domingo, dezembro 26, 2021

DEIXEM QUE A HISTÓRIA DECIDA, PORRA.

 

Oh! Vós acusadores fanáticos da pós-verdade

histórica que não escutais vossas ficções

contadas e cantadas como loas à identidade

que apregoas certa mas afinal só metade

o é e a outra é falsa e é fonte de opiniões

pós-verdades gizadas de tua espúria fidelidade.

 

A vossa pós-verdade oculta é feita de partes

das quais apenas uma tomas por verdadeira

a qual insistes ficcionar e narrar com artes

milenárias de palco encenadas com encartes

de velhas pós-verdades históricas à maneira

de profetas, mágicos e deuses como Martes.

 

As vossas pós-verdades feitas de promessas

de futuros de festa e alegria permanente

tal como tantas já feitas viraram de avessas

o compromisso repetindo sempre mais dessas

pós-verdades iludindo mundos de gente

com profecias, livros, ficções, teatro e peças.

  

Impingiste narrativas falsas que são eternas

sem parar e queres continuar impondo

novas pós-verdades, ficções pós-modernas

invertendo verdades e factos de pernas

para o ar na ânsia de seres o deus redondo

liso do mundo a ditar os heróis e os palermas.

 

Vós quereis ditar à força de tanto ficcionar os factos

quem esteve certo e foi herói e quem foi cobardola,

se o pensante exilado ou os embarcados fracos,

se o de fala de combate ou o de combate nos matos,

se o combatente que deu a vida ou o que deu à sola.

A história decidirá entre o sangue e os fala-baratos.

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quarta-feira, dezembro 14, 2011

AOS COMBATENTES DE SANTA BÁRBARA DE NEXE, MINHA TERRA

Como pedido pelo Sérgio, Secretário da Junta de Freguesia, afim de figurar inscrito, no todo ou em parte, num pequeno Memorial de homenagem aos Combatentes de Santa Bárbara de Nexe na Guerra Colonial.


Poema para memória de Combatentes da Freguesia

Frente ao perigo de vida ou morte o momento - prova
d’Homem - acontece.
Corpo e alma disputam coragens, despem o que parece,
são heróis nus à espreita, ela do céu ele da cova.
Nada lhes vale bradar aos céus, lamento, súplica prece,
gritar imprecações, sob metralha nada há que comova.

Deixámos a bela juventude, paz e arte de nossos ofícios,
alegria na Aldeia, doces amizades.
Ignoravamos se o império era tirania ou liberdades,
exigiram-nos sangue e sacrifícios.
Submetidos obrigados não discutimos justeza e maldades
da guerra, puros sem ideais, honrámos nobres princípios.

Dignos são de memória e honrosa nomeação inscrita
na pedra, mensagem ao vindouro nexense,
testemunho de filhos valorosos que houveram, pertence
comum de nosso chão amado, terra ínclita.
Tributo merece todo combatente que vencido vence
guerra e tempo, por cumprir acima do que o dever dita.


José Neves
Furriel Miliciano, Angola 1961-1963
Gorjões, 15.02.2011

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quarta-feira, agosto 10, 2011

MEMÓRIA DE 10 DE AGOSTO DE 1961(*)


NAMBUANGONGO

Percorreram-se, desde Zala a Nambuangongo, 44 quilómetros de marcha contínua, realizando-se a progressão em lances alternados, com o apoio do pelotaão de artilharia que progrediu por escalões. Atingiu-se Nambuangongo às 9 horas de 10 de Agosto de 1961. Durante o percurso levantaram-se imensos "abatizes", destruiram-se instalações inimigas e beneficiou-se uma antiga passagem a vau no Rio Uembia, a 6 quilómetros do objectivo final, por a ponte existente se encontrar danificada, não permitindo o trânsito das viaturas.

Na povoação de Nambuangongo fez-se a ligação com o Batalhão de Caçadores nº96, que alí se encontrava desde as 17 horas do dia 9 de Agosto de 1961, procedeu-se à instalação do pessoal do E. Cav. 149 e deu-se-lhe merecido descanso.

Eram percorridos 180 quilómetros desde Ambriz, numa estrada eriçada de dificuldades, onde campeavam "abatizes" e valas que foi preciso remover e tapar; beneficiaram-se e construiram-se vários pontões; e transitamos por uma zona de população indígena sublevada e activa, como verificamos pelo número de acções realizadas. Mas, com uma vontade férrea, feita à custa de sacrifícios, de auto-domínio e da orientação imprimida pelo comandante da coluna, atingimos, em 16 dias, a que outora fora a povoação de Nambuangongo, transformada em escombros pela fúria destruidora do inimigo.

Sentiamo-nos cansados, mas felizes e cada um de nós fervilhava de orgulho por ter sabido cumprir a honrosa missão para que fora chamado.

Ao contrário do que aconteceu com as outras unidades que progrediram em direcção a Nambuangongo (Bat.96 e Bat.114), que sofreram ataques em massa, o Esq. Cav. 149 não permitiu esses encontros. Foi das três, a unidade mais rápida a progredir e, além disso, actuou no sistema de não criar hábitos que pudessem servir de referência ao inimigo. Nunca estacionou mais de três dias na mesma posição e iniciou a técnica da progressão nocturna.
Estes aspectos, aliados ao tiro de reconhecimento e ao tiro de apoio realizado pelo Pelotão de Artilharia 8,8, durante a progressão, o efeito de surpresa alcançado pelas acções realizadas contra o quartel da Cavunga, devem ter provocado ao inimigo não só desmoralização, como não permitiram a sua organização eficaz, pelo que este passou a actuar no sistema único de emboscadas, servindo-se de abrigos, ou beneficiando das condições do terreno, furtando-se a todo o contacto.

(*) - Do livro "História do Esq. Cav. 149" do Ten. Mil. Médico, Dr. João Alves Pimenta.
Editado em Luanda, 1963.

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quinta-feira, junho 09, 2011

CES, OS FILHOS DA GUERRA COLONIAL


Já recebi convite do CES e só por motivo de força maior não estarei presente. Na qualidade de combatente (qual ex-combatente qual carapuça, nunca os monumentos, murais ou memoriais foram dedicados a ex-combatentes, nem quem escreve livros sobre a guerra o faz na pessoa ou qualidade de ex-isto ou ex-aquilo), do 1º ano de guerra e de quem já escreveu sobre ela, será com muito gosto que me deslocarei a Liboa para participar.
Para mais, estando incluido com dois poemas na "Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial" que vai ser lançada neste evento, aí estarei obrigado e atentamente.

