segunda-feira, janeiro 01, 2024

ACERCA DO HUMANO

                          

APESAR DA MORTE

 

O humano na origem mal concebido

continua sujeito da má concepção

do criador que por acaso ou ocasião

leva primeiro deste mundo o imerecido.


Que omnisciência é essa que não julga

pelo justo ou escolhe pelo merecimento

e antes determina segundo o momento?

Ou será ciência oculta que não divulga?


Ou será que precisa de massa-cinzenta

como substrato nutritivo que alimenta

sua omnisciência divina e esta exorte

todo aquele que belo de ver e de ser

alcance o tão almejado merecer

de livrar-se de morrer, apesar da morte.

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terça-feira, junho 12, 2012

A CORRERIA OBSCENA


Neste Lugar há uma correria de mortos
com vivos atrás, velhos curvados tortos
trôpegos, sem os filhos nem os netos
vão aos funerais e vê-se-lhes nos rostos
a tristeza de seus pensamentos concretos
olhando no vazio o amigo, o parente
o familiar encaixotado, exactamente
um homem bom a partir daquela exacta
passagem ao não ser, o que foi diligente
lutador de força e vontade dura, magnata
de força e suor vendidos a preço de caganita
caída como migalhas da mesa circunscrita
à elite que decide da condição e ordena
a escala descendente do pote à marmita,
do palácio à barraca, da justiça e da pena
num teatro de sombras e actores em grita-
ria nesta correria infernal, louca e obscena.

Divina, a correria continua, a vida persegue
o fito da natureza, exige que não vergue
a vontade da espécie para que garanta
primeiro a santa natureza e esta pegue
pelos cornos o direito inicial dado à santa
existência da espécie com qualidades
cognitivas e racionais capaz de vontades
individuais e colectivas, e finas filosofias
do ser e não ser, imaterialidades
guiando o existir para o sonho e utopias.
E qual rio de água atrás de água desagua
perdida na água, tal correria continua
feita de vivos atrás de mortos e, sem cura
todos irão desaguar numa longa rua
sem nome perdida no tempo, casa futura
de toda puta de vida: todas, a minha e a tua.

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quinta-feira, novembro 17, 2011

0 BURACO NEGRO

ONDE TUDO QUE FOI, É NADA.


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A vida é uma faísca na noite que arde
correndo veloz e logo se apaga.
É folha leve solta ao vento que caia
do alto da montanha e cedo ou tarde
tomba na terra. É onda que foi vaga
altiva feita espuma no areal da praia.
É um ar que dá, apanha e passa veloz,
um ar que deu que bate e foge,
um fugaz encontro connosco a sós
com o tempo que nos circunscreve
futuro e passado, que eterno e breve
todo impassível tudo reduz a hoje.
É o tempo breve de uma alegria
bela seguida de um violento queixume.
É o relâmpago que brilha um dia
instante no meio do eterno negrume.
É o brilho que já vi em tanta fala,
tanto olhar, tanto amor e tanta praga,
que já vi no ouro e na caca rala,
na luz e na sombra, no risco da bala
luzente que mal se eleva cai e apaga,
na luz divina e luz dos homens a negá-la,
em tudo que terra iguala e tempo traga
pelo buraco negro e boca desdentada
sem fim onde tudo que foi, é nada.

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sábado, fevereiro 26, 2011

DESDE SEMPRE QUE...


Desde sempre que a terra é Terra e o homem
é Homem sabe-se que estes comem
e cagam necessáriamente. Nos intervalos
cobrem fêmeas usam pensamentos
cogitam criam artes produzem inventos
erguem maravilhas a pedra e calos
unem-se no sangue defendem a Cidade
gloriosa de grandeza de imortalidade
dos heróis e do belo erguido como hino
merecido dos valores da sabedoria da razão
sobre os medos os mistérios a opinião
caduca de quem dita e fixa o destino.
Desvendam a Natureza descobrem a Ciência
despem feitiços totems augúres dão falência
de deuses de Deus da História criam utopias
novas novos desastres novas lutas novos
regressos avanços recuos saltos dos povos
rumo à civilização da felicidade a dias.
É quase um Deus está em toda a parte
paira em órbita foi à Lua quer ir a Marte
ao interior da mente do livre-arbítrio do
metafísico conhecer o futuro criar pérolas
em tubos de ensaio por fusão de células
quer ser tudo saber tudo pôr tudo a nu.
É já mesmo o Rei supremo da Natureza
qual deus bicho no poleiro de sua grandeza
rasteira de Ícaro de asas falsas remetido
contra vontade à condição de rastejante
animal de serviço à existência servil perante
carnadura que para estar de pé e ter sentido
não dispensa essa necessidade de vida rasca
inerente de comer e cagar onde se atasca
até à morte apoteose da grande cagada
final deste deus menor zero à esquerda
sujeito à servidão da sombra sem apelo
nem escape que reproduz o eterno modelo
inicial em moto-contínuo a desgraçada
máquina humana produtora de merda
e alimento fonte de uma relação produtiva
saída de entre sua luta de classes força-viva
da massa-crítica do trabalho criativo prémio
único dado em géneros, pensamento e génio.

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domingo, janeiro 09, 2011

O MISTÉRIO DAS COISAS VIVAS

ÁPIS, O BOI SAGRADO

Como aprenderam as vacas a nadar ao sabor da corrente caudalosa do Rio, tão suave e tranquilamente sem pesadelos de morte, como se fizessem parte da mesma natureza da água, e caminhassem com nobreza para mais uma pastagem verdejante e fausta.
(visto na tv)


Queria conhecer o mistério submerso
sob a pele das coisas vivas.
Queria conhecer o mistério universo
do amor e suas forças atractivas.

Queria conhecer o mistério e sentido

necessário da matéria inerte.

Queria conhecer o mistério do vínculo

animal que sabe sem ter aprendido.

Queria conhecer o mistério do circulo
vegetal tão fiel que nada o subverte.
Queria conhecer da alma do espírito

o mistério como funciona.
Queria conhecer do tempo o veredicto
futuro do hoje à tona.
Queria conhecer porque é o bicho

sempre uma personagem maior
que sua aparente figura.
E porquê o homem de razão e cochicho

fácil gravita sempre ao redor
duma personagem sacana:
ora acima de sí, ora sem estatura,
ora fora da sua real moldura humana.

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segunda-feira, outubro 04, 2010

AO TEMPO PRESENTE

PRANTO PELO DIA DE HOJE
De Sofia de Melo Breyner
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NUNCA CHORAREMOS BASTANTE QUANDO VEMOS
QUE QUEM OUSA LUTAR É DESTRUIDO
POR TROÇAS POR INSÍDIAS POR VENENOS
E POR OUTRAS MANEIRAS QUE SABEMOS
TÃO SÁBIAS TÃO SUBTIS E TÃO PERITAS
QUE NEM PODEM SEQUER SER BEM DESCRITAS.

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sexta-feira, abril 10, 2009

TEMPO ABRIL


CANTO UM
A guerra matava matava durava sem
saída e o povo roto metade refém
amordaçado à força e outra metade
fugindo em busca de pão e liberdade
disse basta e um dia madrugada cedo
perdeu o respeito despiu o medo
vestiu-se de Soldado e sem pavor
foi pedir contas ao mandante-mor
que fôra forte mas agora borrado
tremia fraco frente ao Soldado.
Estava lá vi o Carmo e Trindade
cair sob gritos e cânticos à liberdade
libertada enfim de grades chicotes
balas pides bufos judas iscariotes.
Caladas as sombras e vozes zum-zum
clarões de vivas e rubros archotes
floridos foram poetas e deram motes
líricos à epopeia: Liberdade, Canto Um.

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