de vida que desprezava as riquezas em benefício do prazer de viver sem cuidados do futuro. O futuro para ele não ia além de estar vivo no dia seguinte. A sua preocupação com o futuro limitava-se a imaginar como ganhar em cada dia os tostões para o pão e vinho diário, especialmente o vinho em goladas de "nossas senhoras". Face ao seu decadente modo de vida, os piedosos expressavam pena ou desprezavam-no, jamais podiam entender que o olhar de poeta à vida não está virado para o corpo mas para alma.
Este conceito poético, da supremacia do valor do espírito sobre o corpo, que o poeta cumpriu integralmente até no seu propositado abandono à morte, está bem patente na quadra "PARA NÃO TER MORTE INSTANTÂNEA", na qual o mote diz " Quem comer uma vez por dia/E andar como nasceu/Vive com mais alegria/Do que aquele que morreu." A partir deste conceito que tem implícito o seu modo e pensamento de vida, ele faz uma crítica mordaz e algo cínica sobre os que morrem de fartura e aqueles que, como ele, comem apenas para não morrer no dia a dia, patente nos versos, "Ter uma cama de palha/Sem ter mantas nem lençóis/Cantar como os rouxinóis/É assim que se agasalha.", referindo-se aos miseráveis enquanto aos abastados mortos dizia, "O pobre morto abastado/Na sua vida passada/Morreu, já não conta nada/Guardou para ele o pecado." O pecado da gula do ter, do património gordo.
As suas quadras têm todas elas um sentido crítico severo, quer acerca dos ricaços pacóvios que o desdenhavam, quer acerca de episódios estranhos ou imorais acontecidos no lugar ou nacionais muito falados, contudo a sua linguagem poética nunca era malidizente, despresiva ou ofensiva. Envolvia sim, sempre, uma insinuante sageza malidicente e cínica, quase sempre pouco perceptível para o criticado dada a sua habitual boçalidade. Neste aspecto o Bexiga tornou-se exímio. Era a sua vingança, mesmo assim fazia-o com idéias e beleza poética.
Agora o Bexiga tem o seu livro editado, e não porque fizesse por isso, mas porque, passados vinte e cinco anos após a sua morte, o povo da freguesia renconheceu a sua poesia como valor acrescentado à sua identidade. Ainda por cima enriquecido com as ilustrações do mestre pintor gorjonense Adão Contreiras que concebeu imaginativas composições do Bexiga com a bicicleta e canastas de vender berbigão e do seu retrato a traço livre do Bexiga com o seu tradicional "chapéu às três pancadas".
Pelo livro, pela bela placa colocada no Rossio da aldeia, pelo reconhecimento colectivo do mérito da sua obra, o Bexiga voltou ao nosso convívio e "passou a contar" entre os seus conterrâneos.

