terça-feira, fevereiro 03, 2009

NOTÍCIAS DO PAU XIV


À CONVERSA COM A "REDACÇÃO"
Passei pela "redacção" do "Jornal do Pau" e fiquei um tempo à cavaqueira com o pessoal que alí, diáriamente, contam as suas histórias da emigração ou de moços do campo ou de trabalhadores rurais das terras ou discutem a situação "porca desgraçada" actual do do país e do mundo.
O Zé Apolo, dizia que ainda havia de voltar a ser tudo como antigamente, todos tinham de voltar a semear as terras e apanhar os frutos das árvores, mas depois lembrou-se do "ambiente" que agora não deixa arrancar as pedras nem moitas, nem silvados, nem arbustos nem nada e perguntava: - como é que se pode lavrar e semear as terras se não se pode limpá-las? -.
No seguimento do seu raciocínio perguntava-me: - todas as "fazendas" por aí, estão cercadas de valados altos ou grossos e alguns são altos e muito grossos chamados "maroiços", e donde vieram essas pedras? Foram os antigos que de sol a sol e à força de braço e enxada, fizeram dos matos terras de lavrar, das pedras arrancadas os valados e maroiços para as "marcar" -. E continuou: - os antigos fizeram muito pelos modernos e os modernos o que fazem pelos que hão-de vir? -.
E rematou: - o "ambiente", o "ambiente", se a fome voltar e a gente não puder semear as terras eu quero ver o que é que o "ambiente" vai comer! -.

Etiquetas:

segunda-feira, maio 19, 2008

NOTÍCIAS DO PAU XIII


Estava reunida a redacção do "jornal do pau" quando passei por lá e fiquei a saber que se falava de um dos casos na ordem do dia: o aumento dos combustíveis.
No meio das queixas gerais o Zé Barros, filho da Ti Barba Rosa, sempre bem disposto e cheio de bom humor para furar conversas de desgraças, rematou:
-Eu cá não me importo nada com o preço da gasolina, quer ela baixe ou suba meto sempre 1o euros no depósito-.
A conversa mudou logo para um tom mais prazenteiro, cada um comentou o dito no mesmo registo e antes do pôr do sol cada qual foi para sua casa mais bem disposto. O "jornal do pau" vale mais que um milhão de psicólogos.

Etiquetas:

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

NOTÍCIAS DO PAU XII



NO JORNAL DO PAU NÃO HÁ PITAGÓRICOS

Há dias no jornal do pau estavam todos descontentes com a falta de chuva para fazer nascer, crescer e encher as favas semeadas no quintal da casa. Agora que já choveu bastante parecem bem mais contentes e dizem que, agora pode vir sol e depois mais chuva para haver um bom faval no hortejo caseiro.
Entretanto estava lendo "Ísis e Osíris, os Mistérios da Iniciação" de Plutarco quando encaro logo no cap. 5 que, "... os sacerdotes de Ísis sentem horror por tudo o que é segregado, que chegam a abster-se não só da maior parte dos legumes como da carne de cordeiro e porco". Nos legumes vem logo como do piorio as favas pois segundo Heródoto, "...Em todo o Egipto não se semeiam favas , se são servidas não se comem nem cruas nem cozidas. Os sacerdotes não suportam o seu aspecto por considerarem esse legume impuro". Segundo Plínio, "...As manchas quase pretas da flôr das favas era considerada como característica de luto".
Já tinha lido algo parecido acerca de Pitágoras que parece copiou tais preceitos dos egípcios quando por lá andou e legislou sobre eles em Crotona. Fui consultar os meus arquivos sobre os pitagóricos e realmente lá estavam as recomendações contra as favas. Aristóteles em "Sobre os Pitagóricos" diz que, " ...Pitágoras prescrevia a abstenção de favas , tanto por elas se asemelharem às partes pudendas, como por serem destrutivas ou serem oligárquicas dado que os governantes eram tirados à sorte por meio das favas". Indro Montanelli na sua superficial "História dos Gregos" diz , " ...Porque é que embirrava tanto com as favas , nunca ninguém percebeu: se calhar porque ele não gostava". Depois conta a história mitológica de Pitágoras que "tirano iluminado de Crotona" foi alvo duma revolta do povo, e perseguido fugiu em cuecas e foi parar justamente a um campo de favas. Com o ódio que tinha às favas recusou esconder-se nelas, foi descoberto e morto". Tinha 80 anos e posto a salvo os seus "Comentários".
2500 anos depois, aqui no jornal do pau, bem podia Pitágoras vir pregar os malefícios das favas que nem um único seguidor achava. Aqui, todo o mundo acha as favas à nossa moda, um delicioso manjar dos deuses e sem o perigo de engordar para que a alma não seja entalada e apertada pelo peso do corpo, como consideravam os sacerdotes de Ísis do Egipto. Realmente aqui não só não há pitagóricos como nem sabem o que isso é, assim poderão continuar a deliciar-se à vontade todos os anos de bom sol e boa chuva propícios aos favais.