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quarta-feira, junho 01, 2011

PRIMEIROS COMBATENTES GORJONENSES, 50ANOS

Realiza-se hoje o habitual encontro de confraternização dos primeiros militares gorjonenses enviados para Angola em 1961, para combatentes na Guerra Colonial.
Faz, neste mês de Junho, 50 anos que embarcámos no "Vera Cruz", apinhado de Soldados em tarimbas de madeira e colchão de palha desde os porões até ao céu passando pelos corredores e átrios do belo paquete.
Todos seis sobreviventes da Guerra e ainda do tempo, três estão com "baixa" médica e não podem comparecer. Iremos fazer-lhes uma visita a casa e levar-lhes velhas histórias do tempo de Guerra e novidades recentes deste insondável tempo de Paz.


AO SOLDADO GORJONENSE NA GUERRA COLONIAL*

Deixámos as nossas casas e familiares

A nossa Aldeia e nossos ofícios

Jovens e puros sem vícios

Mandaram-nos para escolas militares

Aprender sobre guerras e sacrifícios

Que viver é entre morrer ou matares.


Deixámos doces amizades e lugares

Os nossos costumes e festas

Jovens ingénuos limpos sem arestas

Fomos metidos em barcos e mares

Obrigados como bestas

Sob o jugo do voltar ou não voltares


Andámos aos tiros de morte ou vida

Vivemos com a morte lado a lado

Fomos o ínclito Soldado

Lutámos por uma causa perdida

Demos tudo e nada nos foi dado

Somos sobreviventes de mão estendida.


José Neves

Gorjões, 31.05.2011

(*) - No 50º aniversário do início da guerra e nossa participação

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quinta-feira, março 03, 2011

CAMARA CLARA-ESCURO

CORTINA MIRABOLANTE (Nikias Spakinakis)

Estamos já em plena marcha acelerada para mais uma falaciosa conversa mediática sobre a guerra colonial para "assinalar" o cinquentenário do rebentamento dela em Angola.
O sinal visível de que se pretende transformar a Guerra, a real, a que se passou no terreno, as acções dos homens e das Unidades Militares, factos causas e factos consequências, em interpretações literárias sobre a Guerra, foi a conversa vista no programa cultural "Camara Clara" da RTP2. O jornalista Joaquim Furtado, o ex-ministro salazarista do Ultramar Adriano Moreira e a dona do programa, juntaram-se à volta de uma mesa repleta de livos. E encetaram, continuaram e encerraram a conversa à volta da Guerra esgrimindo as várias interpretações dos autores desses livros.

Provavelmente alguns desses autores nem estiveram lá e outros, muitos, mais provavelmente ainda, passaram pelos Serviços de Intendência ou Administrativos da Guerra e ouviram falar de histórias ou opiniões de guerra por terceiros que depois ficcionaram ou fantasiaram. A Guerra Colonial começa a transmutar-se na "história da guerra colonial" segundo as diversas interpretações dos factos e usos pessoais de estilizações literárias em proveitosas edições comerciais.

Ainda os protagonistas e testemunhos directos estão vivos e já se encetou a revisão e substituição da Guerra que vivemos de tiros e balas, de feridos e mortos, pela versão "distante" dos factos, isto é, pela versão interpretativa segundo o ponto de vista sociológico de cada intérprete ou historiador. Num programa cultural como "Camara Clara" era inevitável tal abordagem literária da Guerra. Espanta é que Joaquim Furtado, autor de uma série séria fundamentada nos intérpretes e nos factos acontecidos, se encontre frente ao salazarista A. Moreira e não o confronte com o seu apoio indiscutível a Salazar e à Guerra e sua efectiva responsabilidade nas nefastas consequências para o país e jovens combatentes obrigatórios. E pelo contrário se ponha a discutir floreados discursivos da dona e as nunca vistas, e só agora recordadas, intervenções de AM no sentido contrário à condução salazarista da defesa do Ultramar.

Embora presentes e bem vivos durante anos e anos, nunca os Comandantes das Grandes Operações militares no terreno do teatro de Guerra, foram ouvidos ou chamados a prestar testemunho sobre tais envolvimentos operacionais. Foi sempre dado voz, preferencialmente, às visões de pequenas histórias pessoais vividas no interior dessa grandes operações. E, quase inevitavelmente, o contador dessa história que viveu, coloca-se no centro da acção ou lugar do herói, fantasiando o episódio nesse sentido.
Uma mais fiel aproximação à verdade exige que o autor desapareça do centro de cena e mesmo do palco de acção, sob pena de cair na tentação pessoal de fantasiar em proveito próprio.

Exemplos típicos de episódios fantasiados ou de pura imaginação ficcionista literária, que circulam por livros de histórias da guerra colonial são, uma os casos mentirosos ficcionados por Lobo Antunes e outra é o relato, fantasiado até ao ridículo, da morte de Maneca Paca pelo Comandante Ten. Cor. Maçanita, na batalha do Luica no decurso da operação Viriato.
Se se continua a contar a história da Guerra Colonial pelas ficcções e fantasias de autores literários, teremos, não História, mas um bom guião cinematográfico

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sexta-feira, agosto 27, 2010

LOBO ANTUNES É PARVO OU...

Lobo Antunes é parvo ou é tão arrogante que pensa que pode vencer a História. Quando o velho pensamento dominante sobre a guerra colonial, aquele dos refugiados em Paris e outros belos refúgios europeus para elites culturais com poder de refúgio em condições, está em perda e declínio em favor do sentido da força de quem deu o sangue para escrever a Historia, o escritor único e inigualável LA (estilo Nabokov), vem desferir sobre os militares envolvidos nessa guerra, umas enormidades blasfemas que depois quer disfarçar com literatura.
António Barreto até já bota discurso de elogio ao combatente, Manuel Alegre foge de ser apodado de desertor como tratador da boca do leão, os cantautores de letras anti-guerra evitam canta-las, quase todo o mundo intelectual que construiu o pensamento dominante de que herói era o fugido à guerra, já pouca coragem têm agora para defender tal tese.
Não podemos calar as atrocidades cometidas de parte a parte mas também não podem os combatentes dessa guerra deixar que a História dela seja mal contada com acrescentos injuriosos inventados. Na guerra participaram em maioria jovens analfabetos das nossas aldeias e lugares mais desconhecidos e atrasados de Portugal, sem a mais pequena possibilidade de escaparem ao serviço militar obrigatório. Se o tentassem fazer arriscavam-se a levar um tiro pelas costas como sucedeu ao Búzio, vizinho e com familiares na minha aldeia.
Milhares desses jovens deram a vida e ficaram enterrados no mato assinalados por algum imbondeiro, tal como aconteceu ao Soldado raso Pires que morreu de um tiro apontado a mim. Estes jovens pagaram um tributo de sangue ao país que era o seu e os enviou, inescapavelmente, e de repente para o centro da guerra sem mais explicações. E com o sangue de milhares de jovens portugueses não se deve nem pode brincar às literaturas de escritor exibicionista.
A História acaba sempre por concordar e reconhecer o sacrifício do sangue, mesmo quando dado por mal empregue ou tenha servido para nada. No tempo arcaico as Erínias não dispensariam a respectiva resposta também sanguínea, e mesmo depois de transformadas em benevolentes jamais condescenderiam com a apologia do anti-herói. E sobretudo relegariam ao desprezo total qualquer atitude de cobardia sobre acto de guerra ou acto intelectual desonesto acerca da guerra, perante a comunidade do povo de pais e mães dos combatentes.