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sábado, maio 31, 2008

FRANCISCO DIAS BEXIGA

"O BEXIGA" POETA POPULAR  
 Muito miúdo ainda fui conterrâneo do poeta Aleixo que frequentava, cantava e improvisava pelos lugares à volta de Loulé e também aqui nas "vendas" locais e já era muito falado e apreciado aqui nos Gorjões. O meu pai tinha a 1ª edição dos livros "Quando Começo a Cantar" e "Intencionais", compilados por José Rosa Madeira e Dr. Magalhães, do Liceu de Faro e mais tarde meu professor, e editados pelo Circulo Cultural do Algarve de Faro, que eu li por altura da minha 4ª classe.
O Aleixo foi a figura inspiradora de muitos outros poetas e poesia popular que masceu por estas bandas e perdura ainda hoje, e de quem mais se falava, contudo na minha juventude, aqui nos Gorjões, uma outra figura típica de poeta popular "Quadrista" já dava nas vistas e juntava muita gente à sua roda para o ouvir cantar e dizer as suas quadras: "Quadrismos" como ele lhes chamava. Era precisamente o "Bexiga" da Cruz de Pau, hoje Agostos, que era "guardador de terras" locais no tempo dos frutos secos e passava grande parte do tempo aqui nas "vendas" do Alto. Eu, que já tinha feito o 3º ano do Liceu e escrito aqueles versos de amores infantis que fazemos às moças do nosso desejo, metia-me com o Bexiga e ele, sempre diante da sua "nossa senhora" que esvaziava de um trago e continuamente mandava encher ao taberneiro, na sua linguagem arrastada etílico-metafísica quase imperceptível, dizia-me: "ouve lá esta ou estudanteco a ver se percebes o poeta Bexiga, nam, nam vais perceber, mostra lá as mãos, nam, nam vais perceber, não tens calos assim, nem casacos rotos, não vais à ceifa, nem ao varejo, nem ao berbigão nem comes pão seco e dormes numa manta, nam, tu não percebes, os quadrismos do Bexiga são feitos destas coisas e tu não sabes, nam, mas ouve lá". E eu ouvia, gostava, ria-me ou ficava intrigado, conforme o tema, mas de facto eu não percebia de que matéria o Bexiga se servia para construir os seus quadrismos. No seu íntimo as dores que pariam a sua poesia popular eram as da sua vida dura de andarilho dependente da sobrevivência e as de baconismo necessárias para soltar o cante amargo do poeta. Que eu não percebia os caminhos poéticos do Bexiga está bem patente numa quadra que lhe fiz em 1959, inocentemente escandalizado por pensar que seria melhor poeta deixando a bebida e que era assim a 1ª glosa: Tu sabes bem que t'admiro/Pelo que sabes fazer/Mas gostava de te ver/Fazer dessa vida retiro/O homem a que me refiro/Bebe sem conta e medida/Por isso tem a sina já lida/E eu tenho pena ao vê-lo/Bêbado caído no desmazelo/Bexiga, poeta deixa a bebida. Mas a minha compreensão e estima pelo poeta já era notória, como comprova o 1º verso da 4ª glosa da mesma quadra: Onde quer que esteja o Bexiga/o poeta do improviso/Há nos seus olhos um sorriso/E nos seus lábios uma cantiga. Hoje é um dia feliz para a memória do poeta Bexiga e consequentemente para a memória da nossa Freguesia, com o lançamento do livro "Rabiscos de Um Poeta" que contém uma valiosa recolha de quadras suas, publicadas em folhetos de feira, ou que andavam dispersas e aos bocados na boca de pessoas que com ele conviveram. Foi difícil e levou tempo reunir e compilar o acervo poético dado que não havia um baú com a produção do poeta guardado, mas foi importante o trabalho de preservação desta memória popular, cujo conteúdo em grande parte se refere a acontecimentos da nossa História local. Muitos se riam e tinham pena do estado físico decadente do poeta, mas para esses que o olhavam depreciativamente face à sua aparente miséria, o nosso poeta respondia, como só aos poetas visionários com futuro é possivel ter, com a sua filosofia e prática de vida simples de pobre que "tendo um bocado de pão já é ter grande beleza" e que um poeta "Em qualquer cantiga diz, sendo pobre vive bem", sempre imbuído de um sentimento que vai muito para além da comezinha abundância terrena do "ter", desconsiderado e inferior face ao "ser" onde "há mais riqueza num pobre feliz que num rico com tristeza", como com imensa simplicidade e claramente disse na quadra, "Vida Alegre" cujo mote, 3ª e 4ª glosas falam assim: Mote, Vida alegre, quem a tem/Ainda hoje é uma riqueza/Sendo pobre vive bem/Do que o rico com tristeza. 3ª glosa, Qualquer coisa lhes sobeja/ Andam livres de ilusões/Governam-se com uns tostões/Andam livres da inveja/O que esta gente deseja/ É ganhar algum vintém/Só saúde lhe convém/A esse pobre infeliz/Em qualquer cantiga diz/Sendo pobre vive bem. 4ª glosa, Com tão boa protecção/Esse pobre é sempre forte/Desgraça para ele é sorte/Já de rastos pelo chão/Tendo um bocado de pão/Já é ter grande beleza/Canta o fado à portuguesa/Vai a toda a brincadeira/Tem mais dinheiro na carteira/Do que um rico com tristeza. Com o seu livro de "quadrismos" junto de nós o poeta "Bexiga" volta ao nosso convívio a partir de hoje e para ficar.

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domingo, maio 25, 2008

JOAQUIM ISIDRO CONCEIÇÃO ROSA


O PINTO (1948-2007)

Vendo e revendo as imagens de video do alegre e feliz almoço da Charola "Flôr de Lis" em Novembro de 2007, no Café Central de Santa Bárbara de Nexe, pensamos imediatamente na impossíbilidade de entendermos os indecifráveis mistérios do espírito humano que, de um Homem pleno de alegria rodeado de amigos, faz um Homem só, a olhar-se, a ouvir-se e a pensar-se a si mesmo e à sua própria existência. De que matéria é feita a razão do ser humano que é uma coisa, pensa outra e deseja ser outra e convive simultâneamente com as três condições contraditórias dentro de si, debatendo-se numa luta interior transcendental, entre o ser e o não ser? Que comédia louca ou que drama trágico é a vida incessantemente representada como um desfile de fantasmas vivos? Que emaranhados caminhos do pensamento conduzem a consciência a um labirinto sem saída? E nós outros, os próximos, os amigos, os conhecidos que julgamos ver a alma do Homem observando a sua acção e olhar, que podemos fazer quando sempre observámos acções e olhares limpos, e dada a impossibilidade de vermos ouvirmos ou lermos o que vai dentro dessa alma? Julgamos compreender o mundo, o cosmos e o micro-cosmos que nos rodeia pela explicação ciêntífica, contudo continuamos primitivos ignorantes quanto á conpreensão de nós próprios.

Certo certo, acontece, é que o Homem por mais que viva irmanado em sociedade, por mais livre que seja, por mais feliz que viva, por mais utopias que sonhe, o seu destino como indivíduo autónomo, está umbilical e inapelavelmente ligado á sua matéria íntima genética que o moldou um ser único intransmissível desde o princípio. Pode a sociedade impôr, legislar, ordenar, perseguir, condenar, prender que jamais poderá impedir o desígnio das leis mais altas e nunca escritas que ditam o nosso inerente direito à eternidade.

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segunda-feira, dezembro 24, 2007

NEXENSES V


ESTADA MUNICIPAL 520

A Estrada Municipal nº 520, ligação principal directa da Freguesia de Santa Bárbara de Nexe a Faro é a verdadeira imagem da incúria da Câmara Municipal de Faro. Na 1ª reunião do actual presidente da CMF na sede da Freguesia falei (e outros) do estado lastimoso da estrada e o seu adjunto concordou e até justificou o seu atraso à reunião pela morosidade devido à impossibilidade de conduzir normalmente em tal esburacada estrada. Era altura de chuvas quando a estrada esburacada, estreita, sem bermas, sem valetas, sem pontões, sem escoamento de águas, de longos troços planos e outros encovados, se torna num longo ribeiro com inúmeras lagoas desde a cova sob a Via do Infante até ao Patacão.
Passado um ano, em cima de outros 30 anos passados iguais, neste úlimo dia de fortes chuvas tive de deslocar-me a Faro e constatei ao vivo que em quase todo o referido percurso a estrada se tranformou na linha de água por onde escorre a enchurrada abrindo buracos ou alargando-os, formando compridos e fundos lagos e trazendo lama e pedras para a via tornando-a um verdadeiro leito de ribeira. Tive dificuldade em passar em alguns locais com água pelas portas do carro e senti claramente sentido que se continuasse a chover forte mais algum tempo a mal-amada e abandonada 520 ficaria irremediavelmente intransitável.
Continuo a pensar que as freguesias rurais de Faro são a sua avenida com jardim e quem não cuida da avenida nem do jardim de sua casa é como o sucateiro que vai espalhando ferro velho à sua volta até afogar-se na própria sucata.

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sexta-feira, março 09, 2007

NEXE, ESTADO DA CULTURA I

NEXISMOS

A freguesia de Santa Bárbara de Nexe ocupa uma área territorial com cerca de 4o Kms2, 20% da área do concelho de Faro, e é constituida por cerca de duas dezenas de sítios com aglomerados populacionais muito dispersos. Podemos imaginar um rectangulo de 10x4 kms encravado entre a proximidade da campina de Faro a sul e a proximidade da serra do Caldeirão a norte, deslizando pelas duas encostas do cerro nexe por terras chamadas do barrocal algarvio. O cerro nexe, do alto dos seus quase 400ms de altitude olha o mar a sul e a serra a norte, cria alguma dificuldade de tranposição mas mantem a morfologia de barrocal com os mesmos costumes ligados à actividade do cultivo agricola, pastorícia e exploração dos frutos secos. Dum lado e outro do cerro nexe a actividade cultural é identica, centrada no culto religioso, e por isso nascem em cada lado uma ermida a partir de meados do Séc.xv.
Os vários sítios da freguesia foram crescendo sempre de forma dispersa(casa no local de terra de lavrar) mas criando alguma centralidade à volta de novas realidades que nasciam localmente como os artífices, a venda, os poços, as casas de baile de roda mandado, um cruzamento com estrada nova, casa grande de lavoura, etc. No Séc.xx a partir do fim da guerra 14-18 sobressaiem três sítios onde se centraliza quase toda a actividade cultural da freguesia. São eles a Igreja, centro administrativo e paroquial com actividades na construção e ofícios ligados à pedra, Bordeira que se centraliza na actividade da exploração e trabalhos em pedra, e Gorjões que a partir das actividades da pedra se especializa na actividade de contrução de estradas. Nestes locais que aglutinam, comercial e culturalmente, todos os sítios vizinhos à volta, com pequenas diferenças temporais, nascem Sociedades Recreativas que passam a ser o local priviligiado de toda a actividade cultural desses sítios. Mesmo durante a ditadura salazarenta que proibia toda a actividade além do estritamente recreativo, estas Sociedades desenvolveram alguma actividade cultural como; leitura de jornais, escuta de notícias de fora pela telefonia, organização de peças de teatro(récitas), passagem de filmes(cinemas ambulantes), palhaços e ilusionismo(circo ambulante). Mas sobretudo eram locais de discussão, de confito de ideias, de debate acerca dos problemas da comunidade local, da guerra e das ideologias subjacentes(39-45), do desenvolvimento, das novas máquinas que surgiam; o automóvel, o combóio, o avião, a bicicleta, a estrada de alcatrão, o cinema(discussão entre bonecos mortos e bonecos vivos, cinema e teatro), a Espanha(guerra civil), comemorações do 9 de Abril(batalha de La Lys), etc., etc. Discutia-se ouvindo-se atentamente uns aos outros com tolerância, questionavam-se com o rigor e razão prática do entendimento confrontando a existência face aos acontecimentos do mundo e locais. E também com elevado sentido moral e social de comunidade organizando peditórios e festas de beneficência em favor de famílias muito pobres com filhos doentes necessitados de tratamentos especiais ou adquirindo transporte de tracção animal próprio para funerais evitando o carrego a braço dos mortos. Naquele tempo a miséria e a fome não eram figura de retórica, viam-se a olho nú à porta do pão racionado, e o direito à saúde era o direito natural da cura pela morte.
Contudo, apesar das intenções e do esforço dos fundadores das associações recreativas, o Estado Novo truncou-lhes quaiquer veleidades de dedicação mais visível ao aspecto cultural, o qual para ser digno de tal tem de ter algum fundamento ideológico. Veja-se que em nenhuma das referidas Sociedades se organizou sequer uma pequena biblioteca com literatura permitida ou outra. Estas teriam sido o meio ideal de recolha e difusão da cultura popular, nomeadamente da poesia popular, tão abundante e hoje perdida.
O Algarve não é rico em figuras de cultura de nível nacional e por conseguinte também o não é o concelho logo, só por um acaso muito original o seria a nossa freguesia. Mesmo assim há alguma originalidade cultural na nossa freguesia como é o caso de Bordeira.

Continua. Proximamente tentarei expôr opinião sobre os três nexismos que teimam em subsistir.

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sábado, fevereiro 17, 2007

MARAFAÇÕES XI

A SALDO, A ASSALTO?

Um estranho que visite Santa Bárbara de Nexe, dará voltas sobre si para bem observar o manuelino quinhentista e o barroco setecentista da vetusta mas bonita e airosa igreja matriz, e antes já bem dobrara o pescoço para olhar a cúpula da esbelta torre sineira sinaleira. Embrenhado na visão de restos do nosso tempo glorioso, descendo pela rua antiga que contorna a igreja pelo lado norte chega ao Rossio, e aqui perdem-se de repente pelos olhos, todos os pensamentos sobre o nosso passado histórico. Chegado aqui, bate com os olhos na mais visível modernidade nexense; montras e montras forradas a papel A4 com fotografias anunciando a venda, ao retalho, do barrocal tradicional. Num raio de 20 ms à volta só vê, salientes e apelativos, nomes charmosos de imobiliárias que se propõem vender ruinas de casas e terras abandonadas mas com valores turisticos exorbitantes.
A falta de condições para uma vida mínina de acordo com padrões actuais, por um lado, e por outro o apelo martelado da cultura dominante, que vende encapotadamente os interesses da especulaçao imobiliária do negócio sob a forma de dormitórios, centros comerciais, centros clinicos, centros de futebol, centros de cafés, centros de 3ª idade, centros de passeios, centros de divertimentos, centros de bailaricos, etc., leva ao abandono das antigas casas de média e pequena lavoura do barrocal. Na freguesia uma fatia importante das casas da antiga classe de pequenos e médios lavradores já mudaram de dono e estão nas mãos de estrangeiros ou forasteiros ricos que, após demolições restaurações deixando sinais da primitiva antiguidade juntamente com modernaças piscinas e barbecus, fazem negócio de arrendamento escondido fiscalmente.
O preço turistico desses bens faz que os herdeiros deles não resistam à facilidade da divisão monetária para adquirir o seu apartamento que, como ataca a publicidade, tem as badaladas modernas instalações e os bens finos da cidade à mão. Na nossa freguesia, devido á sua situação geográfica priviligiada disposta em anfiteatro sobre o mar, os preços tornam-se irresistíveis para os locais na venda e proibitivos para os locais na compra. A especulação é o aparelho respiratório do capital finaceiro, a alquimia que troca patacos de latão por moeda de ouro, a flôr bem cheirosa que atrai o incauto para a beleza efémera da pétala e o ganansioso para o mel saboroso do pólem, o açúcar que faz correr todas as moscas.
Só assim se explica a instalação, de um ano para o outro, de meia dúzia de escritórios de mediação de compra e venda de propriedades numa pequena aldeia, tantas como em Faro e mais que Loulé e S. Brás juntas. Dizia-se antigamente: - em Olhão é porta sim porta não -, hoje poderiamos dizer que em S.B. de Nexe é montra com montra, como na célebre rua de Amesterdão. E como lá, a exposição nua e crua em montras dedicadas à venda, para turistas interesseiros, do património ancestral dos nossos antepassados é um verdadeiro atentado ao pudor dos nexenses que amam a sua terra.
Já vi alguns nascidos na cidade, chorarem porque os seus pais venderam a velha casa do campo onde viveram, até à morte, os avós.

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sexta-feira, janeiro 19, 2007

GORJEIOS II

SANTA BÁRBARA DE NEXE, a História, a Igreja e a Memória
A MONOGRAFIA

Dada uma olhadela rápida pela História contada no recentemente(10.12.06) apresentado trabalho monográfico da nossa Freguesia, ficamos logo decididos a uma leitura passo a passo, atenta e gostosa, acerca dos antepassados que, com o seu rasto inscrito, deram uma ajuda preciosa para saber-mos donde viemos, quem fomos e o que somos.
No livro, coordenado por João Rocha Bernardes e Luis Filipe Oliveira, reconhecemos imediatamente um trabalho sério, competente e esforçado de pesquiza de campo e de arquivo para encontrar os nossos rastos, tarefa nada fácil dado as poucas pégadas ainda existentes. Ficou muito bem entregue o encargo deste trabalho em boa hora decidido pelo colectivo da Junta de Freguesia. Sem dúvida uma excelente idéia; este estudo, apesar dos escassos vestígios, consegue, com rigor, dar-nos alguma identidade própria no contexto da região circundante.
Também a boa organização e exposiçao dos assuntos, a redacção concisa e limpa de artifícios, são elevado contributo para o convite a uma leitura agradável através da história dos nossos avós familiares. Até os sempre enfadonhos gráficos, mapas, quadros e números ilustrativos, implantados a propósito e adequadamente, não perturbam nada a leitura agarrada, uma vez que os quadros mais pesados foram remetidos para os anexos. Dou a minha impressão elogiosa, contudo, ela pode estar contagiada de sentimento, pois sinto-me parte interessada na história que o livro conta, não o vejo de fora com distanciamento e isso ajuda ao preconceito.
Ficámos a saber que a 1ª referência documental a Nexe está no diploma de D. Dinis de 26 de Junho de 1291(tempos medievais), e que em 1458(tempos de Reforma) houve uma importante reunião algarvia em «Çanta barbara». Em 1479 aparece a 1ª referência ao apelido «Gorjam» no nome de seis importantes contribuintes, sendo um deles o sacador das contribuições para um elevado empréstimo aprovado em Lisboa. O apelido desta importante família gorjonense, segundo hipótese de José Pedro Machado(Ensaio sobre a toponímia do concelho de Faro) que os coordenadores corroboram, terá dado origem ao nome Gorjões.
A tradição oral aponta para que o nome seja muito anterior e com origem numa abundante existência local de pássaros gorjeadores natos, que por esse motivo, os de fora, passaram a chamar terra dos gorjões. Regra geral, um apelido familiar dá nome a um local quando é a 1ª família a implantar-se nesse local. Ora a existência de seis famílias ricas em terras, gado, cereais e frutos secos no local, pressupõe a existência de muitas outras famílias remediadas ou pobres no mesmo local, e portanto um lugar já povoado muito anteriormente. A riqueza possuída pelas seis famílias ricas, naquele tempo, certamente durou séculos a criar-se, não nasceu expontâneamente como hoje acontece.
Aliás, não parece razoável que após quase dez séculos de ocupação romana seguidos de mais cinco séculos de ocupação islâmica, ainda subsistisse locais próximos do mar sem designação. Em Estoi estava o mar e uma figura importante da hierarquia romana. No «Algarão da Goldra» foram encontrados rastos humanos do Calcolítico, os romanos deixaram rastos na Silveira e Poço do Canal, os islâmicos também deixaram rasto no Poço do Canal e deram nome a Benatrite, locais próximos. Sabemos que estes dois povos eram, civilizacionalmente, os mais avançados na época, e se andaram por aqui, não chamaram nomes aos locais?
As hipóteses do nome Gorjões proceder do nome «gorjão», pássaro ou apelido de família, é um produto de imaginação, e como esta é maior que Deus, pois este criou um mundo e eu pela imaginação posso criar quantos mundos quizer, imagino que o apelido «dos Gorjões» ou «a dos Gorjões» é consequência e não causa.
Mas a discussão é irrelevante perante o facto novo de, a partir de agora, haver uma postigo aberto para o nosso passado comum.

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segunda-feira, dezembro 11, 2006

ESTRADA DE SANTA BÁRBARA DE NEXE

CÂMARA MUNICIPAL DE FARO

Exmos. Senhores Edis,

A freguesia de Santa Bárbara de Nexe é a única do concelho de Faro que está alcandorada sobre a cidade, sobre a Ria e sobre o Mar a cerca de 300m de altitude e fica apenas a 10Km da cidade capital do Algarve. Em qualquer pequeno carro utilitário são 10 minutos para alcançar a sede da freguesia. Seriam, pois que no caso presente serão mais e sobretudo com aumentadas possibilidades de graves riscos para a saúde do carro ou para a própria saúde do condutor e passageiros.
Como já devem estar a pensar estou a falar da estrada Municipal nº 520, principal ligação de Faro à nossa Freguesia. Passados mais de 30 anos sobre a promessa Abril, muitos anos sobre um país coberto de Auto-Estradas, IPs, ICs, Vias Rápidas, Circulares, Pontes, Túneis, Aeroportos, Estádios, e prestes a entrar na era da via Linha de Alta Velocidade, é com enorme desgosto que percorro a curta via de ligação à minha freguesia rural e constato que tudo mudou à volta excepto a velha estrada 520. Esta mantem-se obstinadamente na via Linha de Mesma Velocidade, aquela das carroças da pedra, da amêndoa, da alfarroba e dos peixeiros de bicicleta a pedal. Lembro-me quando ia para Faro de bicicleta fazia todo o percurso desviando-me das covas, buracos, poças de pó ou água, pedras, paus, para chegar inteiro e limpo à cidade. Hoje vamos de carro mas as manobras e os cuidados são os mesmos.
Verdadeiramente a velha estrada 520 ficando sempre igual piorou enormemente com a mudança verificada à sua volta. A população aumentou e toda a família, comércio, indústria, serviços, turismo, etc. se desloca em viatura própria. Onde passava uma carroça de vez em quando hoje passam dezenas de carros a velocidades 20 vezes superiores. Onde havia de vez em quando uma portada de saída para a estrada hoje há dezenas de portadas de saída de carros, carrinhas, camiões, velhos e crianças. É verdade, tudo mudou só a 520 não.
Como foi possível que se tenha gasto tanto dinheiro a fazer e desfazer pisos de ruas, largos, fontes, jardins, parques, parquinhos de estacionamento e para a 520 nem um tostão. Como foi possível gastar tanto dinheiro na Ilha de Faro a socorrer a duna, a fazer e desfazer o largo, abonitar o imbonitável, e para a 520 nem um escudo. Como foi possível deixar passar durante anos os apoios comunitários ao desenvolvimento rural, ao saneamento básico, havendo à vista uma estrada naquele estado nas barbas do Município. Não dá para acreditar.
Dá para se explicar: -a total falta de atenção às populações rurais, a total falta de consideração pelas populações rurais, a total falta de respeito devido a quem já sofre do isolamento da interioridade, da falta de meios e serviços à mão, da falta de água e esgotos à mão, da falta de tudo que o citadino tem em casa ou à porta dado e o rural tem de pagar com deslocação e tempo perdido. Contudo o rural paga exactamente as mesmas taxas camarárias que os demais.
É o velho paternalismo salazarista do “cidadenho” sobre o “montanheiro”: este passa bem com a sua courela de barrocal, com o seu hortejo de couves, favas, xixaros, papas, porco, cabras, galinhas e ovos frescos, e neste quadro fica a matar uma bacia turca de obrar sobe a pocilga. Neste quadro idílico para gente sem instrução e, por conseguinte sem necessidades finas, boas estradas, bons caminhos, bons acessos, água, luz, esgotos, etc. são pérolas por bolotas. Esta cultura mental do tempo do velho sen(il)hor durou, durou e dura ainda apesar da Europa Connosco.
Sei que tudo estava por fazer mesmo na cidade e que planear exige prioridades. Compreendo que eleições ganham-se com votos e estes estão concentrados nos dormitórios das cidades. Percebo que os meandros dos negócios criem redes e grupos de pressão à roda da política e dos políticos difíceis de contornar.
Mas alguém em perfeito juízo entenderá que um Município que possui a Capital Distrital tenha às porta da sua cidade povoações sem água nem esgotos e com acessos quasi intransitáveis? Que tudo isto aconteça nas barbas duma população rural que vê os seus Edis gastarem rios de dinheiro com um clube de futebol falido? E cegos, com o mealheiro já derramado no clube, acabam por bater com o mealheiro meio vazio no pedregulho mastodôntico inutilmente enfeitado para estádio de futebol do tal clube falido.
Penso que a extrema mais longa do nosso concelho se situa aqui nos Gorjões, isto é a 15kms de distância. Numa cidade que queira ser uma capital distrital que vise o futuro, que tenha ambições de alargar a sua área de influência, que faça sentir a toda a volta o peso do seu desenvolvimento, que seja um pólo de atracção para toda a região, tem forçosamente de entender que toda a zona envolvente até ou mais de 15kms à sua volta deve ser considerada seus arredores. No caso de Faro todo o resto do concelho deveria ser olhado como tal, arredores para sua futura expansão habitacional, comercial, industrial, cultural, desportiva, etc. Edis com vistas largas, optimistas quanto ao futuro da cidade, deveriam desde já começar a acreditar nessa possibilidade e iniciar o planeamento nesse sentido. O primeiro passo seria abrir vias rápidas modernas até às sedes das freguesia rurais como estrutura base, que só por si arrasta o resto. Claro que essa obra mãe não pode deixar de levar no ventre as redes de todas as necessidades já consignadas na carta do cidadão europeu.
Nem só de praia, sol e bom tempo pode o algarvio viver sempre, até por que o clima está a mudar e a amêndoa, o figo e a alfarroba foi chão que deu uvas, e uvas hoje é no Alentejo.

José Neves

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