Etiquetas:

domingo, fevereiro 17, 2008

NOTÍCIAS DO PAU XI


Em Lisboa um amigo, filho de lavrador e familiar de lavradores dos barros de Beja, dizia-me que os trigais, face à falta de chuva e tempo quente e seco, ainda rentes ao chão e já estavam a definhar amarelecendo e espigando com bagos falidos.
Chegado aqui fui ao "jornal do pau" saber novidades e a conversa era igualmente a falta de chuva para fazer crescer e encher as favas, os griséus e os xíxaros de semeadura e consumo doméstico. As semeadas cedo, tal como o trigo no Alentejo, já estão em flôr e a dar vagens falidas, e as semeadas mais tarde nem sequer nascem devido à falta de chuva. Algumas leiras destas últimas ainda podem ser salvas com rega doméstica, e sê-lo-ão certamente, pois não tem preço o gosto e gozo de ver o fruto crescer, apanhá-lo e comê-lo limpo de bombas fertelizantes, com o seu sabor natural totalmente retirado da mãe terra.
Claro, em Lisboa, os leitores de teleponto dos telejornais continuan a anunciar dias bons de sol sem chuva, óptimos para fim-de-semana. Já era altura de educar o citadino que, embora os portugueses vivam em parte do turismo não comem turismo, nem há economia nem ecologia nem turistologia sem água.

Etiquetas:

quinta-feira, dezembro 13, 2007

NOTÍCIAS DO PAU X


GORJÕES ANTIGO, OS BAILES

Segundo o Tio Cascalheira, que já conta 86 anos e que em rapaz corria os bailes todos das redondezas porque era bom dançarino e namoradeiro, houve aqui no nosso lugar muitas casas "que traziam balho" no seu tempo, princípios dos anos 30 do século passado.
Era já rapazote, entre 12-15 anos, e diz que o primeiro baile de que se lembra e frequentou foi o do "Tio João Apolo Cigano no armazém da Isabelinha", hoje chamado "armazem do Zé Caiado", no desvio para a Goldra de Cima, e que era propriedade de António de Jesus.
Depois começou a frequentar o baile no armazém do meu tio João Pinto, mais tarde do meu tio Adelino Pinto após a morte do irmão, aqui no cruzamento do lugar do Alto, corria o ano de 1935-36. Nesta altura, também trazia baile o "Dólas" (Joaquim de Jesus) no seu armazém novo no lugar do Poço Arranhado. Nos finais da década de 30 traziam baile o Tio Sebastião, no lugar de Santa Catarina, e o seu genro Tio António Veneranda aqui próximo do Alto. Lembra-se o Tio Cascalheira que ainda foi ao baile no armazém do Zé Bento, no desvio para a Goldra de Baixo e Loulé, e que quem trazia o baile era o Tio Manel Sobrado e Xico Pedro "o Bravo", grandes ases do "jogo do teso".
No princípio dos anos 40, juntaram-se aqui no lugar do Alto, que já se tornara a centralidade do sítio, alguns Mestres pedreiros, ferreiros, capatazes de estradas, barbeiros, carpinteiros, proprietários de sequeiro, acordeonistas, etc., que tinham em comum ter frequentado a escola e sabiam ler e escrever escorreitamente, alguns com a 4ª classe de 6 anos tirada na 1ª república, outros tinham estado em França para combater nas trincheiras da Flandres em La Lys, os quais pertenciam não só a uma nova geração como a uma geração de novos conhecimentos, novos costumes e modernidades. Estes homens juntaram muito tempo e esforços a reunir e organizar todos papéis necessários para requerer oficialmente e abrir legalmente uma Sociedade Recreativa Gorjonense em 1943, em plena 2ª guerra mundial.
Com a abertura pública, a sócios e não sócios, da SRG terminaram os bailes à moda antiga, em armazéns sem regras, onde se ia "balhar", "beber à homem" e no final jogar ao "jogo do teso" para acabar tudo à bordoada depois de mandarem as mulheres e as moças para casa. Foi um grande passo civilizacional e social para o sítio, embora tenham ficado para trás os bailes de roda e bailes mandados primeiro e os bailes de concertina depois. Nascera os bailes abrilhantados por famosos acordeonistas locais, onde todos deviam apresentar-se e comportar-se com "preceito", não era permitida a entrada a bebados, cuspir no chão ou ter o chapéu na cabeça na sala de baile. As moças começaram a fazer permanentes, os moços a fazer ondas e usar brilhantina e eram motivo de chacota se vestiam peúgas ou sapatos rotos. Os pares podiam dançar mais apertados e as pernas peludas das moças deixaram de ser sexualmente atractivas.
Hoje o Grupo Folclórico e Etnográfico Gorjonense ao representar os bailes de roda e mandados de antigamente, dá-nos uma idéia acéptica dessas danças, jamais lhes restituirá o seu ambiente próprio à luz do petróleo, ao cheiro do vinho e aguardente e do suor dos corpos sujos de terra.