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domingo, maio 04, 2008

A NÃO GUERRA DE PACHECO PEREIRA


O QUE MOVIA QUEM FOI E QUEM RECUSOU A GUERRA COLONIAL?

-A guerra engendrou o mundo, reina sobre o mundo-, disse Heraclito no princípio do século V(a.C.), no sentido de que o mundo (cosmos) é o teatro de uma luta incessante entre elementos opostos, e esta luta gera uma mudança perpétua. Ontem, mais através da guerra violenta, hoje mais através da guerra de idéias, o conflito de perpectivas opostas sobre as melhores soluções é o grande princípio gerador de evolução e desenvolvimento intelectual e material. Também a causa má, a ditadura, que levou à guerra colonial, gerou uma consequência boa, a queda da ditadura e a instauração da liberdade democrática, condição sem a qual não seria possível as benfeitorias de que o país beneficiou. A ditadura levou-nos obrigados à guerra e a guerra gerou no seu interior as condições de acabar com a própria guerra acabando com a causa da guerra, o regime ditaturial existente.

Quer isto dizer que devido às contradições geradas pela guerra no seu seio, foi possível a criação de um espaço de liberdade para originar um movimento de opinião e discussão da guerra. Foram os contínuos mortos e feridos sem soluão de parar que fez os militares repensarem a questão da guerra e tirar conclusões. Sem o sacrifício de milhares de Soldados a tomada de consciência dos comandos intermédios despolitizados nunca teria sido interiorizada nem a guerra questionada. Foi no interior das matas africanas, com sangue, que se inscreveu na consciência dos militares a necessidade de libertar o país da guerra. Jamais os refractários ou desertores por convicção política e anticolonialismo, a trabalhar nas "profissões menores" em fábricas ou restaurantes, a estudar ou a cantar nas ruas de Paris, seriam contributos decisivos para mudar o que quer que fosse cá dentro.

O conceito de liberdade absoluta comporta dois tipos de liberdade relativa: a da exterioridade determinada pela vivência em sociedade e consagrada na lei; a da interioridade determinada pela vontade no foro íntimo do indivíduo. Um exilado, por força do exílio, perde inapelávelmente a primeira liberdade pois fica automáticamente fora dos direitos de cidadania, quanto ao segunto aspecto da liberdade da vontade interior, dado que está fora do meio social onde pode agir, esta apenas lhe pode servir individualmente na forma de estoicismo para suportar as condições duras do exílio. Foi por isso que Sócrates preferiu a morte ao exílio e que mais tarde os gregos ao perderem definitivamente a condição de cidadãos livres em Queroneia, viraram-se para a única liberdade que lhes restava e dedicaram-se a inventar filosofias de vida de refúgio e resistência individual como o estoicismo e o epicurismo.

Pacheco Pereira pertenceu àquele pequeno grupo que podia auto-exilar-se para não fazer a guerra ao contrário de; "aqueles homens, rudes, vindos de um Portugal então muito rural, desajeitados, com capacetes de aço feitos para a II Guerra Mundial". Mas agora, vistos do "lado oposto" à distância de quase 50 anos, tenta pôr em pé de igualdade de "patriotismo" os combatentes e os desertores e até descobre que "também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la". O artigo de PP (Público, 19 de Abril), tresanda a moralismo paternalista de quem tomando uma actitude de escape face ao perigo, quer desculpar-se fingindo sobranceiramente compreender e desculpar os outros que lutaram. Diz que não foi por medo, mas o certo é que nas ruas de Paris e outras cidades da Europa apenas havia o medo da perda de conforto pessoal e não o medo de vida ou morte; diz que foi por ideologia e anticolonialismo mas o certo, como depois se constatou, é que a guerra proporcionava mais liberdade de promover proficuamente o anticolonialismo que nouto local qualquer (registe-se que os pides infiltrados nas Unidades Militares não tinham a coragem de denunciar os companheiros que arriscavam a vida a seu lado); diz que foi por anti-salazarismo mas o certo é que foi na guerra do mato que se gerou o movimento consciente que levou ao derrube do salazarismo e não nas cidades-luz dos auto-exilados.

Certamente ingénuos politicamente, simples e rudes socialmente, ignorantes culturalmente, inocentes quanto a altos juizos sobre guerras justas ou injustas, foram enviados obrigados à força para as matas e picadas de África e cumpriram o seu dever do momento. Comeram dia e noite a ração de combate diária e o pó das matas e picadas africanas, meses seguidos sob o permanente risco de vida. Não precisam nada, mesmo nada, eu recuso-o totalmente, do comísero paternal atestado de "patriotismo" que PP quer atribuir aos combatentes de 1961 " tão capazes de uma heroicidade simples como a que louvamos nos de 'quinhentos' ". Passados estes 50 anos, visto sob a serenidade de julgar que tal afastamento proporciona, cada vez se torna mais evidente que a História apreciará mais e registará primeiramente quem lutou e não quem se auto-excluiu. Não é apenas porque a sua música era superior que o José Afonso foi sempre mais ouvido e importante que os outros cantores exilados, foi também e sobretudo porque lutou, enfrentou e sofreu cá dento junto dos seus.

Por fim, PP propõe que " uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo" porque, "bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma actitude" a que ambos tomaram, quer os auto-exilados quer os combatentes. Só numa concepção da imaginação se pode dizer que foi a mesma actitude, porquanto PP ao ver as imagens dos soldados de 1961 na guerra de Mauser na mão, pode ver-me a mim que estava lá, mas nunca a ele que se recusou participar.
O mesmo fragmento de Heraclito citado na abertura deste texto, traduzido-interpretado por Simone Weil é mais completo e diz: -A guerra é mãe de todas as coisas, rainha de todas as coisas, e revela alguns como deuses, outros como homens, e torna uns livres e outros escravos-.

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quarta-feira, dezembro 19, 2007

AS GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO IX









9º EPISÓDIO


Explicadas as predisposições salazaristas teimosamente intransigentes quanto a qualquer possibilidade de entendimento com os movimentos macionalistas, estes lançaram-se na guerra em Angola e Guiné e após algum recuo perante a investida inicial das nossas tropas, no meio do ano de 64 já nos confrontavam militarmente e causavam sérios danos nas nossas forças militares, especialmente na Guiné, como vimos neste episódio. Assim, a narrativa fílmica vira-se para a descrição das operações de envergadura planeadas pelos altos comandos e executadas por grossos meios militares, como a ocupação da ilha de Como que este episódio nos dá a conhecer com pormenores dos acontecimentos contados por intervenientes directos de ambos lados. Vê-se claramente como uma tropa actuando com meios clássicos de deslocação e logística no meio da mata se torna pesado, de pouca mobilidade e rápido desgaste fisico e moral, restando-lhe quase sempre a necessidade de actuar apenas em sua defesa prória, ao contrário do guerrilheiro que, no seu meio natural, descalço e com uma arma às costas, se move na mata como uma lagartixa e ataca de surpresa.
Indo o estado da guerra já no ano de 64, forçosamente JF tinha de nos contar as causas e motivações do início da guerra em Moçambique que se deu em fins desse ano. Grande parte do episódio é dedicado a contar as peripécias internas dos movimentos e destes perante os chefes dos países africanos, já independentes, e que apioavam e exigiam a unidade dos movimentos de libertação para o lançamento e êxito da luta armada. Ficámos a saber que a FRELIMO nasceu da imposição africana dessa unidade que foi apenas feita ficticiamente no papel. A luta armada acabaria por iniciar-se à pressa e mal preparada só para haver um primeiro.
E também com Moçambique, Lisboa perde uma nova oportunidade de enveredar por uma política apaziguadora. Mondlane bem esperou argumentando, junto dos seus, com dúvidas sobre a luta armada, certamente baseado nas promessas sonsas que Adriano Moreira lhe insinuava. Mais uma vez AM andou a semear esperanças que sabia não poder cumprir. Tal como em Angola com Deslandes, levou para Moçambique Sarmento Rodrigues cujo pensamento ia no sentido de uma abertura política dirigida para uma descolonização pacífica e integrada. Quando Salazar, avisado pidescamente, soube de tal idéia tida à sua revelia, despediu todos e colocou no seu lugar pessoal sem qualquer idéia ou pensamento descoincidente do seu.
Outra vez, uns merdosos dirigentes liberais, se encolheram face a Salazar e a guerra abriu nova e longa frente para mal dos soldados de Portugal.

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quarta-feira, dezembro 12, 2007

AS GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO VIII


8º EPISÓDIO

Mais ou menos explicadas as causas e motivações que conduziram os movimentos independentistas à guerra em Angola e Guiné por um lado, e o respectivo desenvolvimento no teatro de operações e consequentes jogos políticos de Lisboa e sua diplomacia, por outro lado, a narrativa fílmica de JF neste episódio dedica-se a mostrar-nos o interior dos movimentos de libertação e suas relações internas e externas. Depois da total reocupação do norte de Angola pelas tropas portuguesas entrara-se numa fase de ocupação pela tropa organizada e instalada de forma a cobrir em quadrícula toda a chamada Zona de Intervenção Norte(ZIN) que incluia o Caxito onde estava o comando operacinal da zona e Luanda onde estavam sediados os Altos Comandos. Agora a função prioritária era de limpeza das áreas sob controle de cada unidade militar, protecção às grandes fazendas, protecção à Engenharia que limpava e alargava picadas e refazia pontes, vigilância de fronteiras e iniciara-se as operações de assistência médica e acção psicológica junto das populações nativas.
Os movimentos independentistas estavam em dificuldade e tiveram de repensar estratégias, discutir internamente os aliados políticos, definir-se ideológicamente. A necessidade de escolher ideológicamente os aliados levou a lutas internas, no MPLA entre maoistas e soviéticos, no PAIGC entre os países vizinhos, na UPA entre mais negritude tribalista e menos. Neste episódio é-nos mostrado muito ao de leve essas lutas pela obtenção da hegemonia, afastamento e destino das partes vencidas no interior dos movimentos nacionalistas.
Por alguns depoimentos ficámos a saber que houve escaramuças entre os movimentos MPLA e UPA no Norte onde esta última dominava fortemente desde o brutal massacre de 15 de Março de 1961. Igualmente ficámos a saber que dentro do MPLA, movimento de maior preponderância intelectual e pendor mais interracista, houve sérios problemas com utilização de meios humanos não puramente negros.
Nas lutas pela definição ideológica interna dos movimentos fica claro que essa definição passava pelo alinhamento ou não com as duas visões do mundo da altura, a pró-ocidental e a pró-soviética. A luta pela independência das colónias tornava-se uma trincheira quente da luta fria mais universal. E vê-se como Cunhal, muito afastado do mato, já se intrometia na contenda a favor da sua querida União Soviética, enquanto Salazar, julgando estar a ganhar a guerra, organizava gigantesca manifestação de apoio no Terreiro do Paço. Contudo, ao mesmo tempo, os nacionalistas já dispunham de armamento igual ou superio ao nosso para mal dos nossos soldados.

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quarta-feira, dezembro 05, 2007

AS GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO VII


7ºEPISÓDIO

Novamente JF, através de depoimentos claros e certeiros ilustrados com as imagens correspondentes aos enunciados dos próprios depoimentos ou da sua narrativa jornalística, nos dá uma visão ineludível de como foi sempre impossível qualquer solução política para guerra. Todas as tentativas, quer através da diplomacia, quer através de golpes militares, quer através de dissidências de governadores, esbarrou sempre na rural obstinação de Salazar.
O ditador recusou a proposta de Kenedy, fez abortar o golpe dos merdosos Botelho Moniz, Costa Gomes & Cª., não aceitou o pedido de diálogo dos independentistas, e neste episódio ficámos a saber que quaiquer supostas veleidades de Deslandes de uma Angola separatista interracista era também uma traição à pátria. Luis Cabral diz neste episódio que, quando Amilcar Cabral enviou a Lisboa a sua proposta-memorando, naquela altura, bastava falar numa autonomia mitigada e a prazo e provávelmente a guerra teria sido evitada. O velho ditador habituado a mandar só e unicamente na sua propriedade portuguesa jamais consentiria que outros mandassem nas suas quintas espalhadas pelo mundo.
Sempre se falou de Costa Gomes como "O Rolha" dada a sua capacidade de se manter à tona. Pois desta história da guerra que, nos parece isenta e totalmente verosímil, ressalta outro "rolha" que ainda anda por aí considerado senador da pátria, o senhor Adiano Moreira. Num seu depoimento colocado no 3º episódio declarou que "era fácil alimentar as esperanças o difícil era concretizá-las". Neste episódio ficou bem claro a que se referia, quando vemos as imagens da sua deslocação a Angola para anunciar o fim do indiginato e prometer igualdade racial para todos desde logo, entre outras várias e vagas promessas. Levou promessas para alimentar as esperanças dos colonos especialmente e, quem sabe, as do próprio Deslandes, mas depois mancomunou-se com Salazar como já o fizera contra Moniz.
Também ficámos agora a saber que com Mondlane, quando conseguiu estabelecer com este alguma simpatia mediante as vagas promessas de diálogo, tentou aliciá-lo para a causa salazarista com um lugar de Professor prestigiado em Lisboa. Mondlane não aceitou, portuguesmente fez-lhe o mamguito, ao responder-lhe que " uma coisa e acertada são as suas idéias outra coisa é o que se passa lá na realidade". As idéias acertadas na boca de A.Moreira só davam para um convite de integração de E.Mondlane na sociedade portuguesa para Salazar exibir mais esse trunfo multiracial interna e sobretudo externamente.
Claro, A. Moreira, cumpridor à risca e exemplarmente, da doutrina do chefe, pelo aparato popular que dava ao seu estilo de vendedor de esperanças, tornou-se motivo de desconfiânça do ditador solitário e foi corrido. Desde a revolução de Abril anda catedraticamente a pregar democracia. Devia começar por ensinar o seu discípulo Paulo Portas porque a descolonização foi como foi e não outra coisa mais pensada e melhor em vez de o deixar andar a atirar culpas para a revolução e para quem a fez.
Ele próprio sim, é um dos grandes responsáveis pela guerra e consequente descolonização em fuga.

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quarta-feira, novembro 28, 2007

A S GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO VI


6º EPISÓDIO

Está à vista a estratégia utilizada por JF para a apresentação da nossa guerra colonial, projectada cinematográficamente segundo um ponto de vista jornalístico. Após agarrar o espectador com episódios do início do conflito com imagens fortes da guerra, com alguns depoimentos apenas sobre o acontecimento narrado, sem grandes preocupações de enquadramento histórico, tem vindo, em pequenas doses e através de depoimentos dos próprios actores intervenientes no teatro de guerra, apropositadamente no tempo certo a dar as explicações sociais, económicas e políticas que levaram à deflagraçao da guerra nas datas em que aconteceram.
Este 6º episódio tratou, do início ao fim, da explicação por depoimentos e por factos filmados, das sujeições de trabalho, comerciais, políticas e religiosas a que estavam submetidos as várias classes sociais que coabitavam nas "províncias ultramarinas" na altura do fim dos anos 50. E foi nestes anos, então com algumas independências africanas já concretizadas, que tudo se decidiu. Ainda esperaram, os lideres independentistas, pelas eleições de Humberto Delgado na esperança de um governo português com quem pudesse dialogar, contudo a enorme e flagrante falsificação dos resultados gorou toda a hipótese de qulquer futuro entendimento possível.
Os brancos locais já sentiam o estrangulamento do condicionalismo nas culturas da terra, na comercialização dos produtos, na actividade industrial, etc., e não estavam contentes. O aparelho administrativo continuava seguindo e aplicando as velhas receitas ditadas de Lisboa por interesses colonialistas. A Igreja seguia a doutrina religiosa do Cerejeira aplicada à doutrina política e educativa de Salazar. Os nativos estavam sujeitos a várias baixas condições de trabalho e sobrevivência, ocupavam o lugar mais baixo da sociedade, eram criados de servir e pura força de trabalho obrigatório explorado também comercialmente, sem direitos nem ptotecção física ou social.
Neste cadinho social explosivo, deram-se as primeiras revoltas dos indígenas ainda de forma desorganizada, como nos contam os depoimentos deste episódio. Os trabalhdores da casa Gouveia na Guiné, os Macondes em Moçambique, e os padres das Missões protestantes em Angola educam para a insubmissão. Estes movimentos de revolta desobediente são fortemente reprimidos por forças militares de ocupação e deste modo criaram-se os mártires e os exemplos de brutalidade colonialista, necessários aos lideres nacionalistas, para explorar e desenvolver o seu recrutamento para as futuras acções militares de guerrilha.
E passado pouco tempo os movimentos nacionalistas indígenas lançaram-se na sua guerra pela independência e pasmemo-nos, com tanto indício de revolta iminente a nossa pide e governo foram apanhados de surpresa quando a guerra rebentou selvaticamente.
Dos episódios já vistos podemos concluir que, pelo menos duas oportunidades de resolução pacífica da grande questão do ultramar foram torpediadas pelas forças políticas colonialistas interesseiras de Lisboa; a fraude eleitoral da eleição de Humberto Delgado pela qual os nacionalistas alimentaram esperanças, e a outra já relatada de que o presidente Kenedy prometeu ajuda e deu um prazo de dez anos a Salazar para preparar as independêncis. Como não há dus sem três também as esperanças na hipótese Marcelo Caetano não venceu a posição colonialista e tudo se foi inglóriamente.

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quarta-feira, novembro 14, 2007

AS GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO V


5º EPISÓDIO

Mais uma bela peça jornalística montada na perfeição para, duma maneira escorreita sem levantar ondas, tratar do racismo à portuguesa. Pelos depoimentos verbais recordados de forma coloquial pelos intervenientes dos dois lados se vai compreendendo como os portugueses não são capazes de encarar com rigor intelectual uma actitude, neste caso uma actitude com forma e conteúdo social verdadeiramente racista. Portugal nunca teve uma sociedade superiormente educada e elevada para ter qualquer veleidade de impôr comportamentos rígidos espartanos baseados em qualquer utopia social. Fomos para Angola como já tinhamos ido para o mar, à descoberta. Ou pior ainda, para cumprir castigos de condenações, tal como aconteceu a muitos dos fazendeiros que fizeram, à força de braço, da sua lavra uma pequena ou média roça de café, ao mesmo tempo que espalhavam mulatinhos pelo acampamento de contratados.
O branco do Puto, muitas vezes foi para o mato viver junto e do mesmo modo que os nativos, era intelectualmente tão emancipado quanto os pretos e tão racista quanto era cá nas sua aldeia entre componeses pobres e maltratados. Neste episódio está claro que o colono não fazia a mínima idéia do que ia enfrentar quanto mais ter idéias sobre racismo. Ele era colocado na colónia e só depois se apercebia que o branco tinha enormes vantagens legais sobre os pretos por que a lei lhe conferia direitos especiais pelo facto de ser branco. Exercia esse poder de superioridade que a lei lhe consignava também por obrigação social imposta pela elite colonial instalada e dominante. Metido na situação de uma superioridade oferecida aproveitava-se dela como bom exemplar de portuguesismo que era.
O racismo não era um conceito ou uma forma de pensar dos pobres colonos degredados para as colónias mas sim um pensamento base óptimo para estabelecer uma organização social totalmente dominante cuja cabeça estava no governo de Lisboa e que servia os seus apaniguados interesseiros do café, algodão e açucar angolanos e outras plantações altamente rentáveis com mão de obra escrava. Ainda hoje os impositores e beneficiários das leis racistas choram a perda de tal abundância ainda por cima quando já cheirava a petrolífero ouro negro.

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quarta-feira, novembro 07, 2007

AS GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO IV


4º EPISÓDIO

Mantem JF a neutralidade da sua narrativa fílmica e discursiva por entre as tês trincheiras da guerra que se propôs mostrar e explicar aos portugueses. As imagens, os depoimentos, a narração do próprio JF para a ligação e compreensão dos acontecimentos continuam certinhos para uma visão e entendimento global amistoso e conciliador da guerra por ambos contendores. Compreende-se e aceita-se inteiramente tal opção.
Mas eu que estive lá e tomei parte na operação Viriato, tal como muitos outros, sei de acontecimentos que, passados estes anos, já podiam ser contados como o caso do lançamento agendado, preparado e pronto dos pára-quedistas sobre Nambuangongo e que depois de rejeitado e ameaçado pelo Com. do Bat. 96, foi desviado para Quipedro três dias depois da tomada de Nambuangongo, e quando o Esq. Cav. 149, enviado para ocupar Quipedro a 6o kms, já estava no rio Lué e não atingiu a povoação, a cerca de meia dúzia de Kms, porque a ponte sobre o rio estava destruida e a corrente não permitia a passagem a vao. Um guerrilheiro da UPA depõe, neste episódio, que com a tomada em força de Nambuangongo pelas nossas tropas os guerrilheiros se dispersaram e só voltaram a reunir-se mais tarde na zona de Quipedro, tornando assim, esta área a mais perigosa da região. E foi o Esq. 149 que ocupou durante 17 dias esta área com o balanço de dois mortos e váris feridos graves evacuados, enquanto os páras tomavam o avião e voltavam para Luanda ao 3º dia.
Outro feito que merecia referência foi a travessia do rio Dange pelo Esq. 149, por meio de uma jangada totalmente feita no local de paus cortados na mata, lianas, arame farpado, bidons velhos e tábuas de caixotes de munições, na qual passou toda a Unidade e viaturas pesadas carregadas sem o mais pequeno precalço, o que constituiu a mostra maior da capacidade de improviso e engenho do soldado português face à falta de meios adequados. Tudo isto no caminho da Pedra Verde onde se desenrolava a operação Esmeralda, afim de cortar a linha de fuga natural do inimigo.
Percebe-se que não haja espaço no episódio para factos laterais, mas talvez não fosse má idéia a feitura de um episódio que mostrasse os factos relevantes que foram contributo importante para a boa concretizaçao das missões militares e reveladoras da delirante capacidade de adaptação à guerra do soldado portugûes. E ainda melhor se percebe que JF não queira levantar o problema do relacionamento entre tropas do mato e tropas de cidade, entre tropas das picadas e tiros e tropas dos bares e copos. Estes conflitos internos podem omitir-se mas lá que os houve, houve.

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MARAFAÇÕES XXXII

ORÇAMENTO DE ESTADO

O tão propalado duelo, como lhe chamou a propaganda mediática, na verdade não passou de uns disparos de pólvora seca. Verdadeiramente, o duelo não passa de uma criação artificial do pessoal que trabalha para alimentar o circo mediático mediante a estratégia de criar expectativas que causem um clima de suspense. Quem acompanha a política desde há anos sabe de antemão que o Dr. Pedro Santana Lopes é um genético encenador de bluf em todos os jogos que participa. Como o astrólogo que promete a sorte grande aos outros para ganhar a sua vidinha à grande, assim faz PSL junto dos média, deixando no ar umas ambíguas frases soltas de tom algo misterioso, que convém e atrai toda a moscaria dos média para o seu jogo. Depois, na hora da verdade, quando é obrigado a mostrar o jogo são só duques.
Meteu-se em grande, claro, no negócio dos média e faliu, chateou o Cavaco até este o calar com a Secretaria da Cultura e foi um fartote com teatro, concertos de Chopin para violino e o CCB, colocado no Sporting foram seis meses de regabofe até ser corrido para evitar a banca rota do clube, depois na Figueira da Foz plantou umas palmeiras(MST dixit), deixou o município de pantanas financeiras enquanto comeu e gozou à grande, mais tarde na Câmara de Lisboa foi uma lástima ainda pior, e por fim como 1º ministro do país além de uma lástima foi uma desgraça e vergonha nacional.
Com este curriculum de incompetência, vejo com preocupação que os portugueses com a conivência e proveito dos média, continuam a dedicar atenção e criar alguma expectativa saudável a tamanho charlatão. Tal figura não sai da política porque esta é o único meio que tem para ganhar a vida à grande e manter o seu enorme ego atestado. Hoje em dia jamais algum grande empresário privado lhe entregaria a condução de qualquer alta responsabilidade e eu não o aceitaria sequer como fiel de armazém.

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quarta-feira, outubro 31, 2007

AS GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO III


3ºEPISÓDIO

Neste episódio JF mantem a explicação da guerra através dos depoimentos posterioes dos combatentes dos dois lados. Tomada e ideia de relatar o início das hostilidades enquadradas apenas na política caseira colonial, nesta altura, desencadeadas as operações no terreno de parte a parte já não faria sentido outra coisa que não analisar as motivações, armamento, condições, modos de actuação, tácticas e estratégias de cada lado. O filme de JF até este episódio mantem um equilíbrio notável de rigor e honestidade histórica, montando os fios filmicos e documentais condutores do desenrolar do teatro de início da guerra ordenadamente nos momentos certos, o que torna a leitura e compreensão dos factos, fácil e acessível a todo o povo português. Sobretudo aos portuguêses que estiveram lá, foram intérpretes dos factos, são testemunhos vivos de muitas das acções relatadas e até hoje ainda ninguem lhes tinha ajudado tanto a entender a guerra em que se viram envolvidos.
O novo episódio incide especialmente no sentimento dramático e de vingança que se apossou, justificadanmente, dos portuguêses de Luanda após os relatos dos sobreviventes acerca do tribalista bárbaro massacre empreendido pela UPA em 15 de Março de 1961 no norte de Angola.
As primeiras tropas são recebidas como salvadoras e aconselhadas pela população anónima a retaliar da mesma forma sobre os pretos indígenas, mas também encorajados oficialmente e até prescritos os procedimentos de cortar cabeças e exibi-las para exemplo. E realmente a resposta da primeira tropa foi igualmente irracional e bárbara, foi a tentativa de devolver no espelho da guerra uma imagem igual para a UPA e de resgate e segurança para Luanda. A mortandade feita pela nossa tropa com o infantil pretexto de mostrar "que bala de branco mata mesmo", ou com o cínico pretexto de "tirar o retrato", que levou ao arrasar de sanzalas inteiras, foi a principal causa da fuga das populações para a mata. A partir daqui estas populações foram enquadradas pela forças rebeldes que passaram a contar com mulheres, homens e filhos na rectaguarda para educação independentista e recrutamento para a guerrilha sem parar.
Depois desta primeira tropa enviada em socorro para conter e evitar que os sublevados nativos fossem carregar sobre Luanda e aliviar as tensões que lá se viviam desesperadamente, foram enviadas novas tropas em barcos literalmente entulhados, que vão desenvolver, já operacionalmente coordenadas por estados maiores militares, operações planeadas para ocupação de todo o norte ocupado territorialmente pela Upa.
Ressalta ainda deste episódio, a candura cínica de Adriano Moreira, que logo após o falhado golpe de B.Moniz, foi nomeado por Salazar para preparar e dirigir o Ultramar em guerra, quando depoia que "é fácil alimentar uma esperança o difícil é concretizá-la". Por acaso quando apoiou a ida para a guerra não lhe veio à cabeça tão sábia sentença? Sendo um dos altos responsáveis vivos pela guerra e pelos seus 9000 mortos e muitos mais feridos, vem sofísticamente quase auto elogiar-se porque alimentou uma esperança vã. E não tem vergonha de o vir proclamar públicamente.

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quarta-feira, outubro 24, 2007

AS GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO II


2º EPISÓDIO

Confirma este 2º episódio que JF quiz mesmo fazer um filme sobre a nossa guerra colonial a partir das intrigas e determinações de carácter dos homens políticos e militares que a impuseram e dirigiram. Pura e simplesmente, segundo JF a nossa guerra não tem precedentes históricos, nem "ventos do tempo", dá-se pela vontade e teimosia de Salazar e sua escolta de duros ainda mais teimosamente quando Kenedy exige um programa, a prazo lato, para a independência das nossas colónias, ou apoiará a sublevação dos movimentos nacionalistas. É uma opção jonalística respeitável na medida em que os relatos directos dos intervenientes são explícitamente claros e colocados de forma imparcial, honesta e adequadamente inseridos na crónica filmada, por um lado. Por outro lado, sabe-se como as contextualizações, dado o seu carácter subjectivo, se prestam a manipulações ideológicas. Supondo que grande parte dos portugueses hoje, já entenderam bem os imparáveis tempos de mudança da altura, é muito bom e elucidativo que fiquemos agora a conhecer as motivações políticas e pessoais dos mesquinhos chefes caseiros.
Ficámos a saber como Kaulza "fura" a revolta por não "gramar" o Botelho, como este face à sua demissão inesperada não é capaz de organizar as tropas e impôr-se pela força e cede, mesmo com a protecção americana, como C.Gomes está na situação de golpista e depois vai ser situacionista ou anti-situacionista em todas as situações, sem nunca enfrentar de frente e corajosamente qualquer situação, como A.Moreira aparece e apoia o contra-golpe e hoje passeia pelo país o seu estatuto de "senador da pátria", sem ninguém lhe pedir responsabilidades pelos 9000 mortos para nada. Enfim, ficámos a conhecer melhor estas figuras de comédia rasca que conduziram o país à dolorosa tragédia da guerra.
Com este episódio, eu próprio fiquei a perceber e sentir na pele como o povo está de parte e é joguete e carne para canhão, no jogo de personalidades, entre estes senhores presidentes e generais sem envergadura humana. À altura do rapto do Santa Maria, passei algumas noites deitado no chão num "ninho de metralhadora" nos terreiros do quartel de Santa Margarida, então soldado miliciano. Passados uns tempos, já cabo miliciano, aquando da tentativa do golpe do B.Moniz, passei três noites a dormir dentro do carro de combate (Paton AM44) entre outros, colocados em fila frente à porta de armas do quartel, em estado de prontidão total para avançar. Para que lado dos contendores ia avançar? Em que trincheira ia combater? Ainda hoje não faço idéia.
Sei é por força de corpo presente, que passados mais uns meses estava mobilizado para a guerra de África, contráriamente ao incialmente previsto e anunciado de ir para o leste europeu integrado em forças Otan, e um mês após a mobilização já estava participando na operação Viriato para a tomada de Nambuangongo, com risco de vida 24 horas por dia. Para os senhores da guerra, sempre com o rabo de fora, a participação dos cidadãos é limitada ao cumprimento de ordens de serviço e guias de marcha.

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quarta-feira, outubro 17, 2007

AS GUERRAS DE JOAQUIM FURTADO


Iº EPISÓDIO

Pela amostra deste 1ºepisódio parece que JF quer conciliar, dar uma perspectiva conciliatória, das três guerras que se travaram no Ultramar, que sendo uma só, tem designações conforme a trincheira de cada combatente. E também pela abertura do filme, com arranque de depoimentos dos três lados e respectivos pontos de vista, sobre pormenores de actuação e horror no terreno de guerra, parece indiciar que se quer "dar um filme sobre a guerra" e não um "filme da história da guerra".
Num filme da história da guerra este iniciar-se-ia com uma análise circunstanciada do estado do mundo e sua dinâmica política e social desse tempo no conjunto do jogo da guerra fria, enquadrando e explicando a guerra no espírito da época. Parece que também aqui, ao inclinar-se para um filme da guerra e não para um estudo histórico da guerra, evitando salientar e esclarecer históricamente o gradiente de responsabilidades, vai no sentido de uma perspectiva conciliatória das três frentes. Ora, com grande parte dos intervenientes ainda vivos, pode esta guerra filmada contribuir conciliatóriamente, mas será pequeno contributo. Veja-se que passados mais de trinta anos cada parte refugia-se na sua designação que dá à mesma guerra e isso tem um significado divergente preciso.
Também este episódio revela a esperteza dos nossos políticos, polícia política e colonos. Face a indícios e "panfletos" que circulavam nas vésperas do 15 de Março de 1961, preferiram sempre apostar na fidelidade dos indígenas perante o branco. Até a Pide, sempre tão atenta à oposição interna, descansou na confiança e nos 500 anos de submissão dos "pretos", e perante papéis e dados públicos duvidosos, preferiu vigiar os brancos em Luanda. Os políticos face aos relatórios disseram nada, os colonos face à necessidade de protecção militar pediram armas para si que era quanto bastava. Não contavam com a inteligência dos nativos e estes pura e simplesmente na noite do assalto, quando os fazendeiros dormiam, roubaram-lhes as armas. E foi o massacre.

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terça-feira, outubro 16, 2007

O ESQUADRÃO 149 E A GUERRA II


DEPOIS DAS BALAS, DEPOIS DE (x)

Depois das balas e carne rasgada
quem de pronto nos acudia?
Depois das feridas e estilhaços
quem de mão firme e armada
de garrotes, lancetas e cirurgia
sarava buracos, cosia pedaços?

Depois de meses de mato e mato
e queda mental quem nos protegia?
Depois da moral em baixo e fadiga
física das batidas, que mãos e trato
humano nos animava e nos valia,
nos devolvia a alma na mão amiga?

Depois d'afugentar mortes a lanceta
quem salvou vidas quase alminhas?
Depois de salvar soldados à morte
quem foi noite fora dar à Mãe Preta
menino preto, pretinhos e pretinhas
salvas por suas mãos saber e porte?

Depois de tanta guerra e tanto bem
distribuir, quem foi herói imparcial?
Depois de tanta vida e tanta luta
nobre a dar a mão e levantar recém
almas caídas, quem foi umbilical
cordão entre vida e morte em disputa?

Depois de tanta guerra e vida veloz
a zelar vidas, resta apenas o coval?
Depois do derradeiro combate
pode o céu levá-Lo, que para nós
será memória viva, que a Um Tal
Homem nenhuma morte há que O mate.

José Neves

Gorjões,10.10.2007

(x) - Poema lido na confraternização anual do Esq. Cav. 149, este ano de homenagem ao Dr. João Alves Pimenta.
Évora em,13.10.2007


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quinta-feira, maio 10, 2007

GUERRA COLONIAL


CAPA DO LIVRO
"ESQUADRÃO 149 A GUERRA E OS DIAS"

DE JOSÉ NEVES






ASPECTOS DA TOMADA DE NAMBUANGONGO

Segundo Tito Lívio, após a victória de Canas, Maárbal comandante da cavalaria, voltou-se para Aníbal e disse-lhe: "É indispensável que tires deste triunfo todas as consequências, que dele devem decorrer. Dentro de poucos dias deves jantar no Capitólio. Entendo que deves seguir quanto antes, eu te precederei com a cavalaria, de sorte que os Romanos venham a saber da minha chegada, antes de terem tido notícia da minha partida".
Aníbal recusou invocando tempo para meditar e reflectir acerca da marcha sobre Roma.
Maárbal retorquiu: "Sabes vencer, Aníbal, mas não sabes aproveitar-te da victória".

Em Julho-Agosto de 1961, em Angola, dos três Comandantes de forças militares empenhadas na tomada de Nambuangongo, apenas um teve a visão do general Maárbal e por coincidência também era o Comandante da coluna de cavalaria, o Esquadrão 149. Ainda antes da grande arrancada do Esquadrão do Ambriz, foi enviado, em exploração do terreno, um pelotão que foi atacado no Cavunga a 53 kms e regressou de noite, temeroso e aflito, com alguns feridos ligeiros. Imediatamente o Comandante, perante a perplexidade dos oficiais, deu ordem para o mesmo pelotão se preparar e avançar de novo para explorar a victória do Cavunga sem dar tempo à recomposição defensiva do inimigo. Este episódio deu discussão acesa entre Comandante e Alferes que atrazou o arranque definitivo do Esquadrão e foi motivo de duradoura discórdia entre ambos, embora o Alferes reconheça hoje a razão e justeza militar do sacrifício pedido, face ao sinal que tal acto arrojado representava quer para o inimigo quer para o interior da Unidade. Hoje o Alferes pode orgulhar-se de ter sido o primeiro a passar as portas da guerra, com feridos mas com sucesso e homens receosos mas confiantes combatentes já iniciados no fogo de combate.
Já houvera precedentes mas este foi o sinal claro da estratégia geral que estava na cabeça do Comandante e um aviso inequívoco de actuação futura dado a todos os oficiais, sargentos e praças sob seu comando. A surpresa era a táctica diária, explorar em força cada victória era a estratégia geral até ao objectivo final. Em Quimbunbe, após um segundo acampamento e analizada a actuação, forças e armamento do inimigo, o Comandante decide avançar de noite e dia sem parar, exactamente no sentido de chegar junto do inimigo antes que este soubesse da sua partida. E sobretudo estar sempre pronto a carregar sobre o inimigo e fazê-lo recuar mesmo que este infligisse feridos e mortos como aconteceu na batalha de Zala. Com tal rapidez e força de pressão contínua não foi possível ao inimigo colocar mais abatizes e alçapões na picada e de noite tornou-se inofensivo.
Constatado o sucesso prático do uso da estratégia definida , após um dia em Zala para hastear bandeira, com parada a rigor de Soldados sujos e sorridentes, rotos e ratos de guerra, no Posto Administrativo local, o Comandante quer impôr a marcha imediata para Nambuangongo, mas aqui a vóz dos subalternos foi mais forte devido aos feridos, à fadiga geral e sobretudo à falta de munições. O Comandante pensou arrancar com as condições existentes e uma força menor desde que pudesse contar com o pelotão adido de blindados ligeiros, mas este não aderiu e o Esquadrão ficou em Zala outro dia para ser reabastecido por via aérea através duma pista de terra capinada no momento. Na arrancada final de Zala para Nambuangongo manteve a mesma determinação de fazer a caminhada de noite e dia sem parar e foi confirmado o facto de que o inimigo estava impotente e sentia-se batido pois limitou-se a observar de longe a progressão sem intervir.
O Esquadrão 149 não foi o primeiro a jantar em Nambuangongo, tomou o pequeno almoço depois do jantar do Batalhão 96, mas também esta Unidade havia iniciado a operação dias antes e desobstruira um percurso mais curto. E foi notório e sentido pela tropa das duas Unidades em marcha sobre o objectivo final, que o Estado Maior da Operação Viriato se serviu da actuação fulgurante do Esquadrão 149, estimulando a competetividade para ser primeiro e obter os louros da conquista, as tropas mais próximas e assim atingir em tempo útil o objectivo militar que correspondia ao objectivo político da altura.

Por natureza própria ou por conhecimento e estudo, o Comandante Capitão Rui Abrantes, professor de táctica na Academia Militar, demonstrou na prática ter as qualidades e visão estratégica do grande Maárbal, pela lucidez em analizar as potencialidades próprias e do inimigo, pela argúcia, sagueza e capacidade estratégica, pelo comportamento exemplar na frente de combate, pelo respeito militar e humano quer frente aos seus homens quer perante o adversário, desde o primeiro dia conquistou a disposição e entrega total dos seus Soldados face a qualquer situação. E todos confiaram e corresponderam tão pronto, decidida e abnegadamente sob constante perigo de vida, que os regressados ilesos se sentem heróis vivos resgatados da companhia dos heróis feridos e mortos em combate, pela conduta, coragem e moral impostos, desde a primeira hora pelo comando do Esquadrão.

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