Etiquetas:

quarta-feira, novembro 14, 2007

NOTÍCIAS DO PAU IX


Esta tarde fui à redacção do jornal do pau saber notícias do lugar acerca do Clube Recreativo e Cultural. Na passada sexta feira reunira a Assembleia Geral para aprovação de contas e para informações sobre o estado actual do projecto para a construção da sede e salão para as actividades do Clube Gorjonense. Fui informado da pequena comparência de sócios o que parece indicar algum desinteresse pela causa ao contrário da incansável direcção que luta para levar o projecto avante e valorizar o sítio.
Finalmente todos os projectos estão aprovados e em condições de solicitar orçamentos para execução dos diversos trabalhos. Tratando-se de uma obra de cariz inteiramente social para servir populações práticamente abandonadas no fundo do interior do concelho não se justifica, de forma alguma, que a CMF leve anos a aprovar um tal projecto. O que este pequeno sítio se propõe fazer, sendo uma necessidade do povo local, deveria ser da iniciativa da própria Câmara, não o sendo deveria a Câmara apandrinhar e ajudar por todos os meios a população a obter o mais rápido possível o seu objectivo. A cidade continua a olhar para o campo do mesmo modo que o citadino olha para o sem abrigo; uma casa de cartão e uma sopa dos pobre chega e sobra. O campo não pode ter a casa dos seus espectáculos e costumes tradicionais, mas a cidade pode ter um belo e grandioso teatro para uma pequena elite cultural que arrasta atrás uma vistosa passerele de socialite telenovelesca.
A estimativa dos projectistas leva os custos da obra para verbas muito para além das possibilidades do povo local. Vamos ver o que a CMF vai fazer para ajudar a pôr de pé este tão grande projecto para tão pequeno povo, tendo em conta que a vontade e união de esforços representa a força mais considerável.

Etiquetas:

segunda-feira, junho 18, 2007

NOTÍCIAS DO PAU VIII

O HOMEM, O COELHO E A RAPOSA

Hoje, na redacção do Pau o Reinaldo contou a história, quando ele era moço e antes de ir para a França, do pai do João da Caseira que tinha semeado griséus junto de casa perto do mato e que, com medo que os coelhos os comessem colocou dentro do terreno de semeadura um espantalho gigante, cabeçudo, entroncado e de altas pernas vestido de calças para espantar os coelhos.
Com tal argumento dissuassor dormiu tranquilamente muitas noites e pôde ir trabalhar descansado muitos dias sem se preocupar com o estado da seara. Quando se lembrou que os griséus já deviam ter rebentado fartos e bonitos sob a protecção do guardião de palha, foi dar uma espreitadela pela plantação. Quando verificou que os griséus estavam bastante comidos dos coelhos ficou irritado e voltando-se para o espantalho chamou-lhe nomes e quase o deitou abaixo. Nesse instante ouviu guinchar sob os pés e reparou que tinha pisado uma ninhada de cassapos nascidos e criados entre as pernas do espantalho inofensivo.
O Homem pensou preservar a seara dos coelhos com o espantalho assustador. Os Coelhos pensaram no local ideal para boas refeições e protecção das suas crias face às raposas. Das raposas já se sabia que eram ardilosas mas pouco inteligentes desde a velha fábula: ... estão verdes não prestam. Dos coelhos não se suspeitaria que fossem mais inteligentes do que o homem, mas também não é de admirar. Do homem esperar-se-ia capacidade de entender os coelhos.

Etiquetas:

quinta-feira, maio 24, 2007

NOTÍCIAS DO PAU VII

DE OVÍDIO A VIRGÍLIO

Qual a duração de um costume antigo, de um provérbio popular, de uma tradição oral, de uma oração milagrosa, da crença num feitiço ou nos efeitos de artes mágicas? Séculos, milénios?
Há dias tinha lido em um dos seus poemas do livro "Amores" de Ovídio, uma referência às artes mágicas de Circe, assim: "... ela conhece bem o poder das ervas, o poder dos líquidos segregados pela égua em tempo de cio".
Agora calculem qual o meu espanto quando, dias depois, fui até ao jornal do pau, aqui nos Gorjões, e no meio da conversa, o Virgílio "Furgena", quando lhe perguntaram se não queria feno para dar às cabras que ele tinha em casa e guardava pelo campo, respondeu: "...quais cabras, só tenho uma e não sei se ela escapa, já morreram duas e tenho outra a morrer em casa. Fui com elas para um nateiro junto ao mato, comeram erva mijada por ouriça prenha ficaram logo doentes, não há salvação".
Que dizer desta similitude evidente entre estas duas opiniões com dois milénios de interválo entre elas? E como se ligaram através dos tempos a opínião de um dos homens mais cultos da época augusta romana com a opinião de um homem actual quase analfabeto? O poder curativo das ervas já era conhecido desde os muito antigos e o conhecimento das doenças através da urina foi teorizado por Hipócrates, mas a idéia dos malefícios da erva molhada de urina de animais em determinado estado sexual, só tem sentido na crença em feitiços e artes mágicas mitológicas.
Ovídio e Virgílo "Furgena", o poeta e o pastor, juntos invocando o mesmo desgosto; um por amor de Corina o outro por amor das cabras.

Etiquetas:

segunda-feira, abril 30, 2007

NOTÍCIAS DO PAU II

1º DE MAIO

No jornal do pau o pessoal comentava o Dia de Maio de amanhã e fazia comparações entre hoje e antigamente.
Os artigos deste jornal oral produzido por uma redacção toda sentada junta sobre o pau, também de apanhar sol além da cavaqueira sobre a actualidade e memórias de trabalho duro e emigração a salto ou carta de chamada, comentavam hoje acerca do Dia de Maio e como se tinha perdido a tradição de festejar o Maio. Os mais velhos contaram como era: O dia começava de manhã cedo com os vizinhos, em jejum, indo a casa uns dos outros para "atacar o Maio". O ataque era efectuado com figos secos, bolos e aguardente de medronho que não se podia recusar. Toda a gente oferecia bolos e aguardente a toda a gente de modo que quando acabava o ataque já havia alegria e cantares na rua.
Após este ataque matinal em jejum, tinha de ser em jejum senão não tinha valia, homens, mulheres, moços e moças, preparavam os almoços da melhor merenda para ir comer para o campo, normalmente junto de algum moinho de vento no alto dum cerro e à sombra de árvores frondosas como pinheiros ou alfarrobeiras. Nesses locais compareciam acordeonistas com o "foles" e após tudo bem comido e bebido soltava-se a alegria do bailarico no terreiro entre pares de namoricos, solteiros e casados, pais mães e avós. Os pequeninos também lá estavam para brincar e vibrar entusiasmados com a alegria reinante de que gostavam imenso e os fazia sentir a vontade de querer perpectuar a tradição.
Contudo, a emigração e a mudança da estrutura familiar baseada no cultivo da terra e apanha dos frutos secos, para uma família baseado no trabalho na construção e no turismo, criou hábitos individualistas com preocupações culturais mais urbanos e a tradição foi perdendo-se gradualmente. Mas a lembrança desse tempo ainda vive e em Bordeira, nos últimos anos, um pouco á semelhança dessas festas do Maio, recriou-se um arraial popular no campo com borrego assado, bebidas e acordeonistas que recordam muito a genuina tradição. A festa rija antiga do Maio era uma recompensa dum ano duro de trabalho, hoje em dia as condições e ritmo de trabalho mudaram e a festa também.


Etiquetas:

sexta-feira, abril 27, 2007

NOTÍCIAS DO PAU I


NOTÍCIA DO DIA

Nos Agostos o cão de raça do Izidoro do mini-mercado atacou-o e mordeu-o e quando a mulher o foi socorrer foi também atacada. Foram os dois parar ao hospital de Faro para fazer a cura das "morzadas" do cão que criaram.


HISTÓRIAS DA EMIGRAÇÃO

Contada pelo Reinaldo:
O Manel da Patã que trabalhou comigo em França contou-me que no seu primeiro trabalho em Paris decorou o caminho que tinha de fazer para não se enganar; tomava o metro perto de casa e saía naquela estação que tinha um grande retrato duma vaca. Ora o retrato da vaca era um cartaz publicitário e no dia que o cartaz foi substituido o Manel andou a manhã inteira no metro, para trás e para a frente, à procura do retrato da vaca.
A partir daí todos os dias os emigrantes colegas de trabalho à sua chegada diziam; olha o Manel hoje encontrou a vaca!


Contada pelo Policarpo:
E o meu pai, que não sabia ler, contava as estações uma a uma para saber em qual tinha de sair e poder chegar a tempo ao trabalho todos os dias.

Etiquetas:

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

GORJEIOS III

PENSAMENTOS ILETRADOS

Da minha prima Cecília:
-Os gordos são os que andam com as refeições adiantadas e os magros os que andam com as refeições atrasadas-.


de Joaquim de Jesus Clara(Dólas):
-Ir ao cinema é o mesmo que ir ver bonecos mortos-.

Etiquetas: